A Madame

Miss Karla vivia e trabalhava num rés-do-chão alto de um daqueles bairros de Lisboa que a maioria dos lisboetas desconhece. O prédio, com mais algumas dezenas de anos do que ela, denunciava a classe média dos seus habitantes. Ficava numa rua tranquila, um contraste total com a vida de desvario levada pelo actor que lhe dera o nome, e que morrera de cirrose meia dúzia de anos antes de Karla para lá se ter mudado. Nem a irrequietude do seu cão perturbava a paz que ali se vivia.

Miau era um cão com nome de gato. Não era ironia de Miss Karla, o nome tinha vindo do latir miado que Miau tinha desde que nascera, e que não engrossara com a idade, como acontece normalmente com qualquer animal. Era mesmo um som bizarro o que lhe saía da boquinha de pequinois, e a sua sorte é não existir escola de cães, senão Miau teria sido trucidado no recreio pelos cãezarrões com latires de gente grande. Karla já estava habituada ao som do seu companheiro de tudo, mas os clientes que frequentavam a sua casa de meninas semi-virgens, como Karla as chamava, não gostavam do animal, porque se desconcentravam no acto sempre que Miau se ouvia da marquise onde Karla o mantinha durante o dia. Sim, porque Miss Karla era Madame.

Todos na casa, as “sobrinhas” e os seus “tios”, pensavam que Karla era um nome de código, uma espécie de Mata Hari do sexo. Era uma presunção razoável, já que as jovens que ali trabalhavam, e que se auto-entitulavam Karlettes nas costas da patroa, respondiam por nomes como Sophia, Judy, Claudia, Lola e Marilyn. Eram invariavelmente nomes estrangeiros, apesar de serem todas portuguesas e de a maioria delas nunca ter sequer saído das fronteiras de Portugal. Miss Karla tinha-as baptizado assim porque a fascinavam as divas de outrora, as actrizes e cantoras dos anos 40 e 50, de que se lembrava das revistas que a sua avó Alzira tinha trazido de casa dos Senhores onde trabalhara, lá para o Norte, nem ela sabia bem onde, e que viraram relíquia de família. Enfim, se calhar “baptizado” é um termo desadequado à circunstância, é melhor dizer que as tinha “criado”, porque as meninas eram na verdade em muitos aspectos saídas da cabeça da sua Madame.

Miss Karla nascera assim mesmo, como Miss Karla, ou melhor, como Karla, o Miss veio com a idade. E ela sim, tinha sido baptizada como manda o figurino, num dia de inverno cheio de luz na Igreja do mesmo nome. Os pais de Karla escolherem a versão com K porque leram que era assim que na Alemanha escreviam Carla, um nome de que gostavam muito, e como eles pensavam um dia emigrar para lá, acharam que era uma boa ideia. Mas acabaram por nunca ir, e Karla passou a vida a esclarecer que o seu nome não era com C.

Os seus pais acabaram por ficar por Lisboa, pelo bairro de Carnide, lentamente abdicando dos sonhos de uma vida melhor em terras da Europa Central. Eram da mesma aldeia minhota, Rio Mau, e tinham vindo tentar a sorte para a capital nos êxodos dos anos 70, fugindo à pobreza que assolava aquele interior de Portugal. Curiosamente, as suas famílias nem eram grandes amigas lá na terra, tudo por causa de uma cabra de Albino Vasques, avô paterno de Karla, que tinha ido parar ao prato de Carlos Ramalhete, avô materno. “Que culpa tenho eu que a danada tenha ido para o meu lameiro comer as couves?” O castigo da pobre cabra foi uma facada no pescoço… quando soube, o dono legítimo, homem de temperamento irascível, bem tentou ir ao pescoço do vizinho, chamando-o de cabrão para cima, ou para baixo, conforme a perspectiva. Não era por causa da cabra, era insulto mesmo. Valeu o padre, que naquele dia celebrava missa em Rio Mau, e que com ameaças de excomunhão lá acalmou o lavrador.

Oa anos foram passando e as quesílias entre os dois sucediam-se, ora à mesa de dominó na casa de pasto da Alice “Vesga”, ora quando tentavam que a sua vaca fosse a primeira a ser ordenhada na leitaria cooperativa. A sorte era que as suas mulheres eram primas e muito amigas, e lá iam aparando os golpes dos seus homens. Eles próprios eram parentes, ainda que um pouco mais afastados. Rio Mau era uma aldeia onde grassava a consanguinidade, o que se calhar ajudava a explicar alguns dos desiquilíbrios dos seus habitantes.

Um dia uma bomba rebentou na aldeia… João, do clã Vasques, estava de amores por Maria Adelaide Ramalhete, ou Laidinha como lhe chamavam, e pediu-a em casamento sem dar cavaco a ninguém. Um drama de Montecchios e Capuletos com sabor a Minho estava em vias de chegar a vias de facto. Mais uma vez foi o Padre Vicente, uma espécie de agente secreto da Providência Divina, que veio salvar a situação no sermão do domingo seguinte. Vicente, que tinha desistido do seu amor de juventude, um estudante de teatro do Porto, quando abraçou a vida de seminarista, não podia ficar calado e ver duas pessoas a perderem-se um do outro numa aldeia que não tinha mais de uma meia dúzia de ruas. Com o peso que a batina lhe conferia, o padre passou 30 minutos a desfazer todos e quaisquer argumentos contra o casamento de João e Laidinha. Depois, na Paz, chamou os dois homens desavindos e obrigou-os a abraçarem-se e a jurarem perante a cruz de Cristo que não voltariam a tentar estragar aquela história de amor.

