Odes ao vazio

Não sei de onde me chegaste num dia de Outono

Sei apenas que trouxeste a surpresa do nada

Daquilo que não esperamos e nos acorda de luz

A tua voz fala-me sem som, através de palavras mudas

Nos teus olhos, transparentes, leio o demais que te faz

Vejo-te pura até à alma, suave nesse sorriso envolvente

Sinto os teus sonhos, a coragem de os demandares sem medo

Essa história de busca e conquista define a tua essência

Desvenda uma natureza desenhada na esperança de mais

Inspira-me essa verdade atrás da qual vais, de peito aberto

Completa o demais, o que desde a primeira hora atrai o meu olhar

É de encantos muitos o brilho que vem desse rosto, tão bonito

Também de mistérios e magia, como as coisas boas da vida

Quero conhecê-lo de perto, deixar que me fascine ainda mais

Entregar-me ao seu vento, e deixar que me leve sem rumo

Onde chegarei não sei, como não sei o que te trouxe até mim

Gosto desse desconhecido da partida e da chegada

Alimenta-me o sonho, o meu, porque também sou de sonhos feito

 

 

Agora que te toquei não há longe entre nós, nem distância que nos meça

Não há espaço que nos divida ou desertos que nos separem

Estás em todas as minhas horas, no ar que respiro de ti

No bater contínuo do meu peito pela alma que me és

Nada existe de tangível no mundo ao qual possa reduzir o que somos

Todas as dimensões do presente, do real, visível, são parcas

Tenho-te para além de tudo o que é físico, no infinito do que sinto

Em mim vestes-te de todos os tempos, do imenso e profundo

És a perder de vista, chegas para lá de todos os horizontes

Assim, plena, não te dissocio de mim, da minha pele, do meu corpo

Vives aqui, comigo, guardada, segura do que há fora de nós

Fazes-te, sem saberes mesmo, a melhor parte do meu eu

E contigo quero permanecer, perene, resistente aos elementos

Dentro do teu espírito, suavemente teu, homem, ser, cúmplice

Para vivermos a soma de todos os nossos futuros

 

 

Estás nas margens dos meus sonhos, a cada dia

Feita realidade no irreal que é a vida

Penso-te nos intervalos dos minutos que vivo

Entre os entres mais ínfimos de mim

Tenho-te sem te ter, difusa, etérea, intangível

Como uma tatuagem gravada debaixo da pele

Nessa ausência presente me alimentas o espírito

És sem saberes o mistério mais insondável que tenho

Um fantasma suave que me vagueia a alma, em paz

Nela te vestes de bruma, num abismo que me atrai

Um vazio cheio de tudo o que desconheço, ainda

Mas que me desperta a vontade da descoberta

Queria sim percorrer-te o pensar, como tu me fazes

Residir num canto sagrado do que és

Nessa dimensão seria um pouco teu, a espaços

Visitaria o caminho infindo que te define

Para conhecer os ritmos do teu corpo

As subtilezas e matizes da magia que escondes

Esse infinito que te sei sem te saber, o todo de ti

 

 

São cheios de saudade os dias sem ti

As horas que não me enches com a tua graça

Mas não estou sozinho quando estamos em silêncio

Sei-te perto, ainda que não te veja sinto-te

É vazia de distância esta nossa distância

Porque te colas a mim em cada suspiro que dou

Sempre que vagueio em sonhos até ti, para te ver

É solarengo o caminho em que estás presente

Como estes dias em que o Outono nos aquece

É bem vindo este sol, como tudo o que é inesperado

Como tu, que não sabia seres até me tocares

Desde que me chegaste que a tua luz me banha

Inundando o meu pensar da tua beleza sublime

Sinto na pele tudo o que já vi de ti e o mais

O calor de um novo abraço que está para vir

O tanto que te quero ser e dar, e tu a mim

É esta, tu, a vida florida em que me sinto

Plena de frescura e saudade, de vontade e esperança

 

 

Daqui, no longe onde estou, sinto a tua presença

Vieste para te colares na minha pele, que estava fria

É desse calor que preciso para o Inverno que chega

Quero devolvê-lo em dobro, ser o fogo que te aquece as noites

Sem perceber como, fizeste-te residente em mim

Sinto esse sopro de vida que me toma por dentro

A esperança de uma vez mais ver os teus olhos nos meus

Tal alimento faz os meus dias mais curtos até o teu regresso

Acompanha a saudade de luz e magia nos dias que virão

Quero descobrir-te, saber mais e melhor quem és

Criar pontes entre nós, e lagos e rios e vales serenos

Ser sol nos teus dias, esse astro quente que dá vida

Pois sei que assim serei melhor e mais feliz no meu andar

 

 

Ouvi-te há pouco

Ao longe, bem sei

Mas dentro de mim também

Fizeste nula a distância

E gravei-te em mim

Para te escutar sempre

A cada instante que possa

Eu, e apenas eu, eremita

Fazendo-te em ecos

Ressonantes, cá dentro

A alimentar-me

Dessa voz cândida que tens

Que me limpa a saudade

E me leva, ainda mais, até ti

 

 

Todos os dias em que és minha sou mais meu

E teu, porque não sei ser de mais ninguém

Neste sentido de ti vou sem rumo que não tu

De nada me servem mapas ou direções

É um astro que sigo, a minha estrela guia

Nela, em ti, deposito todos os meus sonhos

São eles que me conduzem ligeiro até nós

Vivo-os hoje, ainda que apenas os sinta

Apesar de serem um vislumbre de luz, sinto-os

Aquecem-me nesta noite vazia onde não estás

Vivo neles, por eles, para ti, através de nós

Essa é a linha que desvelo nos meus instantes

Com ela coso o nosso destino, que sei estar traçado

Ali, onde a lua se funde no horizonte, estamos

Feitos de tanto mais do que ainda somos

Do infinito que sabemos podermos vir a ser

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