Numa curva do caminho

O dia tinha acordado com uma névoa acolhedora e, aproveitando o fresco, Marco, décimo Duque de Manientti, saíra para ir dar o seu passeio matinal a cavalo pelo campo. Era um dos seus rituais preferidos e tentava fazê-lo sempre que estava na Villa palaciana da sua família na Toscana. Era uma propriedade com uns milhares de hectares que tinha herdado ainda em vida do seu pai, juntamente com o título ducal, o palazzo da Via dei Portoghesi em Roma e até um Kasbah no Sul de Marrocos, no oásis de Skoura, deixado ao seu pai por um tio-avô excêntrico que para ali se exilara para fugir aos rigores da sociedade italiana do meio do século XX.

Marco estava desvairado para montar a sua égua preferida, uma puro-sangue árabe cruzada com lusitano que comprara uns anos antes a um sheik que se queria desfazer de toda a sua coudelaria por raiva ao tratador que tinha tido um caso com uma das suas várias mulheres. Aamira Hilai, fora assim que o sheik baptizara a magnífica égua, quer dizer, talvez baptizara não seja a melhor expressão porque como é óbvio os muçulmanos não celebram esse rito mas sim a cerimónia de Aqeeqah. Mas nem este termo faria muito sentido usar porque se aplica a crianças e implica o sacrifício de um animal, normalmente uma ovelha. Como não se mata um ovino quando nasce um equídeo, fiquemos pelo termo “registar”. Sim, Aamira Hilal, que significa Princesa da Lua em árabe, fora registada por Abdul Mohammed Ibrahim Naylef, um dos milhares de membros da família real saudita, os Saud, ainda que ele fosse do lado “pobre”, o que no caso não significa que não tivesse casas em moradas tão “ricas” como Juan-les-Pins, Londres, Verbier e Nova Iorque.

Montado na sua princesa, o duque partiu, deixando-se engolir pela bruma que escondia os montes suaves forrados de vinhedos e olivais. Passada a alameda de ciprestes que descia da casa de cor ocre, Marco afrouxou as rédeas que estavam a conter a ânsia de corrida de Aamira, e deixou a égua libertar toda a sua adrenalina arrancando num galope à carga que banhou de ar fresco o rosto do jovem aristocrata, fazendo voar os seus cabelos, que não sendo tão longos quanto os dos seus antepassados medievais, cujos quadros pintados por grandes mestres decoravam os salões do palazzo de família, ainda assim eram considerados compridos demais pelas suas velhas duas tias-avós solteironas do lado materno, que ainda viviam num ambiente semi-feudal numa Masseria do século XV perdida nos confins rurais da Puglia.

Ao fim de alguns minutos de esforço sobre-equídeo, Aamira, que ainda não estava acostumada ao frio e humidade das manhãs de Fevereiro na Toscana, começou a denotar algum cansaço. Marco, que era um com a sua princesa, sentiu isso também no seu arfar mais sonoro e na menor velocidade do seu galope. E por isso trouxe-a para um ritmo de trote e logo para o passo, primeiro corrido, mas gradualmente mais lento, até que chegou um caminhar suave, que seguramente era naquele momento do agrado da fogosa égua. Até o duque gostou de estar a andar mais devagar que a brisa que corria.

Foi quando estava nesse passo que Marco a viu, a uns 150 metros de si, sentada num muro de pedra na beira da estrada de terra que zig-zagueava pela paisagem bucólica, bucolizando-a ainda mais. Ao longe, quando a vislumbrou mas ainda não tinha percebido os contornos do seu rosto, o cavaleiro riu-se para si mesmo pensando que aquela criança de pele morena parecia uma versão exótica do Humpty Dumpty de Denslow, que Lewis Carroll imortalizou, e cuja rima tantas vezes ouvira na sua infância pela voz da nanny inglesa que o co-criara, Miss Crownbridge.

