A senhora que não ria

Era uma vez uma senhora que tinha uma loja de brinquedos, daqueles vindos de um tempo em que tudo era feito à mão, um a um. A loja ficava numa rua muito movimentada de uma grande cidade, cheia de pessoas atarefadas que corriam de um lado para o outro. A senhora gostava de ficar na montra da sua loja a ver toda esta agitação. Costumava ficar parada horas a fio, não mexendo nada a não ser os olhos, que acompanhavam tudo o que acontecia lá fora. Parecia um daqueles militares de chapéu alto que guardam em modo “congelado” o palácio da Rainha de Inglaterra. Quem passava pela primeira vez ali e olhava a montra, pensava que ela era uma boneca de cera, um dos brinquedos da loja. Só quem entrava porta dentro, tocando os guizos que avisavam a senhora de novos clientes, é que chegava à conclusão que aquela boneca afinal falava, respirava e fazia tudo o que um ser humano faz. Bem, quase tudo, porque havia uma coisa que a senhora não fazia há mais de 40 anos, rir.

A vida passava, dia após dia, e nada mudava no rosto e na alma triste da senhora que não ria. Até que um certo sábado de Primavera trouxe uma andorinha inesperada, vinda do nada, como de pouco mais que nada era feita a vida daquela senhora que não ria. A senhora estava, como habitualmente, a olhar o infinito que terminava no prédio em frente da sua loja, alheia às pessoas que passeavam na rua. Parecia que todos eram invisíveis aos seus olhos apagados de brilho. Era como se a rua estivesse deserta e no horizonte da senhora nada existisse a não ser vazio e deserto. Foi então que ele chegou, timidamente primeiro, olhando em dedinhos de pés a montra recheada de brinquedos coloridos. Não devia ter mais de 6 anos, tinha o cabelo comprido, castanho claro como os seus olhos cor de avelã, o corpo franzino de quem não comia o que uma criança daquela idade deve comer, e a cara farruscada de negro, como se fosse um mini limpa chaminés acabado de sair do filme da vida de Mary Poppins. Foi isso que primeiro chamou a atenção da senhora que não ria. Todos os dias lhe passavam pela frente dezenas de crianças, fosse dentro ou fora da loja, e nunca nenhuma conseguia capturar-lhe a curiosidade, e muito menos o sorriso. Mas com este pivete foi diferente. Pela primeira vez em muito tempo, em mais tempo do que havia tempo na sua memória triste, e por uma razão inexplicável para ela, os seus olhos fixaram-se com interesse numa pessoa, ou em meia pessoa neste caso.

A senhora que não ria observava com curiosidade a criança que estava sozinha em frente à montra, a olhar cada brinquedo ao pormenor, avançando para o seguinte apenas depois de ter analisado cada detalhe do anteior. Todo ele era sorriso, na boca de lábios fininhos, nas maçãs do rosto rosadinhas do fresco que fazia naquele dia, nos olhos que cintilavam com uma luz pura de quem vê algo de novo e maravilhoso pela primeira vez. As suas mãos pequeninas esticavam-se na direção dos brinquedos, travadas apenas pela superfície fria do vidro, que ia ficando cheio de dedadas. Era como se ele não soubesse que as montras têm vidros, como se viesse de um espaço ou tempo onde isso não existisse. A senhora tinha um aviso num canto que dizia “Olhem com os olhos, não com as mãos”, porque detestava que lhe sujassem a montra, mas era tal a sua abstração naquele momento que nem reparara nos estragos que o rapazinho estava inconscientemente a fazer. Onde estariam os pais daquela criança, pensou ela para com os botões de madre-pérola do seu casaco de malha cor-de-rosa? A rua estava com bastantes movimento mas não havia sinais de alguém que estivesse a tomar conta do rapaz. Parecia um pequeno orfão de rua, daqueles que vive de esmolas e da caridade nem sempre abundante dos transeuntes. Ao pensar na solidão da criança alguma coisa aconteceu no peito da senhora que não ria, um aperto que desconhecia, ou que não se lembrava de alguma vez ter sentido. Depois de aguardar mais uns minutos, acostumando-se à sensação que a estava a deixar inquieta, a senhora decidiu impulsivamente fazer sinal para que a criança entrasse, apontando para a porta que mantinha fechada para afastar curiosos. E para sua surpresa, ele dirigiu-se de um pulo até lá e entrou na loja, e na vida da senhora que não ria, uma vida que há muitos anos se resumia àquela loja.

