De Pedro, para Inês

Rio sem rede nem regra nem freio contigo, a duas vozes

As gargalhadas brotam gordas, cheias, sedentas de ar fresco

A alegria pura evade-se de mim quebrando grilhões e dores passadas

Tens o dom de lhes dar asas maiores que as com que sonhavam

Tudo flui desgarrado, torrentoso, incontido, de peito cheio

Também as palavras se pintam de mais cor neste arco-íris de sons

A vida tem outro sabor quando se desenha assim, insubmissa

É fresco o dia que me recebe através de ti, nesse sorriso que sinto

Neste descontrolo saudado me redefino no tom do sublime

Feito por ti, de novo, como na primeira vez, como nunca antes

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Fecha-te em ti e deixa o nada entrar

Esvazia até a pele do que não te serve

É aí, longe do ruído e do ar, que estarás

És o que encontrares para lá de onde já estiveste

Fora de qualquer conforto, do seguro, do vivido

Na ausência de tudo vive toda a razão do ser

É escuro esse túnel, eu sei, e longo e frio

Mas todos os negros já foram luz, procura-a

Acelera o passo, não temas o salto vazio

Nessa descoberta de ti serás maior, por isso vai

O fim da viagem espera-te para ser o início do mais

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O campo clama por ti na voz da erva verde que ondula livre ao vento

“Vem deitar-te no nosso restolho”, parece dizer

Os pássaros entram de seguida, em allegro vivace

O seu chilrear repete os ecos das plantas, dando-lhes mais corpo

É a canção da Primavera que entoam, em teu nome

Louvam uma musa que apenas conhecem dos meus suspiros

Saúdo o meu exército voador, esse que parte em tua demanda

Com ele vai a brisa, ainda juvenil, da manhã

E os perfumes das flores frescas do campo

Que encantam as abelhas e lhes arrancam serenatas sibilantes

São tantos os namoros que me rodeiam nesta Natureza

Todos me recordam sonhos meus, tão presentes

Sentidos verdadeiros que desejo para um amanhã que virá

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A manhã acordou dormente e pueril, como no início do tempo

Tudo o que é natural a saúda com a leveza dos dias de antes

Até o sol desponta ainda tímido, alheio a todo o seu poder

Mas tu já te apresentas inteira para mim, sem neblina a filtrar-te

Falas mais alto que o chilrear sinfónico dos pássaros

Tens mais luz do que o céu consegue emitir

E aqueces a alma deste homem que de longe te sonha ainda, já

Sei-te algures para lá do horizonte de copas de árvores que vejo

Não tenho aqui olhos para ti, estás além do que posso ver

Mas não é a tua presença que te define em mim

És dimensão distinta, intangível e etérea

Talvez mais presente até por isso, por te ver sem olhos

Não preciso de cábula para te ter no meu despertar

Colada à memória dos dias que teremos em tantos amanhãs

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Tive-te entre passos perdidos e momentos ganhos

Desnuda do imenso que és fora de mim

Entregue a algo maior do que somos sem nós

Foste a tua verdade mais pura, ali deitada

Nada te faltava além do nada que tinhas

Porque nos enchemos de tudo, sem mais

E nesse imenso vazio do resto, nos sentimos inteiros

Felizes, fugazes, loucos, unos, completos

Rendidos ao insano, viciados nas nossas peles

Presos ao seu odor carnal, primitivo

Um redemoinho de emoções, uma luta livre de amantes

Sem estádio, nem outro público que não os nossos gemidos

Uníssonos na língua perdida que ambos falamos

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Recordo em memória viva na pele os ecos de ti

Esses momentos reais que me deste com a tua presença

Há infinito escrito no livro que os relata

Um tempo que dura para além dos nossos encontros

Que desafia a lógica, o palpável e o tangível

É assim o teu poder surreal, intenso, longo

O imenso calor que emites, que produzes, em estado puro

E que se prolonga pelos dias e noites na minha pele

São os elementos em forma de mulher a seduzir-me sem apelo

Dourando o horizonte que me envolve ao olhar-te

Quero mais desse sentir permanente e viciante

Perder-me sem pressa na tua magia

Até me encontrar por fim no contorno desses lábios

Onde desejo passar os meus amanhãs em paz

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Navego-te sem bússola num mar a perder de vista