Passados alguns meses chegou o dia em que tudo mudou na vida do casal Vasques, a vários níveis. O casamento que parou a aldeia deu-se nos primeiros dias de Março, por altura da Páscoa. No final os convidados ficaram na cavaqueira à volta de uma enorme oliveira inteira que ardia, aquecendo a noite e as almas Mauzenses, que não Más. João Vasques escutava as estórias que o seu primo Toino, vindo de Lisboa para a boda, contava sobre a sua vida na grande cidade, para onde tinha partido uns anos antes para tentar a sua sorte na restauração. O sonho de ter a sua taberna minhota estava distante mas tinha conseguido emprego numa marisqueira da Rua das Portas de Santo Antão, propriedade de um galego. Toino estava a pintar um quadro mais dourado que a realidade, dizendo que ele era o dono do estabelecimento. Ali, junto dos seus, sentia uma necessidade primária de se vangloriar, de mostrar um sucesso que na verdade não tinha atingido, nem de perto nem de longe.

Aquele relato de uma vida afluente, num restaurante que servia “a nata da nata”, desde os artistas dos teatros vizinhos aos burgueses que os frequentavam, fez brilhar os olhos de João Vasques, que tinha 23 anos cheios de sonhos. E, de repente, lançou um “também vou”.

 

– “Também vais onde homem?”, perguntou Maria Adelaide, ou Laidinha como lhe chamavam, a sua mulher.

– “Pra Lisboa. Vamos. Aqui não vivemos, estamos a morrer aos poucos.”

 

Laidinha não queria acreditar no que ouvia, e pensou que talvez fosse a bagaceira a toldar-lhe o raciocínio.

 

– “Tem juízo João, vamos agora para Lisboa!!!! A nossa vida, a nossa casa, a família, está tudo aqui. Não quero sair de Rio Mau.”, disse, levantando a voz de tal maneira que todos à volta da pequena praça da aldeia se viraram para ela.

– “Vamos e não se fala mais nisso. Quero o mesmo que o Toino conseguiu, quero poder dar-te o melhor”. E colocou a sua mão no ventre da mulher, que mal sabia ele ficaria grávida nessa mesma noite. “E os nossos filhos serão um dia patrões e não terão de sofrer esta vida de nada”.

 

Toino estava branco. Não era tanto o medo de ser desmascarado quando o primo chegasse a Lisboa e descobrisse que o apartamento na Baixa era realmente um quarto partilhado com dois alentejanos lá para a Amadora, e que em vez de dono de restaurante, Toino não era mais que um mal pago empregado de mesa. O que assustava Toino era a responsabilidade de ter despertado em João a vontade de mudar de vida, uma vida que ele Toino sabia que era bem mais madrasta na grande cidade do que ali, na pacata aldeia de Rio Mau. Ao menos ali nunca tinha tido fome. Mas era tarde demais, João tinha decidido e não iria perder a face perante todos, especialmente com o Arlindo, o seu rival do episódio da cabra que gostava de couves do alheio.

Karla nasceu já em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, nos últimos minutos do último dia de um ano que não tinha tido nada de memorável até esse momento. O parto foi turbulento, não só por um quadro clínico que se revelara crítico, mas também porque tinha sido realizado num corredor que mais parecia saído de um qualquer dormitório de gulag soviete. O azar havia ditado que as contrações de Laidinha começassem a apertar depois do jantar. João Vasques, que desde o início de Dezembro mal dormia para estar alerta não fosse o bebé nascer antes da data prevista, pegou na mulher em braços e partiu para o hospital. O caos do fim do ano mais conturbado da década esperava-os…

Lisboa é uma cidade relativamente pacata no reveillon. Isso é verdade hoje e na década de 60 ainda mais verdade era. As celebrações ficavam-se por casas particulares e um ou outro hotel, não havendo tradição de festejos populares que atingissem as ruas. Mas naquela noite os deuses deviam estar loucos e uma tempestade violenta abateu-se sobre a cidade, como se a Natureza quisesse marcar a fogo, ou melhor a vento e água, um ano até então banal a todos os níveis. Ventos ciclónicos aliados a uma chuva contínua tinham posto a cidade em estado de alerta, de sítio mesmo. Num país morno em tudo, até no clima, um temporal destes é o suficiente para trazer o caos. E naquela noite assim foi. Voaram carros e árvores, sucederam-se os acidentes, desabaram telhados, inundaram-se casas e lojas, caíram postes eléctricos e as sete colinas de Lisboa rapidamente se transformaram em sete cascatas de água turbulenta que arrastava tudo à sua passagem a caminho do rio.

