In illo tempore

Eram 9 da noite em ponto quando Paulo passou na lateral da Catedral ou direção, ou melhor, sem direção ao bairro de judeu, o centro histórico de Sevilha. Estava a vaguear à deriva na cidade desde que saíra da Real Maestranza, sentindo-se levado em ombros tanto quanto na realidade o fora uns minutos antes Jose Tomas, grande figura do “toreo” que tinha alcançado o triunfo naquela tarde escaldante de Julho. A corrida havia sido memorável, com o Galapagueño a conquistar com mérito 3 orelhas e um rabo nas suas lides no areão amarelo torrado da mítica arena. Não havia favores na praça de touros mais exigente de todo o Mundo, onde todos entram pela porta pequena na esperança de poderem sair em glória pela grande. Sentira a falta daquela tensão algo primitiva, havia um par de anos que a sua “afición” não era nutrida por uma “corrida de muerte” em Espanha, onde desde cedo tinha começado a ser doutrinado nas artes tauromáquicas pelo seu avô, neto de uma aristocrata de Jerez de la Frontera que se tinha perdido de amores por um comerciante de conservas algarvio e cruzado a poente a fronteira do Al-Andalus para o Al-Gharb. Sentia-se em casa naquele ambiente onde os seus antepassados tinham assistido a corridas com mitos como Juan Belmonte. Era sempre com prazer e alguma nostalgia ancestral que regressava às margens do Guadalquivir para este pequeno devaneio e imersão na cultura espanhola. Terminada a festa de touros, era o momento de cumprir mais um ritual, o de passear ao anoitecer pelos bairros históricos de Sevilha, na companhia das andorinhas que regressavam a casa, e aos beirais, depois de um dia de vadiagem pelos ares.

Apesar de já ter trilhado muitas vezes aquelas ruelas de pedra amaciada pelos séculos onde muros altos escondiam casas, palácios e pátios andaluzes, nunca deixava de se perder, conscientemente, no labirinto de branco onde em tempos tinha residido o povo de David antes de os católicos reis Fernando e Isabel, “mano a mano” com a Santa (e Diabólica) Inquisição, os terem expulsado do seu reino. Curioso ver que nessa época os Almoádas muçulmanos, que até 1492 dominaram o sul da actual Espanha, viviam em paz e harmonia com os judeus, algo que tragicamente já não se verifica nos nossos dias. Hoje muito mais mudara no bairro, especialmente devido à invasão de turistas que o percorrem aos bandos de arma fotográfica em punho e hasteando bandeiras para não se perderem no regresso ao seu barco de cruzeiro, hotel ou autocarro turístico. À noite, contudo, a pressão de pessoas era menor, o que agradava a Paulo, um viajante de alma livre que evitava sempre que possível locais frequentados pelas massas. Era como se existissem duas Sevilhas, uma diurna e outra, mais intimista e misteriosa, que acordava com o baixar do sol. Era nesta que Paulo queria vaguear.

Esforçando-se por deixar que a ausência de sons fosse a sua estrela guia, Paulo foi-se afastando das pessoas, caminhando por ruas cada vez mais estreitas e serenas. A dada altura deu por si sozinho, completamente sozinho, num cenário marcado pelo silêncio de tudo o que era humano. O oásis onde tropeçara era uma pequena praça escondida do mundo, à qual se chegava atravessando um túnel debaixo de um palácio onde estava pintado numa placa de azulejos na fachada a inscrição “Aquí nació en 1662 el poeta Gabriel Álvarez de Toledo y Pellicer de Tovar”. Já tinha ouvido falar deste escritor com ascendência portuguesa pelo seu professor de Literaturas Comparadas, um especialista em literatura espanhola. Tentou recordar algum dos seus textos, mas a memória sempre lhe falhara nos momentos em que dela mais precisava, pensou. Lembrava-se vagamente de uma frase de um dos seus sonetos, “que muere el alma cuando el hombre vive, que vive el alma cuand el hombre muere”.

A praceta tinha aproximadamente a área de um court de ténis, e não tinha saída, apenas um fim guardado por quatro paredes caiadas decoradas a toda a volta por janelas de madeira escura, todas elas fechadas e adormecidas. No centro, a marcar geometricamente o espaço, erguia-se um poço com dois braços de diâmetro, protegido por uma grade que não deixava uma criança desprevenida cair no seu interior. À volta do mesmo, dezasseis laranjeiras frondosas e cheias de fruto ornavam a paisagem finita, dando-lhe uma ilusão de profundidade. A pouca luz que vencia a altura das paredes não era suficiente para as mirrar, talvez por serem regadas pela água do poço por algum dos residentes invisíveis daquele lugar escondido. Um banco de madeira, o único, de costas ripadas chamou Paulo a sentar-se para sentir a ausência de tudo que ali existia. Assim o fez, anuindo ao convite mudo. Soube-lhe bem o momento, tão contrastante com o que testemunhara umas horas antes na outra praça, na qual se havia sentado na Sombra/Sol e onde milhares de pessoas vibravam com os passes de muleta de Jose Tomas, Jesulin de Ubrique e El Juli, e o bailado selvagem dos seis exemplares Miura que tinham toureado. Os milhares de vozes e lenços brancos estavam longe dali, no tempo e no espaço, era hora de Paulo se deixar ir até dentro de si, recolhendo-se no seu íntimo como tanto gostava.