Humpty Dumpty sat on a wall,
Humpty Dumpty had a great fall.
All the king’s horses and all the king’s men
Couldn’t put Humpty together again

E ele estava a cavalo, curioso… A distância entre os dois, entre os três se contarmos Aamira, ia encurtando lentamente, e Marco foi ficando impaciente porque ainda não conseguia perceber bem o rosto da criança. Era curioso por natureza mas naquele caso a sua reação tinha a ver com o facto de estar intrigado pelo insólito do quadro que estava mais adiante no seu caminho. Quando finalmente se aproximou o suficiente para poder definir o objecto que o atraía, naquele momento apenas a vista, mal ele imaginava tudo o mais que viria depois, viu que afinal não se tratava de uma criança mas sim de uma mulher feita, e impressionantemente bonita. Normalmente os cavalos estacam quando algo os intimida ou assusta. Aamira não se sentiu afectada pela mulher, foi Marco quem estacou o corpo e a mente, vidrado no olhar penetrante que o analizava desde o seu muro de controlo.

“Olá, bom dia”, disse ela, com um sorriso rasgado literalmente de orelha a orelha que desarmou o aristocrata, que estava ainda debaixo do efeito que a beleza da misteriosa mulher lhe causara. “Olá”, balbuciou da maneira que pôde, achando logo de seguida que tinha sido em tom forçado e pouco natural. Que raiva tinha dele próprio naquele momento. Mas ela não pareceu incomodada, ou se calhar viu o desconforto que causara no cavaleiro e sentiu-se galanteada por isso, isto porque deu uma risadinha divertida, um “giggle” como dizia Miss Crownbridge. E ele achou-a adorável, além de fascinante. Apeteceu-lhe bombardeá-la com perguntas sobre quem era e que fazia ali nas suas terras. Mas não a queria afugentar e limitou-se a deixar Aamira avançar, tendo pensado numa fração de segundo que a beleza da égua poderia ajudá-lo a fazer o seu trabalho e a quebrar o gelo de um encontro tão inusitado como aquele. E assim foi. Ao ver o animal a aproximar-se, a jovem esticou o braço para a chamar, fazendo ao mesmo tempo aquele som que sempre fazemos quando queremos que um animal venha até nós. Marco estava tão perto que pode ver a forma como os seus lábios, perfeitamente desenhados e femininos, se apertaram para emitir um som que se assemelhava muito ao de um beijo. Que pena não ser isso, na sua boca, pensou.

“Como se chama ela?” perguntou. “É linda, acho que nunca vi uma égua tão bonita. Percebo que tem sangue árabe pelo formato do focinho e pela forma como a cauda se arqueia, mas não é pura, tem algum outro sangue que não consigo definir e isso está a deixar-me muito intrigada”. Marco não queria acreditar na perspicácia e cultura geral equina daquela misteriosa mulher. A sua curiosidade por ela aumentou na proporção da da dela por Aamira. Mais confiante, afinal ele era um Manientti di Catenavecchia, respondeu “Vejo que conhece cavalos, ou neste caso, éguas”, ao que ela riu mais do que seria de esperar. “Sim, a Aamira tem metade de sangue árabe, do semental El Zoubie, um dos mais premiados da raça, e outra metade de lusitano, da coudelaria portuguesa Veiga, famosa pelos seus cavalos de toureio”. “Lusitano nunca teria adivinhado, mas o resultado é perfeito, tem sorte em ter um animal assim, se é que alguém pode ser dono de uma obra-prima da Natureza”, retorquiu ela com um olhar de enlevo e desafio que o derreteu ainda mais. Os dados estavam lançados, diria alguém que visse a forma como se olhavam, ambos, ainda que nenhum deles se tivesse apercebido disso.