Santa Maria, o grande hospital da cidade, estava a ter o seu maior teste desde a sua abertura uma década antes. Ali afluíram milhares de pessoas com pequenos ou grandes ferimentos. O enorme edifício (desenhado pelo alemão Hermann Distel), um símbolo do nacionalista Estado Novo, mas que também podia estar num país para lá do muro de Berlim, não estava preparado para tamanha avalanche de problemas. As salas de operação estavam atulhadas de traumatizados e os médicos e enfermeiras não tinham mãos a medir. Dir-se-ia que se estava num hospital de guerra em plena frente de batalha. Não era o melhor dia para uma criança vir ao mundo… mas foi nesse dia que Karla decidiu nascer, e também neste caso a força da Natureza foi indomável.

O trajecto de casa dos Vasques até Santa Maria, foi uma aventura ao estilo de Júlio Verne. Sem terem ainda condição financeira para ter carro, um verdadeiro luxo naqueles tempos, João e Laidinha tinham ido com um carro de aluguer de um vizinho do bairro dos arredores de Lisboa onde moravam naqueles tempos. A distância até ao hospital, que num dia normal demorava 15 minutos, prolongou-se por 1 hora, tais foram os obstáculos que o caminho lhes foi colocando. Karla estava a ser posta à prova mesmo antes de sair do ventre da sua mãe. Seria essa a sua sina ao longo da vida.

Quando finalmente chegaram ao hospital dirigiram-se à recepção, onde uma enfermeira com cara de enfermeira lhes disse que todos os médicos estavam ocupados. “Mas a minha mulher está a dar à luz, é uma vida que está em risco, duas na verdade”, gritou, visivelmente nervoso. À sua volta estavam mais de 50 pessoas, ocupando qualquer metro quadrado disponível, de pé, sentados e até deitados no chão. A enfermeira, que estava sozinha a esgrimir perguntas e queixas, não dava conta do recado. Ela própria parecia precisar de cuidados médicos, a julgar pelo transtorno e stress que o seu rosto transparecia. Nunca tinha visto nada assim nos seus 8 anos de Santa Maria. Por segundos parou para rezar à Santa, ela que nem era uma mulher de portas abertas por quem a queira descobrir.tranqunha dados suficientes para uma tese de doutorameé, mas foi curta a prece porque estas ovelhas precisavam de si, não de orações. Foi neste momento, entre o fim da oração mal amanhada e mais um berro lancinante de uma doente, que chegou o Salvador, da enfermeira Josefa das Neves e das duas Vasques, mãe e filha.

O Dr. Carlos Antunes entrou na sala das urgências com uma aparente frieza, como se estivesse a anos luz de distância daquele mini inferno, ele que era tudo menos distante. Desde que começara a exercer medicina que se tinha algum problema era o excesso de envolvimento, que o fazia por vezes perder a frieza, essa sim, tão necessária no dia a dia daqueles que fazem o juramento de Hipócrates. E aquela noite de Dezembro não fora excepção a essa regra.

Laidinha Vasques não foi a primeira pessoa a quem Carlos se dirigiu no seu percurso pela sala. O Rouxinol de Santa Maria, era assim chamado pelas enfermeiras que sempre que passavam por ele lhe arregalavam os olhos e soltavam um botão a mais nos decotes das suas batas brancas, parara primeiro numa criança que se anichava com dores no colo da sua mãe. Dois minutos bastaram para que o médico lhe diagnosticasse anginas, lhe desse um rebuçado e aviasse uma receita de um antibiótico para a tratar. Resolvido o primeiro caso com uma rapidez potencialmente inimiga da perfeição e de um diagnóstico exacto, chegou a vez de Laidinha. Dois minutos não seriam suficientes, nem para ele.

Assim que tocou o ventre de Laidinha, o rosto de Carlos ficou tão branco como a sua bata e percebeu que teria de actuar rapidamente. Ficou silenciosamente furioso ao pensar que se não fosse ele a passar ali, por iniciativa própria e no seu dia de folga, aquelas duas pessoas, a nascida e a por nascer, provavelmente morreriam. Mas congelou esses pensamentos porque não tinha tempo, nem sequer mental, para deambulações sobre o Sistema Nacional de Saúde na sua realidade pós-revolucionária. Estava ali uma ser vivo que precisava dele para ver a luz do dia, ou melhor, a luz das lâmpadas fluorescentes de Santa Maria.

As salas de operações estavam todas ocupadas mas o trio não podia esperar. A sala estava caótica, e a única solução era encontrar um canto num dos corredores entupidos de macas com idosos a gemer de dores. E foi ali, num quadro dantesco, que o Mundo viu Karla pela primeira vez. E que bonita era, rosada, redonda, estranhamente sorridente. Foi isso que mais chamou a atenção ao Dr. Antunes, tanto mais que com aquele ruído e confusão na impovisada sala de parto seria mais que expectável que a criança desatasse aos berros. Mas não, Karla era a paz e alegria em mini-pessoa. A ironia da sua vida começara logo ali, ao primeiro respirar.