Estava há pouco mais de meia dúzia de minutos em sossego quando o escutou, o ruído que quebrou o silêncio sepulcral daquele recanto. Parecia que vinha de perto, de por detrás de alguma das paredes que o rodeavam. Era um bater ritmado, contínuo, ora mais rápido, ora mais espaçado. Ao mesmo tempo escutou outros sons, mais ténues, mas que respeitavam a cadência do primeiro. Parecia-lhe música, misturada com vozes e aplausos, mais pancadas secas que faziam “clac clac clac” e um burburinho que se escutava como que em surdina em jeito de pano de fundo para a restante sonoridade. Querendo descobrir o que havia perturbado a sua paz, levantou-se e deixou desta vez que fosse a ausência de silêncio a determinar o seu percurso, a sua busca. Não lhe desagradou ter sido encurtada a sua introspeção. Os ritmos eram envolventes e sentiu-se também a ser invadido por uma certa inquietude de buscar a fonte do que escutava. Conseguiu por fim isolar o local de onde vinham os sons, uma porta encostada ao canto mais escuro da praça. O seu olhar confirmou essa origem graças à claridade suave que espreitava pelas frestas da porta, e que denunciava que algo se passava para lá da vista. Armado de uma curiosidade juvenil, chegou-se mais à porta, sendo presenteado com um volume mais alto de todos os sons que ouvira antes, e nos quais conseguia agora perceber uma harmonia coerente. Do lado de lá da madeira sulcada por veios e marcada por tachas de ferro forjado envelhecido, havia uma grande comoção humana, dir-se-ia uma festa ou espetáculo musical de algum tipo. Paulo não ia resistir a entrar naquela outra dimensão, paralela à realidade da praça, para a qual estava a ser puxado pelos seus sentidos. Sem pensar mais, deixou a sua mão direita cair na maçaneta e empurrou-a simultaneamente para baixo e para a frente, deixando-se invadir pela luz desmaiada do interior e por uma avalanche de sons distintos. Depois de se aclimatar à diferença de luminosidade, permitiu que os seus olhos percorressem o local onde entrara e foi então que a viu, vestida de uma maior surpresa do que poderia sonhar. Instantaneamente esvaziado de força própria, sentiu o seu tempo parar.

A sala onde entrara era ampla, com arcos de pedra a suster os pisos superiores, o chão de pedra com séculos de uso e as paredes brancas, como toda a cidade, ainda que mutadas para um tom creme pelas velas que cintilavam nos candelabros e castiçais que iluminavam suavemente todo o ambiente. Não havia luz elétrica visível, aliás, na sua primeira impressão Paulo não vira nada que tivesse sido produzido neste século, dir-se-ia que acabara de atravessar um portal no contínuo espaço-tempo que o tinha atirado para uma era distante, ainda que naquele mesmo lugar. Ela encaixava nessa sensação perturbante, não era decididamente filha daquele momento temporal. Paulo viu-a no fim da sala, a uns 30 passos de si. Estava num pequeno estrado, sobre-elevado em relação à restante área, de onde a admiravam umas duas dezenas de almas, sentadas em mesas de madeira com bancos corridos. Dançava… mas não se limitava a dançar, ou então aquilo não era apenas uma dança. Aquela mulher de longos cabelos negros criava com os seus movimentos ondulantes um género novo, que misturava elementos que ele conhecia da dança do ventre, de danças tribais animistas, de ballet e flamenco, com outros novos para ele, e provavelmente novos para o mundo, que ela parecia inventar do nada à medida que se mexia. Parecia uma criação impromptu, no momento, sem regra nem tabu, sem estar presa a qualquer cânone pré-estabelecido. Ali, naquele pequeno palco imenso, ela era tudo, e nada mais vivia além do seu corpo escultural, que envolvia o mundo que a rodeava numa aura de erotismo e sedução que prendia irremediavelmente o olhar de quem a observava, entre os quais o de Paulo.

De forma autómata, sem pensar nas suas ações nem que as quisesse controlar, Paulo viu-se a ser levado pela sala por alguma vontade exógena a si, acabando por se sentar numa mesa onde percebeu estarem mais 3 pessoas, que não levantaram os olhos da mulher no palco para o receber. Estavam presos no mesmo transe que ele, um estado semi-catatónico provocado pelos movimentos alucinogéneos do corpo da dançarina. Agora, mais de perto, conseguia vê-la melhor. Nem a luz ténue do espaço, nem o fumo do tabaco que alguns espectadores fumavam, eram suficientemente opacos para esconder a sua luminosidade, o brilho com que iluminava todo aquele pequeno e soturno mundo que se tinha reunido para a ver.

Era uma mulher profundamente feminina, o que se expressava no seu corpo esguio e ondulado, feito de curvas, seguramente perigosas, e numa delicadeza que contrastava com aquele ambiente onde dançava, um bas fonds escuro e decadente, com pessoas de olhar negro e misterioso. Mas não a sentia um peixe fora de água ali, de uma certa forma ela também fazia parte daquele cenário. Também o seu olhar era mais fundo do que ele estava acostumado a ver na dimensão de vida de onde vinha. Tudo nela sabia a outro tempo, a outro universo, mais selvagem e primitivo do que as mulheres de hoje, do mundo moderno. Havia algo indecifrável nela, no olhar, na forma de se expressar ritmicamente, até nos sons que emitia, que ele não conseguia traduzir apesar do seu bom conhecimento de Espanhol. Também a roupa que vestia, a pouca roupa que a despia, não era o que ele esperaria ver numa bailarina em Sevilha. Mas na verdade, nem ela era uma bailarina tradicional nem ali se estava na Sevilha dos cartões postais e guias turísticos. Tudo nela era comparável a nada do que conhecia. Como professor de História da Arte que era, inevitavelmente viu-se a medi-la em relação à sua memória visual das formas de representação da mulher pela mão dos mais importantes artistas da Humanidade. Via nela a graça das bailarinas clássicas de Degas, a sensualidade lânguida das odaliscas de Matisse ou da “maja desnuda” de Goya, o olhar sedutor e misterioso da Mona Lisa, o exotismo das mulheres tahitianas de Gauguin, a pureza das linhas com que Botticelli pintava as suas musas, o erotismo das coristas de Toulouse-Lautrec. Tanto nela remetia para os seus sonhos e loucuras, e ainda mais era novo, absolutamente novo, e por isso também irresistível.