Marco tinha decidido sem decidir que o seu passeio matinal a cavalo, parte essencial do seu dia na Villa di Camposanto neste idílico Val d’Orcia, não iria nessa manhã para além daquele muro de pedra, chegara ao fim do seu caminho. Queria perder-se na descoberta dela e para isso iria precisar do tempo que estava destinado a cavalgar pelo campo. Não tinha um sexto sentido que lhe dissesse que valeria a pena, apenas tinha perdido a vontade de tudo que não fosse estar ali com… “Posso saber o seu nome?”. “Alba”, disse, rindo-se. “Sou mesmo Alba, branca, apesar de ser tudo menos branca”, continuou numa gargalhada deliciosa que contagiou Marco, que deu por si a rir também. “Os meus pais são Etíopes mas vieram para Itália há muitos anos, e eu nasci aqui. Apesar de dizerem que me chamaram assim porque viveram uns anos em Alba, eu acho que também houve algum humor e ironia na escolha. Mas eu amo o meu nome, por isso não me importo de qual tenha sido a razão, estou agradecida que me tenham baptizado assim”. Decididamente esta jovem branca negra estava a deixá-lo fascinado.

Sempre o tinha intrigado aquela ligação altamente improvável de Itália a África por via da Etiópia (Abissínia para os europeus nessa época), Eritreia e da Somália Italiana. Estes territórios, artificialmente aglomerados na África Oriental Italiana, cujo nome desde logo denunciava a arrogância europeia sobre todo um continente, foram invadidos apenas 20 anos após Itália se ter unificado, ainda o corpo de Garibaldi estava morno. O que tinha levado um jovem país a procurar territórios num outro continente? Um conjunto de razões, todas más. A escolha caiu, obviamente, sobre uma zona que estava deserta de colonizadores europeus, e assim Itália começou a brincar às potências imperialistas, com três séculos de atraso em relação a Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Pela primeira vez estava feliz por os seus antepassados terem decidido partir para África movidos por um orgulho nacionalista que virou imperialista. Se não o tivessem feito, Alba provavelmente não estaria ali. Tinha sido essa ligação diaspórica dos italianos que permitira que os pais de Alba tivessem tido acesso á língua e cultura do seu ex-colonizador, e depois à autorização de residência quando migraram para Noroeste desde o Grande Vale do Rift até ao país da “Bota”.

“E tu, como te chamas?”, a informalidade estava assumida por ela com o tom da pergunta, o que deixou Marco simultaneamente feliz e intimidado. Era para ele por vezes difícil despir-se da camisa de forças da educação tradicional que tinha tido. Os pais quiseram desde cedo prepará-lo para assumir as responsabilidades do seu título e do estatuto que o ducado com ele trazia, mesmo numa Itália republicana. Marco não ligava a essas coisas mas sabia o quanto isso era importante para os pais, que adorava, e pelos quais se sentia cada vez mais responsável, também ao nível do evitar decepções, à medida que iam envelhecendo. Por isso sempre mantivera o seu lado descontraído, o seu lado B, longe dos olhares e dos ouvidos dos velhos Príncipes de Sacro Monte di Valpollano. Como dizia aquela campanha de Las Vegas, “what happens in Vegas, stays in Vegas”. Pois bem, o que se passava no seu outro lado, apenas com ele ficava. “Chamo-me Marco”, disse, omitindo propositadamente todos os apelidos sonantes que carregava nos ombros.

O sol começava a rasgar por entre as nuvens, dissipando a bruma e deixando Alba ainda mais iluminada, e o dia parecia ganhar outra alegria graças a isso.