“Olá”, disse ele ao entrar no que lhe parecia ser o paraíso. “Entra, entra. Assim podes ver melhor os brinquedos. Gostas deles?”, respondeu a senhora que não ria de forma cordial mas não demasiadamente próxima. O miúdo nem respondeu, já estava noutro mundo, cabeça no ar a rodar em 360 graus para captar todos os brinquedos com o seu olhar de periscópio. A senhora percebeu isso e deixou-o percorrer a loja sem sair do lugar, um passo apenas para lá da porta dos guizos, as mãozinhas fechadas em concha sobre o peito e a boca bem aberta em sinal de espanto perante o que via, ou melhor, o que descobria neste maravilhoso mundo de brinquedos. Ao fim de uns minutos do mais absoluto silêncio, o menino fechou a boca para logo a abrir com uma pergunta que denunciou a sua inocência, “Estes brinquedos são todos seus?”. Ao ouvir esta pergunta feita com os olhos banhados de luz, a senhora que não ria sentiu um esboçar de algo na boca, um pequeno movimento, imperceptível para quem a olhasse, até porque não viu vida nos seus lábios, mas que mexeu com ela. Mas a reação que teve de ter para a criança não ficar à espera de resposta não lhe permitiu ficar a divagar internamente sobre a outra pergunta, a que em pensamento fez a si mesma, sobre o que teria sido aquilo que sentiu. “Bem, são meus e não são. Se calhar são meus até ao momento em que alguém os comprar e os levar consigo”, respondeu de forma direta. Como achou que a criança podia não ter percebido, reforçou, “Esta é uma loja, eu tenho aqui brinquedos à venda, que podem ser comprados como presente pelos pais de meninos como tu para dar no Natal, no aniversário ou numa data especial. Percebes?” Um breve acenar de cabeça e mais alguns momentos de silêncio e de voltas completas à loja num pasmo deliciado. “Como te chamas?”, perguntou a senhora depois de o deixar desfrutar da paisagem, sem a consciência que era a primeira vez em muito tempo que fazia uma pergunta direta e com um genuíno interesse na resposta. “Klaus”, disse o rapaz.

A senhora que não ria abriu o coração, da sua loja, para Klaus, deixando-o mexer em todos os brinquedos que queria, enquanto ela o observava com a atenção de uma voyeur fascinada por quadros vivos de inocência. Já tinha tido milhares de crianças na loja, a fazer o mesmo que o pequeno “limpa-chaminés”, mas havia algo na forma como este novo “cliente” olhava e tocava os brinquedos que a deixava curiosa e remniscente de memórias que tinha perdido ou voluntariamente adormecido. Embalada nesse sentimento que a deixava um pouco ansiosa e frágil, foi seguindo de brinquedo em brinquedo com Klaus, que se parou mais nos aviões de guerra de metal e nos soldadinhos de chumbo pintados à mão pela própria senhora, que não ria mas pintava. Para o deixar, e a si, mais à vontade, a senhora colocou na porta o letreiro de “Fechado”. Naquele dia queria apenas dar atenção a um cliente.

A certa altura, do nada, Klaus avançou, de mãos em riste, em direção a um armário de vidro que a senhora tinha no fundo da loja, para lá dos animais de peluche e dos brinquedos de contrução feitos de madeira. O armário fazia duas alturas do Klaus, e tinha no interior prateleiras de cima a baixo, nas quais a senhora tinha colocado brinquedos que não queria vender, alguns deles vindos da sua infância, outros de um passado que há muito tinha esquecido. Havia ali peças que a senhora não se lembrava de ter guardado, nem sabia de onde vinham ou porque eram importantes. Sabia apenas que tinha sido ela a pô-los nesse lugar, mas a sua memória tinha selectivamente apagado o elo que a ligava a muitos daqueles brinquedos, desde o boneco de trapos com olhos papudos ao carrinho de corridas ao qual faltava uma das rodas da frente e por isso estava meio tombado. Já tinha deixado de se questionar internamente sobre isso, depois de anos a ver dia após dia aqueles tesouros esquecidos. Nunca ninguém tinha olhado mais que dois segundos para aquelas prateleiras empoeiradas, talvez porque os brinquedos que lá estavam eram pálidos ao pé dos seus primos de além vidros, novos, reluzentes e sem estarem coçados pelo tempo perdido. Só olhos especiais os veriam, para todos os outros eram brinquedos invisíveis, indignos de um olhar ou ainda menos de uma ação como a que Klaus estava a tomar, de os procurar. Sem saber porquê, a senhora que não ria sentiu um calafrio a percorrer-lhe o peito durante o trajecto de 12 mini passos que levaram o pequenote do meio da loja até ao móvel.