Rendido àquele ritmo contagiante que a dançarina transmitia como ondas sonoras e visuais a toda a sala, Paulo deixou-se ficar estático a admirar o espetáculo. Perdeu a conta a quantas músicas ou danças viu. Não era momento para pensar no que quer que fosse, nem se a sua vida dependesse disso o conseguiria fazer. A voluptuosidade da dança tomara conta da sua vontade, de todos os seus sentidos, vegetando-o numa submissão total a essa deusa desconhecida que o dominava sem tão pouco o olhar. Também a música contribuía para o seu estado embriagado, por ela. Paulo não a dissociava da mulher, dos seus movimentos, parecia que era do seu corpo extasiado que emanavam os sons, e não dos instrumentos musicais dos intérpretes que estavam algures no fundo do palco, fisicamente presentes mas absolutamente apagados pela sua luz.

Durante todo aquele tempo, que lhe pareceu eterno, a música não parou, nem tão pouco ela. Desafiando o cansaço que seguramente teria de sentir tal era a energia com que dançava, a jovem mulher, que não aparentava mais que 30 anos, percorria todo o palco de lés a lés, fazendo-o seu, como se fosse um país do qual era rainha. E era, do palco e daquele mundo que se juntara para a ver dançar. Ali todos eram seus súbditos dedicados, prestando a devida vassalagem em forma de atenção e encantamento com o que a Sua Senhora os regalava com o seu corpo sedutor. Sim, estavam irremediavelmente seduzidos. Não que ela os procurasse provocar, enfeitiçar, cativar. Ela estava ali sozinha em palco, em si, não respondia perante o resto que se desenrolava em redor, estava a dançar para ela, não para o seu fiel público. Paulo sentiu isso, esse alheamento perante o que estava fora dos limites do estrado de madeira. Ela, essa mulher ainda sem nome para ele, não procurava nem respondia ao contacto visual com os espectadores, nem tão pouco reagia aos gritos, até urros em alguns casos, de incitamento, nem aos aplausos com que a cada espaço era brindada. A música não parava, e ela ainda menos. Talvez fosse ela a não parar, o que forçava os músicos a tocarem em contínuo. Paulo pensou que se não fosse por uma inevitável exaustão de algum deles, aquele espectáculo continuaria ad eternum, como se estivessem ali congelados num vazio de tempo interminável. Mas não seria isso a quebrar a dança e a trazer toda a sala de volta à realidade. Nem tão pouco foi por a dançarina ter decidido terminar a sua apresentação. A razão foi outra, tão surpreendente para Paulo como toda aquela noite estava a ser.

Foi com um som de trovão que a porta principal da sala se abriu do lado oposto àquele por onde Paulo entrara. Era um portão, mais que uma porta, de folha dupla e pesada, feita de madeira espessa, daquelas que já não se faziam nos nossos dias. A expressão física da porta justificava o tremor de terra, ou de sala, que provocou quando foi pontapeada pelo gigante que conseguiu alcançar o que nada até então tinha conseguido, fazer com que a estrela daquela noite parasse de dançar. O homem era um colosso, um brutamontes de um tamanho quase irreal, com o corpo coberto dos pés à cabeça por uma armadura de metal escuro decorado por uma profusão de ornamentos dourados. Do pouco que conhecia do tema, parecia-lhe uma réplica de uma armadura de guerra de um aristocrata castelhano do século XVI ou XVII. A elegância da peça contrastava com a dimensão do seu ocupante, e dava uma nota de ainda maior estranheza ao momento que estava perante os seus olhos. No meio da comoção que a entrada do homem causara na sala, Paulo ainda teve tempo para se questionar sobre o que faria um homem vestido de guerreiro naquele local… talvez fosse um ator de um dos espetáculos de recriação histórica para turistas que abundavam pela velha Sevilha. Sim, deveria ser algo como isso, só podia ser, o que não deixava de ser profundamente bizarro.

Com a entrada do homem, a dançarina estancou o ritmo frenético com que contagiara a sala e congelou, estacando o seu olhar no intruso com um misto de espanto e temor. Paulo pressentiu que aquela entrada não era fruto do acaso, e que algo de mais profundo ligava aqueles dois seres, algo negro que estava a trazer o terror ao rosto imaculado da dançarina. Foi ao vê-la assim, fragilizada pela surpresa que lhe petrificava os olhos, que pela primeira vez percebeu como ela era fisicamente. Antes não a conseguira vislumbrar plenamente, para lá dos véus que a escondiam parcialmente e das rendas da mantilha que agarrava o seu cabelo negro de noite e o enegrecia ainda mais. Também o ritmo alucinado da dançarina havia dificultado que Paulo lhe focasse o olhar, tanto mais que na sala as sombras eram mais presentes que a luz, mascarando ainda o que o atraía para lá da razão, ela. Mas agora sim, conseguia captar a sua beleza, não só por estar estática na sua luta interna com aquele guerreiro misterioso que parecia vir de outra era, mas ainda porque com ele tinha entrado na sala um manancial de luz vindo da divisão que se escondia para lá da porta, para lá do tempo onde estavam.