Ao longo da estrada corria um ribeiro de águas límpidas que brilhava agora com o sol rasteiro da manhã. Apesar de estreito, olhando de um certo ângulo o reflexo da luz do astro-rei chegava para incandear os olhos. Alguns metros mais à frente o ribeiro afastava-se do caminho um pouco, criando um pequeno prado verde. Era um local onde Marco por vezes parava para dar de beber à sua montada. Aamira, que se apercebera da proximidade do seu local de repouso, estava deserta por lá chegar, não querendo ficar ali à mercê dos caprichos masculinos do seu dono. Quem já montou um puro sangue árabe sabe que são animais nervosos e inquietos, e Aamira estava a demonstrá-lo, mexendo-se sem parar apesar de estar parada. Marco sentiu isso e sabia que era insustentável ficar ali muito tempo imóvel, por mais que o desejasse. Mas não queria deixá-la, a Alba. “A minha égua está nervosa porque sabe que ali à frente há um local onde sempre paramos para descansar e para ela beber água. Tenho de a levar lá. Quer vir também e continuamos a conversa sentados na relva?”, perguntou, arranjando uma coragem que não imaginava ter para a convidar. “Sim, claro que sim, adoraria continuar a falar contigo”, respondeu com um sorriso tão franco e aberto que o desarmou ainda mais. E, acto contínuo, levantou-se no muro, e sem pedir licença puxou as rédeas da égua, e da situação, para si, por forma a que o animal se virasse o suficiente para ela saltar para trás de Marco, ao melhor estilo de cowgirl do Far West. O jovem duque não queria acreditar no que estava a acontecer. “Sempre quis fazer isto”, disse, soltando simultaneamente uma gargalhada e o rosto para trás. “Quando era pequena, passava horas com o meu pai a ver Western Spaghettis como os de Sergio Leone, e depois treinava os truques que via os cowboys fazerem. Quem me dera ter vivido nessa época, ser uma espécie de Calamity Jane, e viver livre de tudo e de todos, a fazer o meu próprio destino e a ser respeitada e temida até pelos homens mais duros da face da Terra, ou de para lá do Pecos, que na altura era basicamente a mesma coisa”. Decididamente aquela jovem mulher era mais que os olhos viam.

O caminho até ao verdejante prado foi curto, pouco mais de um minuto, mas pareceu uma eternidade a Marco. Alba colou-se a ele, não porque a velocidade de Aamira a essa segurança obrigasse, ela ia num trote suave, mas porque era assim a imagem que tinha na memória dos filmes de “faroeste” da sua meninice. Mas ela já não era uma menina, e Marco percebeu isso quando dois seios bem adultos se encostaram às suas costas, excitando-o de uma forma tão inesperada como toda aquela manhã estava a ser. Se ele já a desejava desde o primeiro instante em que a vira, a partir desse momento soube com a certeza mais absoluta que se ia dedicar a conquistá-la.

Alba percebeu o efeito que estava a produzir em Marco pelo acelerar do seu coração, que se transmitiu ao seu corpo pela proximidade sem distância a que estavam. Esboçou um sorriso porque também ela estava a sentir algo que não se lembrava de sentir nas suas 22 primaveras de vida. Já lhe tinham falado deste sentimento que como uma avalanche leva tudo à frente em nós. Sempre tivera medo de o sentir, ela gostava de estar em controlo de todas as situações, tinha maior dose de racionalidade do que era normal encontrar numa mulher, e temia que uma paixão a fizesse perder a razão. E era essa capacidade de manter o controlo, de viver a vida racionalmente e de forma policiada, que lhe tinha permitido ultrapassar todas as pedras que o destino tinha colocado no seu trajeto. Mas estava a sentir agora uma atração por esse abismo que sempre a assustara e do qual se afastara. Tudo por causa daquele príncipe montado num cavalo branco. Bem, na verdade o que lhe tinha calhado em sorte era um homem normal (ainda não sabia dos títulos de Marco) numa égua cor de prata, mas Alba não estava preocupada com a ligeira variação em relação ao que estava escrito em todos os romances de cavalaria que tinha lido, e que sempre a fascinaram para espanto dos seus pais. Crescera a ler clássicos que contavam aventuras do Rei Artur, de Don Quijote de La Mancha e, principalmente, de Amadis de Gaula, talvez o personagem que mais a fascinara.

