Angkor e mais além

Foi em 1586 que o primeiro ocidental chegou aos templos de Angkor, “Capital” em Khmer, até então invisíveis ao mundo na quase impenetrável selva do norte do Cambodja. Este intrépido aventureiro foi o frade capuchinho português António da Madalena, um religioso que punha em prática na Ásia o espírito de missão e itinerância que a sua ordem Franciscana pregava. António da Madalena relatou a sua descoberta do maior complexo de templos a Diogo do Couto em 1589, pouco tempo antes de morrer num naufrágio ao largo da província do Natal, no sul de África. Diogo do Couto terá confiado nessas descrições na primeira pessoa para mais tarde escrever sobre Angkor, algo que nunca tinha antes sido feito:

“Já que estamos desta parte, e temos falado no Reino de Camboja, pareceo nos bem darmos aqui relação de huma fermosissima cidade que se achou em seus matos, posto que isto pertencia a 6ª decada tempo do Viso Rej dom Afomso de Noronha, em que se discubrio, que por esquiçimento nos ficou, plo que a quis meter aqui por ser cousa raríssima, e que se pode ter por huma das maravilhas do mundo. Mea legoa desta cidade esta hum pagode chamado Angar, edificado em hum campo razo mui fermoso o qual pagode he de -160- pasos de cumprido, de tão estranha fabrica, que se não pode declarar por pena, nem jgualar nenhum outro edifiçio do mundo com elle”.

Nos séculos seguintes Angkor voltaria a cair no esquecimento até que o explorador francês Henri Mouhot aí chegou em meados do século XVIII e divulgou ao mundo inteiro o esplendor desta cidade perdida. No século XX as ruínas começaram a ser visitadas em paralelo com os esforços de recuperação e limpeza levados a cabo por arqueólogos franceses. Os trabalhos continuam ainda hoje, e provavelmente continuarão ad eternum, tal é o número de templos espalhados pela selva circundante (mais de mil) e a voracidade com que a mesma os tenta engolir, com soldados na forma de árvores que literalmente se agarram os templos com raízes, troncos e ramos, quais serpentes a estrangular as suas presas indefesas. Esta permanente reconquista da Natureza dos espaços que eram exclusivamente seus antes dos Khmers aqui chegarem por volta do ano 1100, é uma das maiores atrações visuais de Angkor, e contribuíu seguramente para a classificação de Património da Humanidade da UNESCO.

O principal ícone de Angkor, é o templo de Angkor Wat, que popularmente, ainda que com erro, dá o nome a todo o complexo. É um templo de enorme dimensão, situado numa “ilha” criada no meio de um canal de água quadrado com 4 kms de diâmetro. A escala é impressionante, assim como o é o enquadramento natural, com a selva sempre presente, e a profusão de elementos decorativos das suas pagodas e das estruturas de galerias que as rodeiam. O templo representa o Monte Meru, a “Casa dos Deuses, uma montanha sagrada com cinco picos que é o centro dos universos físico, metafísico e espiritual para as religiões Hindu, Jain e Budistas. Os templos foram erguidos como santuários hindus dedicados a Vishnu, tendo passado a ser budistas com a conversão dos reis Khmers a essa religião “nova” no século XIII.

A visita a Angkor não fica completa sem a passagem pelos templos de Angkor Thom e Ta Prohm, um templo intimista celebrizado pelo filme Tomb Raider, no qual uma Lara Croft protagonizada por Angelina Jolie era vista a trepar pelas árvores que engoliam as suas galerias e torres. Um pouco mais distante, mas ainda dentro do complexo de Angkor, ficam outros templos que merecem uma visita, como Banteay Samre e Banteay Srei, o ricamente decorado “Templo das Mulheres”.

Siem Reap, localizada a meros 10 kms das ruínas, foi-se desenvolvendo ao ritmo das necessidades da expansão turística local e que atrativos que justificam que seja muito mais que apenas a base onde se aloja quem deseja descobrir os templos do norte do Cambodja. É uma pequena cidade onde, como em nenhum outro lado do país, se sente o ambiente colonial francês, fruto do estatuto de Protetorado que o Cambodja teve durante cerca de 100 anos, até 1953. Siem Reap, no entanto, é um caso à parte no país, uma vez que esteve debaixo de domínio Tailandês entre 1867 e 1907. Se, como em tantos locais da Ásia, os mercados populares são vibrantes de vida e exuberância alimentar (até de extravagância graças aos insetos que se vendem como petiscos), em Siem Reap a esse facto acresce um certo cosmopolitismo tropical que advém do seu quase um século de turismo de luxo, desde que o Grand Hotel de Angkor começou a acolher viajantes em 1932. A cidade possui inúmeros restaurantes de qualidade e hotéis de charme, assim como propostas para backpackers e grupos de turistas mais massificados. Apesar de ser um local que recebe cerca de 2 milhões de visitantes por ano, a cidade consegue manter uma tranquilidade e intimismo que encanta quem a percorrer.

