Imaginary Suicide Letter #1

Chegou a minha hora. Escrevo-vos para me despedir, de todos e de cada um de vós, despedir-me da vida na hora em que vou abraçar a morte. Tentei, tudo. Tentei mesmo, com todo o meu ser, apagar o que me trouxe aqui, a dor física e emocional, a ausência das pessoas por quem vivi e que perdi no acidente. Passei três anos a sofrer a partida súbita da Marie e do Sasha. Foram os piores anos da minha vida, os piores anos de qualquer vida que possa ser vivida, se é que se pode chamar “vida” a uma existência tão pobre, podre e vazia como a que tive nestes anos intermináveis sem eles e sem mim.

Olho em frente e só vejo o continuar desta chaga mortal que me aflige e me gangrena, e que não pude sarar, a dor premente e presente que degrada o que sou perante todos quantos me amam, todos os que apesar de tudo ainda me amam e ainda amo. Não consigo mais ver-me a ser visto assim, perdido, fraco, insensível ao que se passa à minha volta, uma sombra do homem que fui, letárgico em face de todos os que tentam sem sucesso resgatar-me do fundo onde caí. Não aguento sentir que estou a causar tanta dor a tantos por causa da minha dor singular. Perdi as forças, a vontade, a energia, a esperança. Não vejo forma de voltar a ser o que já fui, ou sequer metade do que já fui. Sei que nunca encontrarei alguém que me faça esquecer os meus, os meus lindos amores, que perdi para sempre mas que me continuam dentro de mim, na minha pele, em todos os meus segundos, nas noites e nos dias, a lembrar-me ao adormecer e ao acordar do que tive, da felicidade alcançada e tão estupidamente perdida. Tenho plena consciência que não seria justo tentar curar-me arrastando outra pessoa, outros amores aritificialmente criados, na espiral de tristeza onde a vida me acometeu sem pedir licença, este estado catatónico, eternamente hibernado, do qual não tenho possibilidade de sair. Alguns de vocês saberão que tentei combater a depressão por essa via, com pessoas, mas também recorrendo a fármacos, a sessões de terapia, até a outras mais espíritas, retiros com seitas e xamãs, e exorcismos de várias denominações de fé. De nada serviu, tudo de nada serviu. Estou, por isso, a comunicar-vos fria e conscientemente que desisti de viver. Venho aqui em jeito de despedida e de agradecimento por tudo o que fizeram por mim sem vos poder pagar com nada. Quis escrever-vos para que não pensem ainda mais mal de mim, deste vosso devedor. Se vos peço algo é a vossa pena, ainda que não o vosso perdão.

Preferi fazer tudo em segredo até ao momento do meu auto-juízo final, ou da falta dele se quiserem. Este martírio é só meu, não é justo que a dor que sinto seja castigo de mais pessoas. Vim acabar-me, desculpem o termo, para Loch Shih. Achei apropriado porque foi aqui que conheci a Marie, quando há uns anos vim passar um mês a casa da Tia Aileen em Lairg. É um bom local para partir do Mundo, este canto remoto das Highlands. Não terei testemunhas do fim do meu caminho além dos rebanhos de ovelhas e das cabras montesas que me observam ao longe, curiosas do que um humano está a fazer em cima de um rochedo debruçado sobre o lago de águas negras. Parece que quero continuar a escrever porque sei que se parar me páro também. A vontade de partir é feita de inevitabilidade, não de real vontade, é um mal necessário para acabar com um mal maior, o meu. Sinto-me como se estivesse a vegetar numa cama de hospital, ligado a uma máquina que apenas me garante a manutenção dos sinais vitais, à espera que algum familiar tenha a piedade, a humanidade, de a desligar, de me desligar, dela, delas, máquina e vida, numa bem-vinda eutanásia, essa “boa morte” escrita pelos gregos antigos que nunca consegui praticar enquanto médico.

Uma palavra para os meus pais, meus queridos pais. Desculpem esta minha cobardia de vos fazer perder um filho durante a vossa vida. Sei na pele o que isso é, perdi o Sasha, e vocês perderam o filho de um filho. Vai ser dupla a vossa dor, sinto-a muito e sinto muito por vocês, mas acreditem por favor que estarei de alguma forma melhor assim, voltando a antes da minha origem, sem ser de novo alguém, do que a ser o nada que estava a ser para mim mesmo e para vocês. Li vezes sem conta nos vossos olhos o meu estado semi-vivo, essa quase morte na qual vivo. Sei quanto sofreram, sofrem, com isso. Ainda assim, sossega-me de alguma forma a consciência o saber que vocês são mais fortes que eu e que, por isso, conseguirão re-edificar-se nos braços das pessoas que amam e que vos rodeiam, os vossos outros filhos, os queridos netos, os amigos, tantos que vos irão suster na queda, os mesmos que o tentaram fazer comigo, ingloriamente. A falha não foi deles, muito menos vossa. Nem creio que tenha sido minha, não me culpo por nada, nem pela morte da minha vida, Marie e Sasha, nem pela minha morte durante a vida sem a vida que escolhi e construí com eles, meus adorados mulher e filho, que estão em paz na sua morada eterna.

Não vos vou mentir dizendo que abandono a vida pela sublime esperança de me ir encontrar com quem de mim partiu, algures num reino mágico pintado de cores garridas e abundante de beleza e felicidade. Não me engano dessa forma, há muito que perdi a espiritualidade. Sei que quando daqui a minutos me cortar do mundo será também o momento do adeus à memória do amor que me dourou a vida durante os melhores anos que tive. Vou perder as lágrimas mas também as alegrias vividas através das pessoas que acompanharam o meu percurso. Tudo se irá de mim, “ashes to ashes, dust to dust”. Um último pedido, se me permitem. É assim que quero o meu corpo, feito em cinzas. Espalhem-nas aqui por favor, onde me vão encontrar. Fui feliz neste ermo de vida, é aqui que quero morrer e ficar para sempre.

Desculpem-me, Adam

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