Sulcando o corpo de estrela guia que me ofereces

A cada braçada recebo uma nova surpresa, feita de ti

São colos que me envolvem e seduzem, sereiando-me

A força magnética da tua voz, da tua pele, impele-me até nós

Sem âncoras ou medos ou portos seguros que me bloqueiem

Livre para seguir a tua maré, ao sabor das ondas

Tudo no cosmos conspira para que sejamos o que queremos ser

O resumo daquilo que sempre desejamos, em modo de infinito

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Leio todos os dias as tuas palavras, as que levo escritas no peito

São elas que me embalam em voz de sereia ao deitar

E me confortam do frio gélido da tua ausência

Tudo o que me dás em linhas e fora delas tem esse calor essencial

O sopro de uma vida em que te fazes de sol e de todas as luas

És ao mesmo tempo o meu chão e o vazio onde flutuo em sonhos de ti

Esse etéreo estado de alma plena que é o meu desde que me tens

Luto para fazê-lo palpável, é essa a minha odisseia

Nada mais me arrasta a vontade como a vontade de seres minha

De te visitar com a ponta dos dedos, traçando-te inteira

Loucamente jogado a ti e ao teu corpo sereno

O oásis de todos os desertos onde já sequei nos meus passados

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Faltas-me em todos os segundos que faltam até me deixares de faltar

Nestes infinitos em que não estás resta-me recordar o que já vivemos

Relembro cada olhar, cada beijo, cada abraço

E projeto o futuro, onde estás tão presente

Os dias que virão são teus, todos teus, neles vives em mim, pura

Quero construir-nos a quatro mãos, entrelaçadas, nesse amanhã

Vem até mim, passo a passo, sem hesitar

Faz essa caminhada que te traz até ao meu peito

E fica, residente, para todo o nosso sempre

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São despidos de fruto os nossos dias, não os vejo no horizonte fundo

Sei que nada de ti será meu, a não ser a vontade, talvez

Mas isso não me tolhe o espírito, sempre livre e louco

Uma parte de mim até abraça esse não futuro que nos define

Porque são mais belas as batalhas impossíveis, como disse Cyrano

Talvez isso me resigne o corpo mas não a alma, nunca a alma

Nessa, imensa, vives serena mas efervescente

Tens esse poder silencioso, de me nutrir do nada

De me seres tanto sem teres de me ser o que quer que seja

A espaços vou colecionando pequenos retalhos de ti

Palavras, imagens, tempo que me dás, só nosso

Isso preenche-me vazios já antigos, onde a tua falta se sente

E sigo a minha estrada, a nossa, em passadas certas

Serão paralelos estes caminhos que trilhamos, sem nós

Mas a esperança de um dia se tocarem, eles, eu, tu, essa permanece

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Dá os teus braços aos meus ramos

Faz deles raízes cravadas no solo, fundo

E seiva, para suportar os dias escaldantes

Nutre-me, irriga-me, de água, de vida

Com o teu tempo, pousado em mim

Sereno como esse sono que se deita no meu

E corre, solta, por veias e poros dentro

Não traves a marcha nas curvas do caminho

Descobre os recantos escondidos e aninha-te neles

Singela e sábia, subtil e singular, como és

Abre a tua casa para os seres que me rodeiam

As cigarras no Verão, esquilos e aves no tempo frio

A todas lhes darás guarida e corpo

Em ti serão felizes, protegidos dos perigos de fora

Sê para eles, para mim, sombra frondosa

E também guarda vento e frio e chuva

Tu, que és feita de Elementos, cobre-nos da sua fúria

Na paz do manto que estendes com o teu olhar

Sobre o Mundo, sobre mim

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