No momento em que olhava a sua pele morena em acrescida admiração, Paulo começou a questionar-se sobre o que estava a testemunhar. Quem era aquela mulher? De onde seriam oriundos os seus olhos rasgados e penetrantes? Que misturas de raças haviam produzido tamanha beleza? Não a conseguia situar no espetro étnico que conhecia das suas viagens pelos cinco continentes. Podia colocá-la em tantas nações e ao mesmo tempo em nenhuma. Sabia apenas que ela era de outro lugar que não aquela Sevilha de andaluzas, que com os séculos foram perdendo o salero que as fez ícones de todo um país. Tinha tantas questões a correr soltas no pensamento, em jeito de avalanche cerebral que desafiava a sua capacidade analítica e de concentração. Tudo se passava em frações de segundo, ao mesmo tempo que assistia à avançada do monstro de ferro em direção à inofensiva e indefesa mulher, que naquele momento perdera a sua força e poder magnético e estava reduzida a uma pálida imagem do que tinha sido até uns poucos segundos atrás. Paulo sentiu-se ainda mais perto dela, seduzido pelo medo que lhe estampava de dor antecipada o rosto angelical. Não podia permitir que algo lhe acontecesse, não se perdoaria de a ver sofrer, como acreditava ir acontecer quando finalmente o homem terminasse sobre ela a marcha ruidosa da sua armadura rangente. Sem pensar, avançou também ele a caminho do confronto iminente com um ímpeto tão afirmativo e poderoso que seria capaz de derreter aquela carapaça de metal frio. Foi então que ela o olhou, finalmente, e com esse gesto instintivo da dançarina em direção da pouca esperança que lhe restava, tudo mudou para ele, para sempre.

Paulo chegou ao palco de um pulo, beneficiando da sua leveza para ser mais rápido que o pesado homem de lata. Sem dizer uma palavra, pegou-lhe no braço, que suave era ao toque, e puxou-a com um misto de força e delicadeza para fora dali, arrastando-a em direção à única escapatória que conhecia, a porta que dava para o pátio das laranjeiras. Até lá chegar tiveram de serpentear por entre as mesas e as pessoas que antes assistiam ao espetáculo da dançarina. Foi só então que viu com olhos de ver os seus companheiros de sala. Mas quem eram aquelas pessoas, que pareciam saídas ou de um outro tempo ou de uma peça teatral passada numa outra Sevilha que não a de hoje. Eram homens e mulheres de olhar cansado e quase mórbido, sem qualquer aparência de estética ao vestir ou de higiene pessoal, a julgar pelos odores nauseabundos que o atacavam à medida que avançada até à saída. Estranho aquele ambiente, aquelas gentes, os copos onde bebiam, os pratos rudes onde estavam restos de carnes que aparentavam ter sido devoradas à dentada por não se vislumbrarem quaisquer talheres. Paulo não se demorou nessa análise algo perturbante porque a sua fuga era assombrada pelos grunhidos ininteligíveis do gigante, que seguramente os seguia em modo de fúria incontida. Parecia-lhe interminável aquele caminho, e só a sensação de a ter ao lado, cada vez mais colada a si, lhe deu a força necessária para vencer todos os obstáculos, entre os quais o medo, que o separavam da porta, ainda que não da salvação.

Saíram para fora do ambiente escuro e tumultuoso da sala e correram através do pátio das laranjeiras e depois pelo pequeno túnel do palácio dos Álvarez de Toledo até chegarem à estreita rua que o guardava. O som metálico do seu perseguidor ainda ecoava atrás deles, cada vez mais desmaiado, o que não era suficiente para que a dançarina acalmasse a sua ansiedade e medo, evidentes nos sons trémulos que emitia ao correr puxada por Paulo. Sentiu-a sempre na sua pele, e a cada passo que davam tinha-a mais próxima do sonho que ia construindo no meio do caos da fuga. Tinha consciência de que a tinha salvo das mãos de um homem que a atemorizava, não sabia ele porquê. Essa noção de protetor deixava-o com uma sensação de poder e responsabilidade. Aquela mulher indefesa dependia de si, da sua determinação e força, da sua capacidade física mas também da inteligência que tinha de aplicar em cada decisão milimétrica com que se tinha deparado desde que a tinha arrancado do palco e do perigo certo.

Continuaram a correr pelas ruelas desertas da velha Sevilha, cruzando-se aqui e ali com pessoas que os olhavam com alguma incredulidade. Não lhe parecia a mesma cidade por onde andara pouco tempo antes. Ou melhor, a cidade era a mesma, mas o que ela lhe transmitia era um contraste extremo com o que dela conhecia. Já tinha visto aquelas paredes brancas marcadas pela textura das camadas de cal que ao longo dos séculos as ia protegendo, também lhe eram familiares as armaduras de ferro forjado que no passado defendiam as casas dos perigos exteriores. Mas nada era o mesmo sendo igual, percebia isso agora que o ritmo da corrida desenfreada começava a abrandar devido ao inevitável cansaço e ao facto de sentirem ambos, ainda que sem falarem, que a ameaça que os unira estava agora mais distante dos seus cinco sentidos. Ao perscrutar o que os ia envolvendo, apercebia-se que estavam numa zona mais primitiva da cidade, onde o desenvolvimento parecia ainda não ter chegado. Reparou principalmente na parca iluminação das ruas, que era dada por grandes candeeiros suspensos por cordões de ferro das paredes e dentro dos quais uma chama pontuava as ruas com uma luz difusa, protegida dos elementos por uma caixa de vidro tosco. Que pessoas nos dias de hoje fariam o trabalho de acender e apagar estas chamas, alimentadas provavelmente por azeite, a julgar pelo aroma de óleo aquecido que dominava as ruas por onde passavam? Seriam alguns dos vultos pobremente vestidos com panos de tecido castanho e de pés descalços no areão das ruas? Mas de onde vinha esta superfície que parecia a que calçava a Real Maestranza? As ruas que percorrera antes pelo bairro judeu eram forradas a pedra clara e macia, a lajetas de cerâmica andaluza ou a uma espécie de seixos rolados e compactados juntos. Eram pisos que não sujavam os pés de pó e lama, como estes onde agora andavam, já a passo acelerado mas ainda em silêncio. Decididamente Paulo estava cada vez mais intrigado com toda aquela noite, e sentia que ainda não tinham acabado as surpresas e as inquietações. Mal imaginava o nível de verdade encerrado nesse pressentimento…