A porta de vidro estava fechada sem ser no trinco mas a maçaneta que a abria ficava um palmo acima do braço esticado de Klaus. Sem pedir ajuda, o rapaz olhou em volta e encontrou um apoio, um volume grosso com a coleção das fábulas de La Fontaine que formava um degrau suficientemente alto para vencer a distância que o seu corpo ainda não alcançava. A senhora que não ria mas tudo via, assistia impávida e serena à aventura do miúdo, indiferente ao que os seus sapatos, tão encardidos como ele, iriam fazer à capa lustrosa do livro e, por consequência, à sua possibilidade de ser vendido. Mas isso não lhe importava naquele momento, o seu interesse estava totalmente focado nas mãos de Klaus, e não nos seus pés. A custo, e no limite da sua nova altura, artificialmente elevada pela literatura, lá conseguiu abrir a porta e alcançar os brinquedos. Um a um, foi-os tocando, em jeito de carícia, apertando alguns deles contra o seu peito de passarinho, sussurrando a outros palavras ininteligíveis para a senhora que não ria mas que começava a não espelhar no rosto a tristeza com que começara aquele dia, e os milhares de dias anteriores. Parecia que estava a reencontrar velhos amigos, perdidos de si ao longo dos anos de vida que ainda não tinha. A senhora que não ria foi-se aproximando dele, devagar mas sem ser sorrateiramente. Ia impelida pela curiosidade de escutar as palavras surdas de Klaus mas também por algo maior que isso, uma vontade, uma força inexorável que a levava até ao canto da loja, e da sua vida, um espaço de si que tinha feito por esquecer e arrumar mais fundo do que o local da loja onde estava.

Quando estava a menos de um passo de Klaus, a senhora que não ria viu que a criança tinha parado a sua viagem pelos brinquedos e estava agora fixo num cão de borracha, que retirara da prateleira ao nível dos seus olhos e segurava no colo como se de um ser vivo se tratasse. Talvez mesmo sem perceber que a senhora estava quase colada nas suas costas, disse, apontando ao mesmo tempo para a gata de pano que espreitava da prateleira mais alta do armário, “Porque é que o Oskar está longe da Maica?”. A senhora que não ria estremeceu ao ouvir a pergunta. Não se lembrava do nome desses bonecos mas sabia no seu íntimo, para lá da memória ou da razão, que estavam certos. Antes mesmo de se questionar, ou de o questionar, como sabia os nomes do Oskar e da Maica, Klaus voltou a falar. “Já lhe disse muitas vezes que não os quero afastados um do outro. A Maica tem frio à noite, o Oskar tem de a aquecer com o pelo fofinho dele”. Como já me disse muitas vezes se eu nunca vi esta criança, pensou a senhora que não ria e se começava a assustar? Mas sim, que tonta tinha sido estes anos todos, a Maica não podia estar longe do seu amigo, ela sabia disso, como se tinha desleixado a ponto de os separar. Estes pensamentos, que a assaltavam inconscientemente, vinham de fora dela, a senhora que não ria não sabia nada sobre aqueles bonecos, mas sabia tudo, sabia até que um dia a Maica tinha ficado no jardim a noite inteira e alguém tinha chorado por causa disso. Mas quem? Quando? Já não morava numa casa com jardim há tantos anos. Tinha vendido a casa da Landstrasse pouco antes de ter aberto a loja, por cima da qual ficava o apartamento onde agora vivia.

