Mudo

Vou até ti sem palavras a armar-me

São escritas de ecos estas linhas

Tudo é parco perante a tua beleza

Mais vale calar-me e deixar que brilhes

Fico assim, quieto, a olhar-te, apenas

No silêncio do delírio que me causas

Vidrado, colado, entregue nesse tudo teu

Tens-me em cada suspiro, nos sussuros

Ainda que não saiba falar-te, sou-te

Falta-me a voz, a prosa, a trova

Até as tenho, talvez, algures em mim

Mas é fogo preso este meu som seco

Não se solta senão dentro, apocalíptico

Como se fosse todo eu uma corrente catártica de ti

Que sinto e vivo sem a luz dos teus olhos

Estás nesse sentir que escondo, é certo

E acredita que é cheio de imagens e verbos

Lá, onde te cuido e guardo, és uma epopeia

Volumes sem fim de letras, vozes, gritos

Sem a vergonha de me saberes sou tanto, és tanto

Quem dera ter a coragem de nos soltar

De te fazer chegar estas minhas veias

Os canais viçosos onde corres livre

Fluída desses imensos dias em que me és

Quem sabe se esse hoje virá no amanhã

Se alguma hora me vais ver alvorar

Temo em dor contida o incerto da tua leitura

Será que me vais percorrer todo, canto a canto?

Como te irei entrar? Em ruído? Ou sereno?

A dúvida fecha-me a boca, a alma até

Recolhe-me, atira-me para um longe de tudo

Luto uma batalha por ti neste peito em carne viva

Quero manter-te sã até me vencer a mim mesmo

Sempre pura, à espera que me conquiste

Que saiba sair do porto seguro e navegar com o teu rumo

Matando o conforto podre de seguir mudo

Essa meia morte de não vida fácil e triste que tenho sem ti

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