It’s the end of the world as we know it

Escrito dia 11 de Setembro de 2001

Caros Amigos,

Achei que devia partilhar convosco algumas ideias que me vão na cabeça sobre o dia de hoje.

Os Estados Unidos da América são um país de símbolos, de ícones, de emblemas que atestam a determinação de uma nação jovem, construída a pulso por milhões de emigrantes que para aqui vieram em busca da realização do seu “american dream”. Hoje, às 8.45m da manha, dois destes templos de uma religião de empreendedores foram profanados, muito provavelmente em nome de Deus. Mais do que abalar as fundações de um povo, este atentado acordou um monstro que estava adormecido desde o ataque a Pearl Harbor.

Este passado fim-de-semana estivemos em Manhattan numa cura intensiva de cosmopolitanismo, algo que só a “Big Apple” sabe proporcionar. À saída, enquanto cruzávamos a George Washington Bridge, lembro-me claramente de olhar à esquerda para o deslumbrante “Manhattan Skyline”, em busca das torres gémeas do World Trade Center. Elas lá estavam, hirtas, monumentais, intocáveis. Estavam. Agora não são mais que uma memória.

No edifício do WTC trabalhavam 50.000 pessoas. Dos vários americanos com quem falei hoje, não houve sequer um que não tivesse um familiar, amigo ou conhecido a trabalhar ou no WTC ou nas suas imediações.  Eu próprio tenho um primo que está a estudar numa Universidade que fica a uma dúzia de quarteirões da zona atacada. Um colega meu tinha um cunhado que estava numa das torres na altura do atentado. Falava ao telefone com a mulher a dizer que tinha havido uma explosão, quando a linha caiu. Depois disso não se soube mais nada dele.

Nova Iorque foi a cidade mais afectada pelos terroristas. A capital informal do mundo ocidental pagou assim o preço da fama.  A fama que aqui traz a cada ano milhões de turistas de todo o mundo foi o isco que trouxe à cidade meia dúzia de assassinos voadores.  A cidade esta a sangrar, mas não está ferida de morte.

Mesmo de longe, do outro lado do Atlântico, todos temos alguma afinidade com a “the City”. As inúmeras series e filmes que fomos seguindo ao longo dos anos tomaram Nova Iorque parte do nosso imaginário. A minha geração cresceu com as baladas do Capitão Furillo na Hill Street, amadureceu com as comedias de Woody Allen, afirmou-se com os dramas pessoais de “NYPD Blue”. Nova Iorque, amada ou odiada, não nos é indiferente.

A ironia do destino é curiosa. Hoje é dia 9 de Setembro, ou seja, 9.11, o número de emergência telefónica dos Estados Unidos. Coincidência? Talvez. Era também o dia de eleições municipais em Nova Iorque (canceladas após o atentado). Irónico também o facto de o atentado ter sido conceptualmente criado por americanos. De facto, vários filmes ficcionaram ataques terroristas nos quais eram utilizados aviões desviados. O filme “Air Force One” com Harrison Ford e um exemplo. Também Tom Clancy, um dos mais populares autores americanos, escreveu um livro no qual um grupo de terroristas desviava um avião com o propósito de o fazer embater no Capitólio. Dá que pensar, não dá?

Os relatos da catástrofe ainda são muito vagos. Falar de número de vítimas é prematuro nesta fase, mas as previsões apontam para vários milhares de mortos. Sucedem-se os testemunhos sobre a queda de dezenas de pessoas do cimo das torres.  Quando confrontado com uma pergunta sobre o número de mortos, um bombeiro disse “os meus olhos não puderam ver milhares de mortos, mas o meu coração sentiu-os”. O polémico e carismático Mayor Rudy Giuliani, que começava hoje a fase final do seu longo mandato, afirmou que “não sabemos neste momento quantas pessoas faleceram. Sabemos apenas que quando soubermos os números finais serão mais das que poderemos suportar”.

As atenções voltam-se agora para as razões e as pessoas que estiveram por detrás deste massacre. O maior suspeito é a organização terrorista liderada pelo fundamentalista islâmico Osama Bin Laden, um milionário saudita que se assume como cruzado do Islão no Mundo. Bin Laden terá sido o autor moral do atentado de que o mesmo World Trade Center foi alvo em 93. A ousadia de voltar à cena do crime é mais uma das ironias desta tragédia. Se há duvidas quanto ao papel de Bin Laden, parece haver unanimidade quanto a motivação religiosa, e mais concretamente islâmica, dos terroristas. O método suicida utilizado é a marca registada dos mártires da Intifada, para quem os Estados Unidos e Israel são os principais alvo a abater. As comemorações que têm inundado as ruas da Palestina são mais um sinal a favor desta teoria.

São muitas as provas de que esta nação de sobreviventes não vai baixar a cabeça. A mais patriótica foi sem dúvida dada por um cidadão anónimo que segurou durante horas e em silêncio a sua bandeira “stars and stripes” sobre uma auto-estrada de Los Angeles. Talvez a mais dramática tenha vindo de Washington. Há algumas horas atrás todos os membros do Congresso forraram a escadaria do Capitólio para enviar uma mensagem paternal a uma nação em lagrimas.  Ao entoarem em uníssono “God bless America, my home sweet home”, as suas vozes garantiram imediatamente a vitória de um povo ferido sobre os seus inimigos. Ao ouvir o coro mais poderoso do mundo, não pude deixar de pensar que nada nem ninguém pode desmoronar um castelo de tamanha fortaleza.

Este atentado vai, contudo, abalar a estrutura de um país e o modus vivendi de um povo. Como canta Michael Stipe dos REM, “It’s the end of the world as we know it”.

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