“Vou desmontar e depois ajudo-a a descer”, disse Marco quando Aamira parou junto à água que marulhava delicadamente. Passou a perna direita por cima do pescoço da égua, porque estando Alba atrás não podia sair da forma tradicional, e saltou para o chão. Chegou o momento que estava a ocupar a sua mente desde que ela se anichara nas suas costas junto ao muro de pedra do trilho campestre. Beneficiando da sua altura esticou os braços até à cintura de Alba. Era alto para italiano, com 1,87m provavelmente herdados de uma bisavó dinamarquesa a quem chamavam a Avó Viking. Não pediu licença porque já sabia o que queria fazer. Alba não pareceu surpreendida, ou pelo menos deixou-se levar, colocando as mãos nos ombros do seu cavaleiro andante e projetando o seu corpo para o dele. Marco recebeu Alba com mais intimidade do que os poucos minutos de conversa que tinham tido permitiriam à partida. Mas fê-lo. A jovem deixou-se envolver por ele, entregando as suas forças no seu abraço. E colada assim, desceu, até aterrar como uma pluma no chão. Só nesse momento é que os seus olhos se abriram. Apenas Marco reparou nisso, ela própria não se tinha apercebido. Ele sabia que era bom sinal.

Sentaram-se na relva ainda húmida das lágrimas da madrugada. Não se molharam graças à manta que Marco tinha debaixo da sela para absorver o suor da égua e proteger a sua zona dorsal. Não era grande a superfície de pano pelo que se sentaram perto um do outro, com as pernas a tocarem-se, o que não estranharam nem evitaram. A água do ribeiro corria devagar, murmurando sons numa língua escrita pela Natureza. A aragem que se sentia, voando a uma velocidade paralela à das águas, completava o quadro musical, orquestrada em simbiose com as folhas das árvores e dos vinhedos. A cena, para quem observasse de fora, parecia uma das paisagens que Renoir pintou perto de Essoyes, com os dois bonitos jovens a compor o cenário. O Éden, a existir, não seria muito diferente daquela imagem.

A conversa foi crescendo à medida que o sol se elevava no céu. As horas passaram sem que eles as sentissem, de tal forma estavam envolvidos pelas palavras insinuantes e os olhares cúmplices que trocavam. Estavam a descobrir-se, as pessoas que eram, as que gostariam de ser, os sonhos e os relatos de vida, um sem fim de temas que se encavalitavam uns nos outros e esvaziavam a passagem do tempo. A cada segundo os seus olhares ficavam mais entregues, mais fascinados com os novos degradés de beleza que iam descobrindo na pessoa que tinham em frente. Era como se a cada olhar vissem algo de novo. Na verdade o que viam era o espelho do que sentiam a crescer dentro de ambos, uma sensação simultaneamente poderosa e suave, que os irradiava de luz e de desejo.

A conversa viajou também por algo que estava a deixar Marco curioso, a razão de Alba estar ali, nos seus domínios, longe de estradas principais e povoações. “O que fazes aqui, como vieste aqui parar?”, perguntou-lhe a certa altura como se fosse uma criança na idade dos “porquês”. Alba contou-lhe a razão. Tinha vindo passar uns dias com um casal amigo que alugara uma pequena casa na aldeia mais próxima, que distava ainda uns dois quilómetros daquele local. Como acordara cedo e estava sedenta de ar puro, resolveu perder-se pelos campos, andando sem rumo por entre as vinhas e bosques vizinhos. O facto é que se perdeu mesmo nessa caminhada à deriva e antes de começar a procurar o caminho de volta resolveu parar para apreciar a paisagem Toscana de cima do muro de pedra onde Marco a tinha encontrado. E o resto era história…

O meio-dia chegara a julgar pelo sol que começou a queimar a pele de Marco mas não a de Alba, que de branca tinha menos que o jovem duque. Alba olhou para o céu e leu as horas, dizendo que o tempo tinha passado rápido. “Queres que te leve a casa?”, perguntou em tom entristecido pela perspectiva de a deixar. “Sim, agradeço, tenho de me juntar aos meus amigos que querem ir ao mercado comprar coisas para fazer uma Ribollita para o almoço. Mas tenho pena de ir.”, disse, baixando delicadamente os olhos ao mesmo tempo, num acesso de timidez que encantou Marco ainda mais. Sentia-se enlevado por aquela mulher, irresistivelmente envolvido pela miríade de sensações e sentimentos, de vontades e sonhos que ela sem esforço ou intensão lhe provocava. Estava a perder-se por ela depois de ela se ter perdido no caminho destinada a encontrá-lo. Por uma vez na vida o confiante Marco Manientti di Catenavecchia estava sem as suas costumeiras armas, e não se sentia despido por isso.