Foi de repente que a consciência da realidade em que estava finalmente o tomou de assalto. Tudo acontecera depois de assistirem a um fenómeno desconcertante, para ele pelo menos. A rua onde tinham finalmente encontrado sossego do pavor que os forçara a correr pela velha Sevilha fora, era aparentemente tranquila, com apenas algumas distrações causadas pelas pessoas que a trilhavam desencontradas. Todos os vultos, invariavelmente homens, que se atravessavam no seu caminho eram duplamente estranhos. Não só eram irreconhecíveis para Paulo na sua fisionomia, como não havia nada neles que lhe fosse minimamente familiar na aparência física, na forma andrajosa e simples de vestir ou de calçar, no aspecto muito pouco cuidado das suas barbas longas e no odor putrefacto que delas, e deles, emanava. A certa altura, um dos homens, que se arrastava pela rua colado à parede como se se escondesse de algo, saltou para cima de outro passante e atirou-o para o chão. Acto contínuo, o homem desembainhou uma espada de lâmina fina, como os floretes da esgrima olímpica, e avançou com a arma em riste em direção ao seu oponente que se mantinha prostrado no chão. Antes de a espada o trespassar, o segundo dos homens levanta-se e apara o golpe com um par de facas longas que tirou como que por magia de dentro do seu manto de sarja infecta. Começa então uma luta sangrenta, literalmente, com gritos num dialeto também ele desconhecido de Paulo e lances de lâminas afiadas que rasgavam a pele dos oponentes. Paulo pressentia a morte a chegar a um, ou aos dois homens, e congelou perante esse anúncio inevitável. Mas ela não teve a mesma reação. A dançarina continuava a olhar para trás, para o caminho de onde tinham vindo, sem qualquer interesse no dramático confronto que decorria a dois passos de si. Como podia ela ser insensível ao que estava a acontecer, até quando o espadachim teve a sua garganta cortada pelas facas de cabo de osso do seu rival? Quem era esta mulher? E que loucura era esta que estava a viver?

A prova que precisava para esclarecer as suas dúvidas chegou-lhe pouco depois de ter assistido incrédulo ao confronto mortal que decorrera em frente dos seus olhos com a normalidade de um jogo de rua entre crianças. Tinham deixado para trás o vencedor do duelo improvisado a vasculhar as roupas do corpo inanimado seguramente em busca de valores, quando chegaram a uma pequena praça de onde saíam quarto ruelas de diferentes dimensões. Neste entroncamento decorria uma espécie de mercado medieval, daqueles que as cidades antigas organizam nos seus cascos históricos para atrair os turistas e animar os locais. A dita feira teria não mais que uma dúzia de barracas que vendiam produtos alimentares e utilitários, como artigos de couro e metal. Num dos extremos da pequena praça uma banca vendia animais, especialmente aves como galinhas e perus, e pássaros que estavam encerrados em gaiolas. Uma dessas gaiolas chamou a atenção a Paulo pela sua dimensão bastante maior que as demais. Aproximou-se para ver que ave ali estava encerrada, uma vez que do ângulo de onde a olhava por entre a escassa luz das candeias da praça percebia apenas um monte de penas que se mexia irrequietamente. Quando ao fim de meia dúzia de passos chegou à sua beira, já, e sem se aperceber, de mão dada com a dançarina, quase caiu redondo de surpresa. Ali, por entre o metal da gaiola via agora, com toda a claridade da sua visão perfeita, um Dodo, a mítica ave extinta há mais de três séculos…

Paulo não podia acreditar no que via mas ele estava à sua frente, vivinho da Silva, com o seu bico arredondado, penugem colorida e ar desengonçado. Ele conhecia bem o aspecto deste animal desaparecido, originário da ilha Maurícia e trazido para a Europa no início do século XVII pelos exploradores Portugueses e Espanhóis até desaparecer completamente do planeta por volta de 1700. Agora que recompusera o seu coração da fuga e da consequente e ofegante corrida, a surpresa deste anacrónico milagre devolvera-lhe o nervosismo e a ansiedade. Com medo da resposta, olhou para a sua companheira de aventura e pela primeira vez dirigiu-lhe a palavra para lhe perguntar num castelhano quase perfeito: “en que año estamos?”. Ela devolveu-lhe um olhar enigmático e uma resposta num dialeto que tinha algo do acento da língua de nuestros hermanos mas outro tanto de influências que ele desconhecia. “1685 creo”, disse a mulher, que entretanto se tinha aproximado dos seus olhos e do seu rosto mais do que alguma vez tinha feito naqueles minutos que estava a durar o seu contato próximo. Paulo sentiu-se a desmaiar, foi a sua vez de se agarrar ao braço dela em busca de algum tipo de salvação para o terror que o assaltara ao ouvi-la referir aquele ano improvável.