A história de Karla ficou marcada por um episódio que vivera quando era uma rapariga jovem, sim porque apesar da pele de porcelana conservada em creme gordo e azeite (era um dos poucos conselhos da sua mãe que seguira) e da energia que lhe corria nas veias, Karla já tinha trinta e dezassete anos, como dizia Esther, uma das suas meninas, que a madame “criara” em homenagem a Esther Williams. Mas orgulhava-se de ninguém lhe dar mais de 35. E era verdade, fisicamente Karla parecia estar naquela fase da vida das mulheres em que tudo pode recomeçar, especialmente o amor. Mas não, não estava, para ela não haveria mais recomeços.

Mas voltemos uns anos atrás, mais precisamente 28, para um certo dia de Junho do ano bissexto de 1984. O flashback mostra-nos Indira Gandhi a ser assassinada, Desmond Tutu a ganhar o Nobel da Paz, Amadeus o Oscar de melhor filme, o 1984 de Orwell a sair do papel para a tela, Madonna a cantar “Like a Virgin” numa gondola Veneziana (as Karlettes, se fossem vivas nessa altura, cantariam antes “Like a Semi-Virgin”). Foi nesse ano dos 80s, a década pimbo-kitsch que tantos estetas gostariam de riscar da Hstória do Homem (para apagar a vergonha do seu aspecto nesses anos), que Miss Karla morreu, pouco depois de ter começado a viver.

O dia começou primaveril, frutado e floral, como os 19 anos de Karla. Era um dia nascido e feito à sua imagem, delicioso por isso também, porque ela era a juventude em pessoa, um alegria para os olhos de quem a via passar pela Luz, Benfica, Carnide ou Laranjeiras. Era conhecida por isso naquelas bandas, mesmo sem saberem onde morava, o que fazia, ou sequer o seu nome. Karla não alimentava esse mistério conscientemente, mas como não era muito de conversetas no salão de beleza ou no café, lá ia vivendo num anonimato visível, o que lhe servia bem.

Karla sempre tinha sido precoce, à frente da sua idade, do seu tempo. pelo menos fisicamente. Aos 13 já tinha o corpo com que entraria na idade adulta, o que durante toda a adolescência intimidou os jovens da sua idade, que não se sentiam à vontade ao lado de uma rapariga com corpo e cabeça de mulher. Rapazes mais velhos, até homens de barba rija, esses sim, davam “em cima” dela como se não houvesse amanhã, mas Karla não era de cair em cantigas de aprendizes de bandido. Tinha crescido com as histórias da sua avó que se tinha apaixonado pelo filho dos patrões, fidalgos de província, uma relação impossível que a tinha deixado triste para todo o sempre.

Bernardo Lemos, sedutor de galinheiro, achava que tinha direito de jus primae noctis sobre todas as moças que trabalhavam lá na Casa, e não se coibia de as tentar desvirginar. A jovem, a mais bonita da aldeia, tinha 16 anos quando foi possuída sem piedade dentro do palheiro por um macho 8 anos seu sénior. O “romance” durara vários anos, até Bernardo partir para Moçambique para gerir, em estilo de castigo, uma plantação de chá em Tete, que o seu pai herdara de um tio avô. Partiu de um dia para o outro, sem dizer adeus, deixando nela a dor da falta de alguém que a tinha presa a um sonho irreal. Karla ouvira essa história vezes sem conta, e isso tinha-a deixado com um permanente pé atrás perante malandros que lhe chegavam de mansinho. Jurara que nunca sofreria do que ela chamava uma versão Português Suave do síndrome de Estocolmo. Mas naquele dia em Carnide as coisas iriam mudar.

Era sábado e por isso a feira que montava arraiais no largo da Luz corropiava desde cedo. Não era da dimensão da “Feira da Luz”, que aconteceria naquele mesmo largo em Setembro, como há centenas de anos. Esta era mais modesta, com menos vendedores, e sem qualquer motivação religiosa, era literalmente uma feira de vendilhões à porta do templo, ou melhor, entre dois templos, porque de um lado do largo ficava a Igreja da Luz e do outro o Seminário Franciscano. Findo o dia de Mercado, iniciava-se a festa, feita de gordura grelhada sob a forma de sardinhas, febras e enchidos, de vinho à caneca a rodar e de música de uma banda montada no coreto da praça.

A animação noturna era um extra à feira. E acontecia porque era noite de São João. As festividades em Lisboa não eram célebres como as do Porto, mas naquele ano alguém se lembrara de trazer para a Luz o padroeiro da Invicta. Nem mais nem menos que João Vasques, pai de Karla, que era dono de um restaurante do bairro e um ferrenho adepto do Futebol Clube do Porto. Mais por febre clubística que por devoção católica, decidiu organizar um arraial ali na Luz, no largo que levava o nome do estádio do Benfica, o maior rival do seu FCP. As decorações começaram uma semana antes e ninguém estranhara que as cores das bandeirinhas, dos panos e das lanternas de papel que decoravam o largo, entre castanheiros-da-índia, freixos e magnólias, fossem o azul e branco. João Vasques andava inchado, juntando à barriga pronunciada feita de anos de patuscadas e vinho do Douro, um papo de galaró vaidoso, tal o prazer que lhe dava a ferroada silenciosa que estava a infligir no seu arqui-inimigo desportivo. A vida era bela, pensava João, muito antes de qualquer outra pessoa.