Ao perceber que Alba se ia levantar, Marco pôs-se imediatamente de pé, ainda a tempo de a puxar para a posição erecta. Apesar de não vir de um mundo onde esse tipo de gestos era prática comum, e graças à sua insaciável curiosidade, Alba sabia bastante mais que apenas as regras básicas de boas maneiras, pelo que foi capaz de ver na atitude de Marco uma delicadeza e educação que acrescentou mais uma peça no puzzle que estava a contruir na sua cabeça. O desenho que estava a criar não se esborratou quando sentiu que Marco a chegou até si ao levantar-se, antes pelo contrário, apreciou sentir que o lado masculino estava também bem vivo naquele cortês personagem. Essa noção ajudou-a a quebrar um pouco a redoma de vidro onde estava instintivamente a colocar Marco, tornando-o mais terreno e por isso mais acessível a uma mulher como ela. Os segundos em que estes pensamentos a viajaram pareceram-lhe horas, tão vívida tinha sido a sensação de ter conseguido imaginar, e quase viver, histórias com Marco durante essa fração de tempo. Na sua mente atravessaram-se sentimentos quentes, vibrantes, intensos, apaixonantemente reais, nos quais os dois não eram meros desconhecidos mas sim amantes, um par feliz que vivia uma vida idílica num cenário de conto de fadas. Sentiu-se um pouco infantil, até pirosa, ao pensar isso. Já não tinha 15 anos, mas a verdade é que a imagem que lhe vinha remetia para um universo fantasioso onde Marco era Aramis e ela a Princesa Oriana. Quem lhe dera estar aí, num mundo distante onde as diferenças económicas, sociais, culturais e raciais entre os dois não teriam o valor que tinham na Itália dos seus dias. Lá no fundo do seu pragmatismo, que estava tão enublado como o dia tinha acordado, sabia que não iria poder concretizar o seu sonho de viver para todo o sempre num mar de felicidade com um homem como Marco. Era realista, as coisas não aconteciam assim na vida. Mas não queria pensar nisso, estava a viver uma realidade concreta, que sentia poder durar uma eternidade de tempo ainda que tivesse fim à vista. Ainda que nunca mais o visse, iria lembrar esta manhã de poucas horas e tantos anos para sempre. Estava feliz e não iria deixar que a sua racionalidade roubasse o sorriso que Marco lhe havia pintado no rosto.

Também Marco pensava para consigo, ao olhá-la na plenitude da sua beleza. Tinham quase a mesma idade mas vinham de mundos diametralmente opostos, percebera isso durante a conversa rica tida à beira regato. Apesar de se sentir num estado semi-vegetativo que o vidrara em tudo o que emanava de Alba, o duque não podia deixar de sentir alguma angústia por achar que provavelmente nunca seria aceite na cultura euro-africana da sua… sim, podia dizê-lo com verdade, da sua amada. Que injusta era a vida, porque havia tantas barreiras a desumanizar a vida e a poluir a sua pureza? Naquele momento queria apenas ser um igual a Alba, um seu par, sem qualquer matemática ou contabilidade de elementos estranhos aos sentimentos entre um homem e uma mulher, que deviam ser alimentados por nada mais que carne e espírito. Mas a sociedade não era assim, infelizmente. Mas naquele momento Marco não queria que nada perturbasse os laços que estava a criar com Alba. O mundo para ele começava e acabava nela, não ia além um metro além dos olhos cheios de brilho e magia da mulher que acabara de conhecer mas à qual se sentia ligado por uma afetividade tão forte quanto tinha sido instantânea.