A mulher percebeu a comoção do seu salvador e, num gesto diametralmente contrário ao de donzela indefesa, puxou-o para fora da praça através da rua que se encontrava no ponto oposto ao pelo qual haviam entrado uns minutos antes. Sem correr, mas em passo rápido, conduziu-o pelo labirinto de paredes brancas, ziguezagueando em silêncio e sem senso direcional aparente até que se estacou em frente a mais uma das mil portas de madeira da velha Sevilha. Com um movimento tão elegante quanto poderoso abriu a porta e entraram numa casa escura onde apesar do breu os olhos da mulher se orientavam em plena luz. Sem proferir uma só palavra desde que informou Paulo do ano em que estavam, a dançarina prosseguiu o seu trajeto na escuridão da casa. Paulo também não falava, mudo pelo choque que ainda sentia. À medida que os seus olhos se iam habituando à parca luminosidade foi percebendo o ambiente onde estava a penetrar. A casa contrastava com tudo o que vira desde que entrara sem saber naquela sala onde a dançarina deslumbrava a plateia e que percebeu ter sido uma espécie de máquina do tempo que o transportou de volta ao passado distante, na Sevilha do século XVII. O que parecia vislumbrar denunciava uma casa apalaçada, aristocrática, com tapeçarias a almofadar o chão, pesados reposteiros nas paredes e vetustos móveis a povoar os espaços. Alguma luz que entrava da rua pelas frestas das janelas permitia agora que visse mais daquilo que o rodeava, o que lhe veio confirmar a anterior impressão de que era num palácio que se encontravam. Assaltou-o mais uma dose de estranheza e incredulidade, como é que aquela mulher simples e de aspeto quase cigano podia entrar em tão imponente mansão com tamanha impunidade? E como se movimentava parecendo conhecer às cegas cada canto daquele imenso edifício? Tinha de o descobrir, não aguentava mais a inquietação. Foi então que se fez luz, sobre a sala imensa onde se encontravam e também sobre as suas dúvidas.

A dançarina sem nome acabara de acender uma tocha que pendia da parede imediatamente debaixo de um impotente e estranhamente familiar quadro no qual uma pesada moldura de talha dourada enquadrava uma figura feminina. A mulher estava de pé e envergava um profusamente ornamentado vestido castanho sobre o qual caía uma mantilha de renda negra. Na mão direita tinha um leque aberto, o que aliado à mantilha denunciava a sua origem castelhana ou andaluza. Envergava luvas brancas que se assemelhavam ao tom da pele que deixava ver no peito, exposto de forma talvez ousada demais para a época. O olhar que lançava para quem a olhasse era carregado de melancolia, como que a espelhar a realidade dura das mulheres daquela época, mesmo das aristocratas como a mulher retratada claramente era. O que lhe desvendou parte do mistério em que estava enredado foi o colar que tinha o pescoço, a contrastar com a alvura da pele. Era de pedras negras, redondas, dir-se-ia de pérolas, e era idêntico ao que a sua companheira de aventura envergava. Aliás, essa não era a única semelhança entre a mulher do quadro e a bela cigana… apesar do tom de pele da mulher viva não ser pálido como o da figura do quadro, os seus traços eram tão semelhantes que Paulo teve a certeza que elas partilhavam mais que apenas a presença simultânea naquela sala e o adereço que tinham ambas ao pescoço.

“Vocês…” balbuciou Paulo nervosamente ao mesmo tempo que apontava o indicador para o quadro e o olhar para a dançarina, “Vocês são da mesma família?”, conseguiu a medo perguntar por fim. “Si, esta mujer era mi abuela Marie de Rohan, Duquesa de Chevreuse”. De novo se fez luz na mente de Paulo. Era então daí que reconhecia a mulher no quadro, ou melhor, que reconhecia a obra de arte, que tinha visto tantas vezes em imagens e uma vez ao vivo, em Chatsworth, a mansão dos duques de Devonshire situada na maravilhosa paisagem natural dos Dales de Derbyshire. Sempre fora apaixonado pela obra de Velázquez e esta peça em particular era uma das suas favoritas. E agora tinha-a de novo à frente, mas desta vez no país de onde fora pintada e depois levada, mais de um século mais tarde, pelo irmão mais novo de Napoleão, Lucien Bonaparte, para enriquecer a sua faustosa coleção de arte.

Ainda a processar a experiência surreal que estava a atravessar, Paulo deixou-se cair sem força nem vontade numa das cadeiras de couro envelhecido que decoravam as extremidades do salão onde estavam. Soube-lhe bem finalmente sossegar as pernas, mas a sua cabeça estava a dar tais rodopios que não teve calma para apreciar essa bonança por mais do que um fugaz segundo. Assaltavam-no perguntas e inquietações, precisava de entender o que estava a acontecer, como tinha chegado ali, e afinal quem era aquela mulher que o domara sem esforço. Afastando o melhor possível da voz o tremor que sentia dentro, perguntou-lhe no seu melhor castelhano, “Qiuen eres tu? Como te llamas? Que palácio es este dónde estamos?”. Com a naturalidade de quem estava a falar com um velho conhecido sobre banalidades, a mulher respondeu num andaluz cerrado que denunciava as suas origens, “Me llamo Maria, trabajo en este palácio que pertenece a mis primos. Mi padre era hijo de Marie de Rohan y de un de sus amantes, qual de ellos nunca se descubrio. Por verguenza los Rohan lo enviaran lejos, para casa de unos primos em Sevilla, donde se quedou. Este quadro es la única memoria que tenia de ella”. Na sua voz não morava hesitação nem mágoa, aliás, Paulo não lhe escutou qualquer sentimento, como se aquele relato de infelicidades não tivesse sido vivido por ela e pelos seus próximos. Isso fê-lo ficar ainda mais curioso sobre Maria, sim, agora podia enfim chamá-la de algo.