Não se lembrava porque tinha vendido a casa. Era bonita, com o seu jardim bordado de buxo alto e a fachada revestida a tijolos castanhos-avermelhados. Que pena ter saído de lá, era tão sossegado o bairro, e na mesma rua viviam amigos, pessoas próximas das quais se recordava com carinho. Tinha uma vaga imagem de a abraçarem num dia frio, no meio da neve. Sentia saudades daquela casa mas sempre que pensava nela tinha uma sensação estranha, de tristeza profunda, como se algo que se tivesse passado nela, ou por causa dela, a magoasse, ainda que não se lembrasse minimamente do que era. Mas tinha a certeza do episódio da Maica no jardim, e da crise de choro da manhã seguinte. Teria sido ele que chorava ao aperceber-se que a sua gata tinha dormido fora de casa. Ele? Quem era ele? A senhora recordava-se de viver sozinha naquela casa, ou vivia lá mais alguém? Sim, alguém estava no quarto do segundo andar, ao lado do seu. Quem? Tudo estava em convulsão na sua cabeça, sentia-se numa espiral de dúvidas e certezas, onde tudo se fundia e confundia. E no meio desse nevoeiro, escutava a voz de Klaus, que chamava pela mãe. Mas como, se a criança estava calada agora? O que lhe estava a acontecer? Mas não, o choro da tal manhã não era de ninguém, era dela, tinha a certeza disso agora. E que dor sentia, porque lhe aconteceu isso a ela, a ele? Que desespero não se saber, não entender o caos e a confusão onde tinha caído. Perturbada pela memória que desconhecia ter, e que ainda não conseguia ver com claridade no túnel de onde vinha na direção da sua consciência, perdeu a força nas pernas e deixou-se cair de novo, desta vez fisicamente, no chão frio da loja. Por sorte os peluches ampararam-lhe a queda. Klaus aproximou-se de um pulo, com uma desenvoltura e maturidade de homem adulto. “Está bem? Magoou-se? Encoste a cabeça neste boneco. Quer um copo de água?” A voz que a senhora que não ria ouviu da boca da criança era grave, diferente da que ouvira antes. Dir-se-ia a mesma voz mas envelhecida pelos anos, como se um homem crescido tivesse entrado no corpo franzino do rapaz que gostava de brinquedos. Não, que absurdo, devia estar ainda mais baralhada por causa da queda, era isso seguramente.

“Estou bem, obrigada”, disse ao recompôr-se, mentalmente e também na postura, ainda que se mantivesse sentada no chão. Foi de um repente que os viu, apesar de já os ter olhado do lado de lá da montra, antes de Klaus ter entrado na loja com aqueles mesmos olhos que agora descobria. A senhora que não ria entrou, por sua vez, dentro deles, venceu a íris e a pupila e continuou, mais fundo, até à alma que vive por detrás da superfície do olho. Então, algures nessa viagem pelas profundezas da criança que de novo lhe aparecera na vida pela primeira vez, reconheceu-o. Ele estava lá, dentro deste rapaz, perdido ou encontrado, não sabia, mas reconhecia-o, nunca se poderia esquecer daquele olhar que se tinha apagado da sua memória há 40 anos atrás. O reflexo do que encontrou entrou pelos seus olhos numa torrente de vida que a banhou de esperança e inquietação. Quem era Klaus? E quem guardava ele dentro de si que lhe era tão estranhamente familiar e ao mesmo tempo tão desconhecido? Foi assaltada por flashes vindos de longe, pequenos filmes a preto e branco entrecortados por imagens fixas e desfocadas onde se via feliz. Eram cenas que iam e vinham aos seus olhos e à sua mente, momentos alegres, risos, música de um carroucel, uma missa, vozes de pessoas, de crianças, muitas crianças, e depois de uma só.

Marcus, chegou-lhe de um repente o nome, o seu nome. Era ele que vivia em Klaus, real ou sensorial, não sabia, não lhe importava, mas ele estava lá, e procurava-a. A senhora que não ria sabia tudo dele, esquecera-se da forma como ele sorria de dentro de casa quando ela abria o portão rangente do jardim vinda do trabalho, dos gritos de dor quando lhe nasceram os primeiros dentes, do seu ar angelical ao adormecer debaixo das grossas mantas de felpo, de tudo o que ela se esquecera se lembrava, de tudo o que se lembrava se esquecera. Entre os tremores e suores que sentia, foi revendo o que a memória lhe devolvia a conta gotas. Sentiu Marcus a nascer, saído de si, e sem lhe custar atravessou de novo a dor asfixiante de dar vida. Era mãe, sabia-o agora. E Marcus era seu, o seu filho. Como se poderia ter esquecido disso, de ter frutificado uma vida dentro de si? Que castigo era este de perder a melhor de todas as memórias? Não o entendia. Esquecera-se de um filho, seria doente a sua mente? Mas se se lembrava de tudo, do preço de cada brinquedo, da cara de cada cliente que alguma vez tinha franqueado a porta de guizos, como poderia ter deixado apagar-se de si um filho? Um filho que sabia amar sem o ter alguma vez sentido senão naquele momento. Que dor estava a sentir.

