Imaginary love letter #3

Teresa,

A vida é feita de somas e subtrações, de pessoas, momentos e experiências que nos acrescentam ou que nos diminuem, fazendo com que a nossa existência se vá construindo e determinando. Raras vezes encontramos alguém que só nos some, que seja uma influência e uma presença de tal maneira positiva que gere algo em nós, criando vida dentro da nossa vida. Tu és uma dessas pessoas para mim. Entraste no meu caminho sem avisar e foste-te radiculando como uma raiz que penetra na terra seca em profundidade, procurando a água que vai nutrir o seu resto. Tu alimentas-me de ti, de tudo o que me fazes sentir, da beleza e pureza que tens, dessa maneira de ser tão tua, da tua arte e criatividade, do empenho com que lutas pelos teus sonhos e pelos dos outros, do quanto gostas de mim, que me faz sentir tão melhor do que sou e melhor do que alguma vez me senti. Não quero sequer fazer a contabilidade de nós, afinal as relações não se medem em números. Mas se a fizesse veria o quanto devedor te sou, o quanto já me deste de ti, e isso faz com que me tenhas conquistado para sempre, que é como eu espero ficar na tua vida, para sempre, sem tempo nem idade, envelhecendo a cada dia nos teus braços.
Às vezes penso no que seria a minha vida sem te ter nela. Não gosto do que vejo. És tanta luz em mim que não quero sentir as trevas de não te ter, de ter de viver num ermo vazio de tudo quanto aprendi a ter através de ti. Se nos deixassemos de ter perderia mais do que quero perder enquanto for vivo. Sei que aquela frase feita de “a vida continua” é verdadeira. Sim, ela continua mesmo quando perdemos algo ou alguém, já ambos passámos por isso tantas vezes. A morte faz parte da existência, e a nossa vida continua mesmo depois da partida de quem amamos ou queremos bem, ainda que seja sem perda de vida. Mas apesar de a vida sem nós os dois poder continuar, eu sei que a vida connosco é um caminho melhor, mais feliz, mais cheio, mais interessante e estimulante. Eu quero-te na minha estrada, quero que me guies pelos caminhos que desconheço, preciso que me dês o ânimo para continuar em frente, para vencer as subidas mais íngremes, mantendo-me vivo ao longo da viagem com a tua alegria e beleza, para que o meu trajeto de vida não seja monótono e adormecido. E eu serei o espelho disso em ti, far-te-ei companhia nos teus dias mais escuros, nos desafios que te inspiram, nas metas que queres alcançar, na presença humana, amiga e um pouco louca de que precisas para seres tudo o que és, para chegares aonde nem mesmo tu sabes poder chegar.
Eu quero ser esse teu outro tu, a parte invisível desse todo imenso que és. Serei sempre ínfimo em ti por muito grande que seja, por seres maior que eu e porque não quero ser mais do que devo, mais do que queres ou precisas que eu seja para ti. É preciso saber “ser” na medida certa, estar nos momentos devidos, com o peso e a presença necessária, sem absorver demais, nem tão pouco assoberbar o outro connosco. A vida a dois para ser saudável precisa de respirar, de ar e liberdade para estarmos um com o outro na proporção do que queremos, permitindo que não percamos a nossa identidade. É uma linha ténue, eu sei, e não te garanto que a saberei gerir sempre da forma mais adequada. Tudo isto de “nós” é uma curva permanente de aprendizagem que provavelmente não chegará nunca à planície, ou melhor, ao planalto. E talvez seja assim o normal, que seja uma curva com uma distribuição pouco normalizada, que não obedeça a padrões de sino ou a regras demasiadamente escritas na pedra. Até porque de normais temos pouco, não é?
Sempre achei saudável a nossa loucura, talvez mais alimentada por ti que por mim até. Tu fazes-me sair da caixa, ser fora do baralho mais do que era antes de me teres tomado conta do tempo e da vida naquele acampamento no sopé do Gerês onde demos os nossos primeiros passos. Contigo sou tantas coisas que não era, ou que não sabia ser. Tens uma capacidade insondável de alterares o meu estado de espírito, de me avivares o humor, de me arrancares sorrisos e gargalhadas, de avivares o que estava adormecido antes da tua chegada. Por essas e outras tantas razões me fizeste teu, pleno de sentimento e calor, entregue desde a primeira hora aos teus olhos verdes, os dois reluzentes oásis do teu rosto que me fascinam desde a primeira hora em que os tive nos meus. E aqui estou, passados estes tempos infinitos que já vivemos, fresco no meu amor por ti, desejoso de o continuar a cultivar dia após dia, em comunhão contigo, de braços e peitos e almas dados a nós. Esta carta não serve outro propósito que não o de te deixar um testemunho, mais um, do quanto te quero hoje e em todos os amanhãs que vejo diante mim. Sabe que me fazes imensamente feliz em todos os meus segundos e por isso és e serás sempre a minha senhora, a minha mulher, toda a minha vida.

O teu,

Francisco

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s