“Lo siento”, disse a certa altura em palavras o que expressara momentos antes no olhar ao escutar o seu relato de vida em jeito de sumário. O seu pensamento vagueou pela vida de Maria, pelos tormentos que deveria ter passado por ser uma aristocrata de segunda. Será que os seus “primos” a tinham tratado como uma Gata Borralheira antes do tempo? Se assim fosse bem que ela poderia ter sido a inspiração desse conto que Charles Perrault adaptaria 12 anos depois, e que diziam ter-se baseado numa fábula popular italiana, a “La gatta cenerentola”. A dupla coincidência, da história e da proximidade temporal entre a vida de Maria e a de Perrault, deixou-o mais inquieto ainda. Sentiu-se de repente parte desse intemporal conto infantil que acompanhara a sua vida e a de tantas crianças ao longo dos séculos. Quis ser o príncipe que salvaria Cinderela da maldade e arrogância da sua madrasta e “irmãs” emprestadas. Sentiu a misturar-se em si vários sentimentos em relação à rapariga que tinha à sua frente. O fascínio do início continuava lá, mas agora tinha a companhia em doses generosas de outras sensações, de proteção, loucura, carinho, respeito e sim, porque não, de um despontar de paixão, que começava a sentir na sua pele e por ele a dentro.

Paulo sentia uma inquietação palpitante sobre a “sua” Cinderela, com perguntas a atropelar os seus pensamentos em catadupa, numa avalanche de curiosidade pela mulher que o estava a fascinar. Mas não era o momento para esclarecer essas dúvidas, agora era outra coisa que Paulo tinha na cabeça. A vontade que estava a crescer na sua mente era dirigida pelo lado que mais desconhecia de si próprio, a face oculta do seu ser, que sabia estar letárgico há anos. Há mais tempo do que gostaria de admitir que não sentia desejo profundo por uma mulher. A sua última década tinha sido pontuada por relacionamentos breves e relativamente brandos, a ponto de já não se lembrar de sentir a energia eletrizante que Maria lhe estava a gerar nas entranhas, na pele, nos olhos, no peito, no coração palpitante. Como acontece tantas vezes aos homens, também ele se debatia internamente sobre se ela sentiria algo semelhante, ou pelo menos algo, ainda que não fosse semelhante ao poder do que ele estava a sentir por ela. Timidamente e de forma algo infantil, Paulo perscrutava os olhos dela em busca de um sinal, por ínfimo que fosse, que lhe desse algum alento e confiança para ir na sua direção. Desde que começaram a correr juntos no sentido da fuga que não vislumbrara nela qualquer sentimento, que não o medo, fosse por ele ou por qualquer outra coisa. Via-a de certa forma impenetrável ao seu olhar e às vibrações que dele emanavam, o que o assustava porque não sabia quanto mais tempo, se minutos, horas ou mais, estaria na sua companhia. A possibilidade de ela se desvanecer no ar de um momento para o outro fez com que arranjasse forças para dar um passo que não dava desde a sua juventude.

O momento veio-lhe do nada mas cheio de tudo o que sentia a bater no peito e que palpitava para se libertar. A distância que os separava era imensa nos seus poucos decímetros. Mas não hesitou mais que uma eternidade milesimal e avançou em sua direção, focado no seu rosto, nos seus olhos, como umas horas antes Jose Tomas havia entrado, sem medo aparente, na cara do bicho negro que tinha escrito nas pontas dos cornos a possibilidade da sua morte. Ela, ao contrário quer do Melenito ou do Descarado, não avançou também de encontro ao homem que penetrava dentro da sua zona de conforto, e deixou-se ficar, tão gelada quando ele já tinha estado por ela, até que Paulo se encostar à sua respiração, agora tão ofegante como a de um animal acossado pelo seu predador. Sem se deixar quebrar pelo calor desse ar preso, Paulo perseverou mais, quebrando todas as barreiras erguidas pela sua vergonha e pela timidez que surpreendentemente lia nos olhos de Maria. A vitória saboreou-a nos seus lábios, molhados, carnudos, quentes, que se abriram para a sua chegada mais do que ele antecipara uma fração de segundos antes. Sim, era claro, ela beijara-o de volta, e isso fez toda a diferença do seu prazer.