Karla, que estava ali a ajudar o pano maquiavélico do pai, não percebeu de onde ele chegara, acompanhado de um calafrio que lhe percorreu o corpo. Estranhou a sensação, nunca a tinha sentido, pelos menos não com essa intensidade e nunca com uma pessoa. Por vezes a beleza de paisagens, animais, ou fenómenos naturais, tinham a capacidade de a comover ao nível do arrepio, mas com um humano era a primeira vez que sentia algo assim. Aconteceu quando cruzou o olhar com o dele, não tinha sido pois uma coisa sobrenatural, um pressentimento, nada disso. Tinha sido carnal o motivo, nem ela duvidava disso, o que ainda a surpreendera mais, porque não era dada a tentações do corpo.

Ele parecia mais velho, mas tinha uma idade indefinida, pelo menos para ela, que nunca fora boa a decifrá-las. Talvez 25 mas poderiam ser menos. Acabou por arrumar a coisa por 25 mais ou menos 10%. Tinha o cabelo castanho escuro, longo mas não demais, nunca daria para fazer um rabo de cavalo como era moda naqueles tempos entre os seus amigos. Como ela odiava esse arranjo de cabelo num homem, achava-o efeminado. Não lhe percebeu os olhos, estavam escondidos atrás de uns ray-ban aviator com lentes verdes, que já não seriam verdadeiramente necessários porque o sol estava já a desaparecer. Num raio x mental, ela imaginou-os dessa mesma cor. O demais do seu rosto era normal, sem traços marcantes, mas harmonioso e agradável à vista. Era um homem bonito, disso não tinha dúvida.

Ele também a olhara mais do que normalmente olhava as mulheres. E não é que não olhasse muito, antes pelo contrário. Álvaro, era esse o seu nome, gostava de mulheres, especialmente de mulheres originais. Nem todas as mulheres de quem tinha gostado tinham sido bonitas pelas definições dos cânones internacionais de beleza feminina. Mas tinham sempre um je ne sais quois que as fazia suficientemente diferentes para atrair a sua atenção e curiosidade. E aquele olhar tinha-o prendido, a ponto de naquele momento não conseguir arrancar dele.

O acaso ditou que passasse pela Luz naquela noite de Junho. Ele não vivia nas redondezas, morava até relativamente longe, em Alfama, num beco sem saída ao lado do Largo de São Miguel, aquele onde em Junho se celebram as festas dos santos populares. Podia dizer-se que era especialista em festas deste tipo. Enfim, mais apaixonado que especialista, na verdade. Quando soubera que na Luz iria acontecer algo do seu género, ali, num bairro “novo”, sem ser numa das sete colinas da cidade que conhecia de cor, teve de lá ir cuscar. Foi assim que o destino o levou até Karla.

Álvaro era um diletante profissional. Os seus 26 anos (era essa a sua idade, Karla tinha acertado), tinham sido gastos em nada mas em tanto ao mesmo tempo. Tinha começado e abandonado vários cursos, não por falta de capacidade para os completar mas mais por desencanto crónico. Os pais, um casal de Castelo Branco que uns anos antes tinha emigrado para a Arábia Saudita, desesperavam com a falta de objectividade que viam na vida do seu filho único. Mas continuavam a alimentá-lo financeiramente, um pouco por culpa de terem partido atrás dos petro-dólares deixando-o entregue a si mesmo e a uma avó que não o conseguia domesticar. O pai era engenheiro e depois de ter perdido por duas vezes o emprego em Portugal decidiu que o Médio Oriente era o melhor destino para a sua vontade de trabalhar. Álvaro não ficou triste com esta partida, apesar de por vezes jogar esse cartada para conseguir manter o seu estilo de vida de dolce fare “quase” niente. Não, ele sempre fora independente e não era a falta dos pais que o iria entristecer, ou pelo menos assim pensava.

A falta de vontade de estudar, o bolso cheio, e o mundo que o inquietava, levaram-no a partir muitas vezes para fora, à descoberta do que não conhecia. Nos últimos 5 anos tinha estado em mais de 30 países, por períodos de dias ou de meses, imerso nas culturas locais, nos costumes e nas pessoas. Podia não prestart para muita coisa mas viajar isso fazia como poucos. Desde criança se fascinara pelos grandes exploradores do planeta, fossem eles reais ou ficcionados, de Ibn Battuta a Karaban o Cabeçuco, do chinês Xuanzang a Charles Darwin. Com eles viajara enquanto não o podia fazer sozinho, como agora.