A cerca de uma hora de distância fica o lago Tonle Sap, a maior extensão de água doce do Sudeste Asiático, que permite inclusivamente descer de barco até à capital Phnom Penh através do rio Tonle, que liga com o Mékong. O lago é um ecossistema rico em peixe, sendo ainda hoje fulcral na provisão de alimentos aos Cambodjanos e uma das fontes de riqueza da civilização Khmer. A sua enorme biodiversidade granjeou-lhe a classificação de Reserva da Biosfera pela UNESCO. Visitar o lago permite descobrir as aldeias lacustres que o rodeiam e onde residem as populações às quais o Tonle Sap dá vida. São vidas antigas, feitas de rituais extintos em outras paragens mas que aqui estão ainda perfeitamente atuais.

À descoberta do Cambodja profundo

Angkor é o expoente máximo dos templos Khmers do norte do Cambodja (e o maior complexo de templos do planeta), mas não é o único. Na verdade, existem centenas de templos de pequena e grande dimensão espalhados pelo território que vai de Siem Reap à fronteira com a Tailândia. Estes templos eram ao mesmo tempo santuários budistas e fortalezas que defendiam o reino Khmer dos seus poderosos vizinhos do reino de Sião, na atual Tailândia. Quanto mais nos afastamos de Siem Reap, mais rural fica a paisagem, marcada ou por extensos arrozais bordejados de vegetação tropical ou por montanhas forradas de verde. Ao sair das estradas principais entramos no Cambodja profundo, onde os locais vivem a um ritmo tranquilo e alheado do caos urbano das metrópoles asiáticas, e onde ainda se observam rituais de vida milenares e as tradições budistas visíveis em mosteiros existentes em cada curva da estrada. É o Cambodja dos verdadeiros viajantes, afastado dos locais onde o turismo de massas já chegou com a sua agressividade de destruição das tradições locais. Aqui, escondidos dos olhos desatentos, ficam dois templos extraordinários que, pela sua beleza e privacidade, mais que justificam a viagem de algumas horas desde Siem Reap.

O mais próximo destes templos, dos muitos existentes pelo campo Cambodjano, é Beng Mealea, situado no sopé do Phnom Kulen, um monte sagrado para budistas e hindus, numa área que só recentemente foi declarada limpa de bombas anti-pessoais, o flagelo que ainda hoje assola o Cambodja e as suas populações rurais. O templo está num estado de aparente abandono, o que acrescenta à sua magia natural. Na verdade, a opção das autoridades locais foi a de deixar o templo como os séculos e os elementos o deixaram, não o recuperando e limitando-se a construir uns passadiços de madeira que permitem a quem o visita deslumbrar-se com as árvores e raízes que o devoram sem piedade e com o esplendor da ruína.

A cerca de 3 horas de distância, na orla da fronteira com a Tailândia, fica outro templo, Banteay Chmmar, um local ainda mais isolado e sereno que Beng Mealea. Aqui, nos dias movimentados não chegam mais que meia dúzia de viajantes, tal é a distância em relação aos locais mais turísticos do norte do país. Não existem muitos locais no planeta onde se possa ter uma experiência de visita de um monumento de nível de património mundial (está em processo de candidatura) de forma totalmente privada, como se o tivéssemos reservado, qual excêntrico vencedor do Euromilhões, para uma visita sem mais ninguém à volta. Os únicos companheiros da visita são algumas crianças da aldeia vizinha, que brincam pulando nas enormes pedras que em tempos constituíam o templo e que agora estão empilhadas em desordem como se fossem peças de um Lego espalhado no chão por um gigante.

A estrutura arquitectónica de Banteay Chmmar segue o padrão de outros templos do período Angkoriano, com galerias a guardar as torres que simbolizam os cinco picos do Monte Meru, e um fosso a toda a volta que servia de reservatório de água e também de defesa contra os inimigos, nomeadamente os Siameses. O templo tem como ex-libris os baixos relevos que retratam divindades e cenas de uma batalha contra os Chams. Para além do templo principal, existem cerca de uma dezena de pequenos templos satélites espalhados pelas redondezas, literalmente engolidos pela vegetação, o que lhes confere uma magia muito particular.

Perder templos como Beng Mealea e Banteay Chmmar é não descobrir a verdadeira essência do Cambodja e da herança Khmer que faz este país tão peculiar e culturalmente rico. Que a memória de António da Madalena e dos grandes viajantes de outrora inspire os portugueses a descobrir esse Cambodja que se esconde um pouco “off the beaten track”.

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