Chegara a hora de partirem a cavalo, ou melhor, a égua, em direção ao fim anunciado do seu tempo juntos, percorrendo o caminho verde com dois sulcos paralelos de terra batida que marcavam os rodados dos carros. Marco não permitiu que Aamira acelerasse para lá do passo, castigando-a com o freio sempre que o animal procurava seguir a sua natureza e passar para o trote como ponto de partida para o galope à carga pelos troços de terra do campo Toscano. Não queria que o ritmo da montada lhe roubasse um segundo que fosse do prazer contido de ter Alba nas suas costas ao longo do trajeto. Cada instante contava e era unicamente precioso e distinto. Sentia que se iria lembrar daquela viagem de poucas dezenas de minutos ao longo de todo o seu caminho de vida, estivesse ou não Alba nele. Será que ela sente o mesmo?, pensou Marco enquanto olhava o infinito que terminava na curva da estrada. Um lado de si achava que sim, pensava tê-lo lido no seu olhar, que sempre o acolheu com abertura e calor desde que primeiro se cruzaram ainda estava ela em cima do muro em modo de Humpty Dumpty. Mas assaltava-o a dúvida e o receio de nunca mais poder ter uma oportunidade de o saber ou de a tentar conquistar, como sentia querer, no seu íntimo e na sua pele. Provavelmente a incerteza iria ficar com ele quando Alba partisse, ao chegar à casa onde estava hospedada com os seus amigos. Teria de arranjar uma forma de o descobrir ou de fazer com que ela não desaparecesse do seu amanhã. Tinha pouco tempo para decidir como, sentia-se tão perdido como ela se sentira umas horas antes ao deambular sem rumo até ele.

Nas costas de Marco tudo o que Alba via à sua frente estava envolvido no manto frio da ansiedade. Estavam em contagem decrescente, ela sabia-o. Não cabia em si de contente ao perceber que a égua avançava a passo de caracol. Estaria cansada ou seria Marco a travar-lhe a marcha?, pensou. Não, Aamira tinha descansado durante toda a sua conversa, uma puro-sangue como ela não podia estar exausta ao ponto de andar tão parada. A explicação estava nele, no objecto do seu fascínio. Naquele instante Alba viu a luz, na forma da certeza de que Marco queria, tanto quanto ela, protelar o seu regresso a casa, e assim extender o mais possível aquele idílio onde se encontravam. Sorriu ao chegar a essa conclusão com sentido de início. Estava feliz, sem pensar em nada mais que no agora. Quis dar um sinal disso a Marco, fazê-lo sentir que ela entendia, que ela o entendia, que estava em sintonia com o seu gesto, com a vontade que ele expressava em silêncio através do passo que forçara a Aamira para não perder Alba antes de poder ter o tempo todo em que a podia ter. Instintivamente a jovem deixou a sua cabeça cair como uma pluma nas costas de Marco, virando o rosto para que a face sentisse o bater do seu coração. Ao mesmo tempo entregou as suas mãos à vontade de o abraçar mais forte, deixando-as viajar da cintura do cavaleiro, onde estavam timidamente pousadas, até ao seu peito, aventurando-se pelo torso perfeitamente torneado do homem que a tinha conquistado sem esforço e, até esse momento, sem o saber.

Foi com a mais absoluta surpresa que Marco sentiu o movimento paralelo do rosto de Alba nas suas costas e das mãos da sua adorável passageira no seu peito. Aamira sentiu na pele e no pêlo o sobressalto que percorreu o corpo do seu senhor, o que provocou nela uma pequena reação nervosa, que ele por sua vez também percebeu. Marco não cabia em si de contente por ter recebido aquela deliciosamente inesperada demonstração de afeto. Soube no mesmo instante ler nela a confirmação de que Alba o tinha próximo, e algo em si ganhou um novo sentido. De repente, para ambos, a estrada e o horizonte fundiram-se uma no outro e ganharam uma dimensão de infinito, no qual Alba e Marco soletravam a palavra futuro.

 

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