Por maior que fosse a sua sede de Mundo, em Junho Álvaro fazia questão de estar em Lisboa. Sabia que isso o ia impedir de ver o festival dos barcos dragão em Hunan, o solstício de Verão em Stonehenge e o festival do sol na cidade perdida de Sacsayhuamán (que lhe apetecia ainda mais experenciar por causa da semelhança do nome do lugar com “sexy woman”, outro dos seus prazeres) perto de Cuzco. Mas quem lhe tirava os Santos, tirava-lhe tudo. Não era por qualquer sentimento para-religioso, ele mais depressa seria iconoclasta que devoto. Era pura e simplesmente por bairrismo e gosto de farra da boa.

Quando a viu ela estava numa banca a vender o vinho verde tirado de um pipo que João Vasques tinha encomendado a um primo de Rio Mau. “Vinho Bom de Rio Mau”, dizia o letreiro que o anunciava. Álvaro gostava de vinho verde, mas não foi o vinho que o levou até à banca.

 

“É mesmo bom?”, perguntou ele, sem tirar os óculos e com vinho no bico.

“O quê?”, disse Karla, vidrada num ponto indefinido dele.

“Não é vinho verde que está a vender?”

“Sim, desculpe, tem razão. O vinho é óptimo. É caseiro, eu própria participei na sua vindima do ano passado. É da terra dos meus pais”

“Então isso faz de si uma noiva do Minho”, disse Álvaro, com um sorriso malandro que lhe entortou a boca e que Karla achou delicioso, ela que não gostava do género normalmente.

“Se tivesse noivo se calhar, mas não tenho. E além disso eu nasci em Lisboa, ali atrás, em Santa Maria, e por isso quanto muito sou uma solteira de Lisboa, mais que uma noiva minhota”, respondeu, ao mesmo tempo que apontava em direção ao hospital, que não se consegui devido ao seminário. E sorriu, de uma forma diferente do que alguma vez fizera, em registo paralelo ao do seu cliente. “Quer um copo?”, perguntou.

“Não”, retorquiu Álvaro. “Quero dois, um para mim e outro para si”, disse-o instintivamente, sem segundas intenções, num impulso vindo da vontade de fazer renascer aquele sorriso só para si, vezes sem conta. E ao dizê-lo, acto contínuo, retirou com a mão direita os óculos, ele que era canhoto. “Pode fazer uma pausa para conversarmos um pouco?”

Karla foi apanhada de surpresa pela audácia mas mais ainda pelos olhos de Álvaro, que não eram verdes mas castanhos mas azuis tornados acizentados pelo lusco-fusco. Congelou mais do que gostaria e forçou-se a uma resposta, mais para quebrar o feitiço no qual se sentia a cair, do que por qualquer outra coisa.

“Ahh, acho que sim, posso. Deixe-me só pedir a alguém que me substitua”.

Foi a vez de a surpresa tocar Álvaro. Não esperava o sim, na verdade não tinha tido nem tempo nem discernimento para esperar o não. Mas o sim foi inesperado, mais ainda.

“Agora que nos vamos conhecer, chamo-me Álvaro”

“Karla, com K. Tem uma razão de ser, depois conto-lhe”, piscando-lhe o olho, para logo a seguir se arrepender de o ter feito e regressar a uma pose mais própria de menina de família.

As horas seguintes passaram a voar, entre risadas, olhares cúmplices e brindes múltiplos e conversas sobre os mundos em que ambos viviam. Álvaro, que também tinha abandonado o curso de Arquitectura Paisagística, puxou dos seus conhecimentos de botânica para contar das suas viagens através das árvores da praça, castanheiros da Índia, loureiros da Nova-Zelândia, gingko bilobas. Os olhos de Karla, que nunca tinha saído de Portugal mas era fascinada pelo mundo que desconhecia, brilhavam a cada aventura que Álvaro relatava. Estava vidrada em Álvaro, e ele nela, a ponto de não se desviarem nem com os gritos de alegria e tristeza que a multidão emitia em uníssono ao assistir ao jogo França-Portugal para o Europeu de futebol.. No fim do jogo, que os franceses ganharam no prolongamento com um golo de Platini, a música começou, e a pista improvisada ao lado do coreto encheu-se. A espaços, Álvaro primeiro, e depois Karla, iam-se puxando para dançar. Com os corpos a uma distância de respeito, até porque João Vasques estava por perto, dançaram “the night away” ao som de música tradicional portuguesa e da ocasional balada de blues com que a banda os presenteava a eles, só a eles. E Karla não voltou a vender mais nenhum copo de vinho verde nessa noite.

A sua história começou naquela noite de Santos, abençoada pelo mais folião deles, João. Álvaro foi ficando, mês após mês, encantado por aqueles olhos azuis que o amavam a cada instante, sem mais interesse que o deleite de o ter. A sua relação evoluíu, na intimidade e na profundidade do sentir. Álvaro começou a estudar, desta vez a sério. Karla ia ter com ele à Faculdade de Letras e partiam para fins de tarde em Cascais, Sintra, e por aí fora, até às Azenhas do Mar. Karla, apesar de ter nascido em Lisboa e de ter o oceano à porta desde sempre, ainda tinha incutido nela a mentalidade de aldeã de montanha, e cada vez que via o mar infinito se deslumbrava como se da primeira vez se tratasse. Álvaro fazia-lhe a vontade, adorava ver o prazer da surpresa estampado no rosto suave da sua mulher. E que bonita ela era, para ele Karla era como o mar era para ela. A cada repetido olhar ele se apaixonava, como da primeira vez que a vira, naquela noite quente de Junho. E assim seguiam os dias, re-apaixonando-se.