Klaus continuava de pé diante si, ao nível dos seus olhos por estar ainda sentada no local onde a comoção a tinha prostrado. Olhava-o à transparência mas pôde lê-lo assustado com o que via. Pôs-se no seu pé e imaginou por instantes o que estaria a sentir ao ver uma velhota no estado semi catatónico em que ela própria sabia encontrar-se. Ao vê-lo assim, tão próximo, reviu tantos outros momentos em que aqueles mesmos olhos a procuraram em busca de conforto, ajuda, força, pão, proteção. Recordou os dias que viveram os dois naquela casa feliz, estavam tão presentes agora, como se os tivesse vivido naquele mesmo dia e não dezenas de anos atrás. Viu nos seus olhos outros, de Marcus, e os mesmos, nessa dualidade de seres que estava a perturbar a sua noção anteriormente tão definida de realidade e dos contínuos e descontínuos temporais. Viu-os cheios de vida e também com ausência dela. Foi então que a senhora que não ria chorou. Sim, tinha sido naquela noite de Inverno que tudo acontecera, o episódio mais negro da sua vida aparecera com a renovada claridade da memória. Nevava intensamente, flocos gordos caíam do céu escuro para formar nuvens de algodão branco em tudo o que tocavam. Marcus tinha estado a brincar no jardim com Maica e Oskar antes do jantar, para o qual ela tinha preparado um saboroso e retemperador Eintopf, o seu prato favorito. Como era vívida agora a recordação da senhora que não ria. Maica ficou esquecida fora de casa, a sua pele de pano exposta ao frio gelado de Janeiro. A senhora só iria saber desse esquecimento mais tarde, na fatídica manhã seguinte, quando perdeu o sorriso para sempre.

Não sabia quanto tempo se passara desde que começara a recordar-se do passado, mas Klaus continuava ali, de olhos doces vidrados nos seus, o que instantaneamente lhe apagou as lágrimas e lhe devolveu uma suave paz de espírito que não conhecia há muito tempo. Queria continuar o processo de se lembrar do que se esquecera, por muito que soubesse já que lhe ia doer o regresso do seu distante e esquecido passado. E foi pior do que pensava, muito pior. Era Marcus, e não Klaus, que estava agora nos seus olhos. Os olhos que via estavam abertos, mas sem vida, deitados ao lado de Maica por entre os flocos de neve. Como podia estar ele ali de manhã, nuns lençóis gelados, depois de o ter deitado com amor como fazia todas as noites há seis anos? Teria ido de mansinho à noite procurar a sua amiga? Não!! Não!! Porquê? Como não o ouvira a descer a escadas de madeira em direção à porta da rua? Que espécie de mãe era? A sua mente em total descontrolo percorreu dias, meses, anos, visitando o antes de Marcus lhe chegar, a vida que partilharam, e a morte que durante 40 anos a marcou sem saber. Inconsolável, viajou pelos dias que se seguiram à perda do seu filho, tentando entender o que tinha levado ao desaparecimento de Marcus da sua mente. Não encontrou resposta que não a possibilidade de ter sido uma reação interna ao choque da morte, uma forma de ela conseguir continuar a viver consigo mesma e com a vida fora de si. Por muito triste que tivesse sido a vida sem sorriso da senhora que não ria, o facto era que ela tinha chegado até ali, até ao momento onde estava a ser resgatada do limbo onde vegetava por uma criança.

Ao sentir na pele pela segunda vez a sua própria morte, vivida através da recordação dilacerante da partida de Marcus, a senhora que não ria encontrou força para se agarrar à vida que tinha à sua frente, na mão de Klaus, forçando-se a deixar a visão do seu filho deitado, inerte, na cama de neve onde perecera. Conseguiu sair do transe no qual se tinha deixado cair conscientemente para poder recuperar da tragédia que a assolara em silêncio durante todos aqueles anos. Voltou à superfície, de mãos apoiadas nos braços magrinhos do rapaz, e sentiu que respirava um ar diferente do de antes, mais puro. Estava toda ela mais leve, como se a catarse da consciência recuperada tivesse limpo mais do que apenas os fantasmas que se escondiam nas profundezas da sua memória. Teria chorado assim tanto naquele curto espaço de tempo? Quanto tempo tinha sido esse espaço de tempo, na verdade? A sua regressão tinha durado mais dentro de si do que na medida de tempo do mundo exterior, podia ser essa a explicação. Vazia da dor que desconhecia e por outro lado consciente da dor pela qual tinha passado mas que agora sentia estar no lugar de tranquilidade onde poderia conviver e conversar com ela mesma, a senhora que não ria descansou. De olhos abertos para Klaus, conseguiu vislumbrar futuro diante si, na expressão meiga daquela criança. Ele pareceu sentir algo também, vindo de si mesmo ou do espírito de Marcus que inexplicavelmente vagueava perdido na sua alma. Nunca se saberá qual dos dois elevou a cabeça para beijar carinhosamente a senhora que não ria na testa. Pouco importa qual foi, um, o outro, os dois. Quem quer que tenha sido fez a senhora que não ria sorrir.

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