Embalado pela sintonia de um beijo que parecia conhecer desde sempre, Paulo colou-se à boca de Maria perdendo a noção do tempo, do espaço, da própria realidade ou da ausência dela. Sentiu-se envolvido por um redemoinho de emoções frenéticas, de arrepios de pele, taquicardia, de quase perda da razão e dos sentidos, as suas bocas feitas uma, inseparáveis na sua voracidade, como se quisessem recuperar de um tempo perdido sem fim no qual tinham estado separadas. No meio da sua inconsciência, Paulo sentiu que tudo aquilo lhe era familiar, não sabia se a casa, os ruídos que entravam pelas janelas de fina folha de vidro ou o corpo de Maria que agora quase se fundia no seu. Mas havia qualquer sentido de dejà vu naquele momento, ele já sentira algo assim, não ali, ou talvez ali, mas como, nunca ali tinha estado, nem naquele palácio nem nela, ou será que já tinha? Sentindo-se a desvanecer num transe no qual se misturava o prazer do beijo com a inquietude do absurdo sentimento que o dominava, afastou-a com os braços. Foi talvez ríspido ao fazê-lo porque ela o olhou com um temor nos olhos, um temor apaixonado que contrastava com o medo que espelhara antes quando fugia do gigante de metal. Aquele olhar triste, como que magoado, tocou Paulo e fê-lo reganhar o chão que se sentia a perder. “Perdon”, balbuciou. “No se lo que me a passado, algo en mi me dice que ya vivi ese momento, me siento perdido, y te hice mal”, disse, deixando-se cair no piso de pedra do grande salão. Maria mudou de olhar, que se decorou de compaixão e afeto. “Si, es raro pero lo siento tambíén, tu boca me es tan familiar. Todo en ti lo es. Quien es tu al final?”, devolveu Maria com um tom compreensivo que o sossegou, ao mesmo tempo que descia ao seu nível e se sentava, com uma graça feminina, no piso fresco de pedra. Era chegada a altura para finalmente falarem tudo o que tinham silenciado até então, e que poderia iluminar a escuridão de dúvida e misticismo onde se encontravam.

As horas seguintes (ou teriam sido minutos, dias?) passaram-se entre beijos e conversas juvenis sobre as suas vidas, as diferenças entre os séculos em que viveram, e sobre o que estavam a sentir. Paulo perdeu-se no tempo esvaziado de tudo o mais que não eles, a ponto de ter perdido noção da realidade. As luzes sumidas das velas que ardiam sem parar, na ausência de luz vinda do exterior, faziam com que a noite estivesse sempre presente naquela sala, ainda que o dia já tivesse nascido há muito para lá das grossas paredes de pedra do palácio dos Aguilar de Molina. Ao fim de tantas palavras trocadas não conseguiram desvendar o mistério que os envolvia. Ainda era nebulosa a razão que tinha permitido aquele vazio temporal no qual se encontravam. Paulo conjeturava na sua mente teorias possíveis, qual delas mais fabulosa que a anterior. Ainda assim a explicação irracional que mais desejava era a de que ele teria tido um ascendente que tinha vivido naquele período e por algum fenómeno sobrenatural o hiato de tempo tinha-se esfumado e ele regressara a um passado que de certa forma já teria sido o seu presente. Conhecia a sua árvore genealógica com algumas gerações de profundidade, mas não até ao século XVII, portanto não o podia confirmar. Mas se assim fosse, se por algum acaso do destino ele tivesse voltado a uma vida já vivida por uma menos que decimal parte de si, seria Maria alguém desse seu passado ou seria uma pessoa nova, sem anteriores interseções? A mulher que beijara tão apaixonadamente poderia por absurdo ser sua “avó”? Esforçou-se por não deixar que esse pensamento poluísse o seu desejo pela andaluza, que há muito havia ultrapassado a barreira do que se lembrava de alguma vez ter sentido por uma mulher. Sem soçobrar, deixou-se continuar a levar pela torrente de sentimentos que o dominava, entregando a Maria tudo o que tinha em si, o que ela devolveu em dobro.

Embalados pelos abraços e beijos a que se entregaram, Paulo e Maria adormeceram finalmente, encontrando-se e entregando-se de novo nos sonhos mútuos. Já sem o pudor de um primeiro encontro, nesse além-mundo foram o que não se atreveram a ser no mundo também ele do além de onde tinham vindo. Ao acordar, talvez horas mais tarde, talvez não, Paulo sentiu menos peso colado ao corpo do que quando perdera consciência. Abriu os olhos e viu que Maria já não jazia no seu colo. A sala não perdera a sua majestade mas estava diferente do que era na memória recente de Paulo. Agora, as vetustas peças de mobiliário de época contrastavam com outras, familiares à realidade que ele conhecia do seu mundo contemporâneo. Uma televisão, candeeiros elétricos acesos, a música em inglês que se propagava a média voz da rua… o tempo decididamente não era o de Maria. O que se tinha passado? De novo teorias o assaltaram enquanto se levantou e encetou uma demanda desenfreada por ela, palácio fora ou palácio dentro, conforme o prisma. Percorreu incontáveis divisões que todas relatavam a mesma história, de uma secular casa senhorial recheada de modernos confortos, tão semelhante a outras que Paulo conhecera ao longo da vida, e tão distante da mansão setecentista onde entrara pouco tempo antes mas séculos atrás. Lutou contra a racional evidência de que Maria não existia mais, se é que alguma vez existira. Mas ele sentiu-a, toda, no olhar, voz, beijo, pulsar. Ela era real, ela fora-lhe real. Para onde lhe tinha fugido? Estaria apenas dentro de si, estaria ainda dentro de si? Esvaziado da vida que se viu a viver com ela, triste por não ter tido um adeus da sua boca, Paulo cambaleou em direção ao som que vinha de para lá das portas de madeira de carvalho que fechavam o palácio do resto da cidade e do mundo. Essas sim, eram as mesmas, talvez com mais 400 anos na pele, mas tinham o mesmo peso ao abrir-se do que tinha sentido quando as empurrou no sentido contrário nessa realidade, ou teria sido sonho, que vivera com ela. Letárgico, Paulo sentiu o ar já cálido da manhã banhar-lhe a pele ao franquear o imponente portão, fechando-o em trovão atrás de si. Sevilha recebeu-o, como filho pródigo de regresso a casa.

 

 

 

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