Karla era virgem, e queria continuar sendo assim até ao dia do casamento. Tinha-o jurado à avó, numa das visitas de verão a Rio Mau, onde a senhora vivia enterrada na melancolia de um amor perdido. Álvaro já o sabia, desde a primeira vez que as suas mãos foram a caminho da “second base”, usando um termo que aprendera numa altura que viveu na Florida numa quinta de criação de aligators. E tinha interiorizado a aceitação dessa regra. Mas queria tê-la, plena, sem limites. E ela também, apesar da promessa. Karla debatia-se entre a noção do certo que lhe fora incutida desde cedo, e o que o seu corpo pedia, Álvaro.

Sem o dizer, ambos sentiam que eram um do outro, que queriam estar juntos para o futuro. Não lhes incomodava nenhumas das suas inúmeras diferenças, nem de classe social, nem de nível de vida. Karla não se importava de Álvaro não ser católico nem ele de ela o ser profundamente. Nem sequer o doentio sportinguismo dele incomodava a filha de um dragão de ouro, apesar de ela preferir não tocar no assunto futebol porque da única vez que o fizera quase tinha começado uma discussão desnecessária. Não, aquilo que os separavam não era suficientemente forte para os desunir. Mas uma outra coisa viria a fazê-lo, e contra ela nem mesmo o amor de Karla era suficientemente forte.

Foi no último dia do ano que tudo aconteceu. Karla, que tinha trabalhado no restaurante do pai até ao final dos almoços, fora ter ao fim da tarde com Álvaro, que estava na biblioteca da faculdade a estudar, fazendo horas até ela. Nem um nem outro eram de grandes comemorações de reveillon mas aquele era o seu ano, o primeiro das suas vidas, e mais que fechá-lo juntos, queriam entrar a dois, em festa, no ano novo, aquele em que planeavam casar-se. Álvaro tinha uns amigos franceses que passavam férias numa casa debruçada sobre o mar na baía de Cascais. Apesar de viverem em Paris, os seus pais, que tinham sido diplomatas em Lisboa, tinham decidido manter aquela casa, um achado pós-revolução, que haviam comprador a uma família bem que fugira para o Brasil com medo de perder a vida, para além das herdades forradas de cortiça no Alentejo.

Aquele dia era simultaneamente a data em que faria 20 anos. Nunca gostou de ter o seu aniversário no ultimo dia do ano, tinha sempre a sensação de ficar para segundo plano para toda a gente, até para os seus pais, que nunca perdiam um único fim de ano na Casa do Minho, para onde a arrastavam a contragosto. Talvez por isso tinha desenvolvido uma aversão ao conceito de festas de anos, fosse a sua ou a de qualquer pessoa. Ir celebrar a data com desconhecidos era libertador, porque não teria de ser o centro das atenções. Estava, também por isso, feliz.

Chegados à casa, Álvaro e Karla foram circulando por entre as pessoas até encontrarem Marcel e Celine, os dois irmãos amigos de Álvaro. Karla estava num ambiente diferente dos que conhecia. Ali tudo era elegância e sofisticação, a começar pelos irmãos, quase demasiadamente bonitos. Sentiu-se algo desconfortável, mas Álvaro estava ali, e não parecia incomodado pela sua namorada peixe-fora-de-água. Começou a beber. O vinho era o melhor que jamais havia provado, a anos luz do vinho que servira na Luz a Álvaro no dia em que tudo começara. Talvez por estar a gostar, talvez por se sentir mais descontraída e e menos “alien” a cada copo que bebia, não se controlou tanto quanto era normal. A meio da noite já estava embriagada. Álvaro, que se controlava menos que ela, também.

Chegou o virar do ano, regado a champagne, bebida que Karla nunca tinha provado. O mais próximo que provara era o espumante Raposeira que serviam no restaurante, e que era a sua bebida favorita. Mas não havia comparação entre os dois, e por puro prazer foi bebendo mais. No fim da festa os dois namorados estavam em estado impróprio para conduzir. Álvaro queria ficar em Cascais, Marcel tinha-lhe dito que dormisse ali mesmo. Mas Karla tinha prometido ao pai que às 3 da manhã estaria em casa e a bebida não tinha apagado essa memória. Por isso partiram no Alfa Romeo de Álvaro, zig zagueando nas ruas estreitas da velha Cascais e depois nas duas faixas da marginal.

Karla só percebeu que o carro estava descontrolado quando embateu no murete que separava a estrada do mar. A velocidade a que iam para chegar a casa à hora exigida por João Vasques naquela primeira passagem de ano da filha longe da Casa do Minho fez com que o carro voasse para uma morte anunciada.

Quando Karla acordou estava numa cama de hospital rodeada pelos seus pais. A alegria com que receberam o seu regresso ao estado consciente foi tal que o acamado vizinho se assustou. Karla, percebendo o que se passara, encontrou forças para sussurrar “O Álvaro?”.

“Está em coma querida, mas estável”, respondeu a mãe, sem saber se não devia ter omitido essa informação.

“Foi um milagre Karla, Deus estava convosco”, disse João Vasques.

Karla deixou de acreditar em Deus nesse dia. Não foi a esperança divina que a alimentou através do longo deserto dos quase 30 anos de coma de Álvaro, durante os quais ela esteve sempre ao seu lado, cuidando-o como mulher, mãe e enfermeira. Os pais de Álvaro tinham regressado para o ver várias vezes mas nunca quiseram ou conseguiram voltar a viver em Portugal. Nem que tivessem voltado das arábias, onde acabaram por falecer, Karla teria permitido que lhe levassem Álvaro. Não, ela cuidaria dele para toda a vida, como a sempre-noiva de Arraiolos.

Álvaro era um hóspede silencioso na casa. Muitas das menidas semi-virgens só se apercebiam da sua existência vários meses depois de lá atenderem. Karla não permitia que ninguém falasse do seu amor vegetal, tinha mesmo despedido, se é que meninas se despedem, uma delas que contou a uma nova Karlette que a Madame tinha um homem comatoso a viver no quarto dos fundos. Karla exigia fidelidade total às suas colaboradoras. Ela percebia o conceito dessa palavra. Nunca tinha tido nenhum homem depois de Álvaro, que na verdade nunca a tinha tido totalmente pois a tragédia da noite de fim de ano matou o sonho do seu casamento e, consequentemente, da noite de núpcias em que iria permitir que ele a estreasse.

Durante todos esses anos Karla manteve-se cuidada, bonita, jovem. Queria estar no dia em que Álvaro acordasse como era no dia em que ele adormecera. Também ele continuava belo, ela assegurava-se disso, tratando da sua higiene e aparência física, comprando-lhe roupa da moda em cada estação, massajando o seu corpo diariamente para o manter tonificado. Karla sabia que um dia ele voltaria. Tinha lido sobre centenas de casos semelhantes em que ao fim de anos em coma se davam milagres de renascimento. Só estava à espera desse dia, era essa a razão que lhe dava vida. No dia em que parasse de acreditar morreria.

Alimentada por essa esperança, Karla vivia o dia a dia sem pensar no amanhã. Não se orgulhava do que fazia. Não tinha vergonha, mas não se orgulhava. Mas ganhava bom dinheiro com as suas meninas, e ela precisava de dinheiro para as contas médicas necessárias para manter o mini-hospital que montara em casa para Álvaro estar sempre com ela. Também queria poupar para o dia em que Álvaro voltaria, porque jurou a si mesma dar-lhe o mesmo estilo de vida que ele tinha quando se conheceram. Só podia contar com ela. O dinheiro dos pais de Álvaro não lhe tinha ido parar às mãos porque se tinha pura e simplesmente evaporado em maus investimentos e nos casinos onde o pai ia tentar esquecer a morte-viva do filho.

A única que ainda acreditava que Álvaro não estava morto era Karla. Era também a única que não queria desligar a máquina que o mantinha vivo. Teve de disputar esse direito em tribunal, num processo colocado pelos pais de Álvaro, que argumentavam que eles não eram casados e por isso Karla não podia decidir contra a vontade que achavam ser a do seu filho, caso este a pudesse exprimir.

Estava a acabar o dia mais difícil do ano para Karla. O que para qualquer pessoa era sinónimo de alegria, a ela só trazia tristeza, mais tristeza. Como ela queria saltar essa data, voar directamente de dia 30 de Dezembro para dia 1 de Janeiro, apagando o seu envelhecer mas mais ainda a memória da noite em que a melhor parte dela se fora. Desde aquela noite que passava este dia na cama, fechada do mundo. Os seus pais ficaram tristes no primeiro ano, mas aprenderam a aceitar a dor da filha e a sua forma de a viver. Este ano não era excepção. Karla fechara a casa, dando folga às meninas, que também não gostavam da opção da patroa porque aquela noite poderia ser uma das melhores do ano. Era também a única noite do ano em que Karla se deitava ao lado de Álvaro para dormir. Queria sempre entrar no ano novo colada a ele, nus, pele na pele, como se estivessem os dois a nascer. Não sabia se era por simbolismo ou superstição, era apenas algo essencial para si.

Deitara-se mais cedo que habitual, estava há mais de uma hora a olhar para ele, no escuro que não era total apenas pelos ponteiros luminosos do relógio da cabeceira. Queria estar de olhos abertos até chegar o novo ano, fechá-los-ia daí a menos de um minuto. Pensou em como era difícil manter a esperança, agarrar-se a ela como pão e água. Mas sorriu porque sabia que por mais difícil que fosse, pelo Álvaro, o todo que ele sempre seria para ela, tudo valia a pena. Meia noite. Encostou os lábios ao rosto de Álvaro, desejou-lhe um bom ano e fechou os olhos, em paz.

“Karla”, ouviu-se no silêncio do quarto.

 

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