“A gente só leva da vida a vida que a gente leva”

A noite chegara com aquela nota de humidade indelével que Deus colocou no Rio de Janeiro quando pintou de verde, amarelo e azul a tela paradisíaca que é esta cidade, a verdadeira capital do Brasil. Eu estava em Copacabana, numa daquelas coberturas debruçadas sobre o oceano que me lembrava de ver nas novelas das 8 em Portugal. Apesar de o dia já ter terminado, o lençol de água ainda estava visível devido às luzes da cidade, que não queriam adormecer pois antecipavam os fogos de final do ano. O relógio estava em contagem decrescente, faltavam apenas algumas dezenas de minutos para que a massa humana, que naquele ano se estimava em mais de 2 milhões de pessoas, começasse a saltar como se não houvesse amanhã em celebração do ano que entrava.

Era a minha primeira visita ao Rio nesta altura do ano em que a cidade passa a ser de Dezembro a ser duplamente de Janeiro. Apesar de ser virgem em visitas no reveillón, já tinha vindo muitas vezes a esta cidade fundada por um antepassado meu, Estácio de Sá, e que por isso também considerava minha, entranhada que estava no sangue do meu sangue há quase 500 anos. Muita água tinha passado já na baía de Guanabara desde os tempos do povoado de São Sebastião do Rio de Janeiro, mas o génesis ainda estava lá presente, nas montanhas coberta de vegetação e pedra cinzenta que se precipitavam até à água. A cidade maravilhosa era-o desde o início dos tempos, antes mesmo de o tempo ser tempo, e nem a poluição visual das favelas que via da varanda, Rocinha, Vidigal e Pavãozinho, apagava essa beleza. Na verdade, quando o sol caía, as favelas viravam um postal ilustrado, deixando de se ver os materiais de construção à vista nas barracas inacabadas e aparecendo antes gigantescas árvores de Natal com uma miríade de luzinhas de todas as cores. Até na sua decadência o Rio é bonito, pensei com os meus botões, que nesse dia fechavam a meio comprimento uma camisa de linho branco que comprara num mercado de rua para ir honrar Iemanjá nas ondas da praia pela noite dentro com dress code adequado.

Tinha chegado a altura de descer dali para a confusão. “Em Roma como os Romanos”, pensei. Não era a minha “praia” estar numa praia com tanta gente mas fazia parte da experiência de viver o Rio e naquela noite decidi ir à aventura por entre o mar branco formado pelos cariocas que esperavam a chegada do ano seguinte. Convicto desse propósito, desci ao térreo e coloquei o meu pézinho fora da zona ajardinada de proteção do condomínio, passando para lá dos altos portões de ferro que defendiam os “marajás” do edifício “Vallée de la Loire” das suas paranóias de raptos de gangs organizados e assaltos de meninos de rua. O prédio nada tinha a ver com o célebre vale Francês, mas existe no Brasil uma estranha tradição de dar nomes francófonos aos edifícios “bacanas”, como era o caso deste onde me alojara em casa de um amigo português de longa data, o Bernardo, playboizeco de Cascais que se casara com a filha de um importante empresário brasileiro do sector da soja, daqueles com mais terra que Portugal inteiro.

O “calçadinho”, do lado oposto ao mar, as faixas de asfalto e o famoso calçadão, estavam forrados de pessoas, sendo mesmo difícil atravessá-los para atingir a areia. Já tinha estado em selvas virgens menos impenetráveis que aquela imensidão de gente da floresta branca do Rio de Janeiro. Mas a minha vontade de chegar à areia era mais forte, e motivado por isso lá fui, ziguezagueando por entre os corpos dos foliões que já estavam na sua maioria acelerados à conta da cerveja. O excesso de álcool era um duplo problema nestas noites de loucura no Rio. O mais óbvio dos dois eram os distúrbios, “brigas”, e múltiplos ferimentos que os embriagados causavam, se envolviam e sofriam, inundando os hospitais da cidade. O segundo problema era de ordem líquida… imaginem 2 milhões de pessoas a beber sem parar… sim, isso mesmo, “what goes in, must come out”… a prefeitura colocara centenas, senão milhares, de casas de banho portáteis mas nem isso nem as multas que a polícia prometia impediam que as ruas fedessem a urina no fim dos festejos. Era talvez o lado mais negro, ou amarelo, das festas. Nesse dia tinha lido que no Carnaval, uns meses mais tarde, um inventor iria apresentar um carro movido a urina dos cariocas. Só no Brasil…

Chegado ao extenso areal apressei-me, tanto quanto possível, a avançar para o mar. Iemanjá esperava-me e levava na mão um saco cheio de flores para lhe oferecer. Foi uma aventura avançar pela areia, cheia de pessoas e de lixo por elas deixado. Os ânimos já estavam quentes e de tudo se via, desde famílias e grupos de amigos sentados no chão com um autêntico restaurante montado, a casais de namorados que se devoravam como se o mundo fosse acabar passado uns minutos, a grupos de jovens que dançavam num transe semi-consciente, dir-se-ia alucinados por um daqueles chás amazónicos da moda, até aos inevitáveis trombadinhas à espera de uma oportunidade para fazer daquela uma noite especial também, mas por via do furto.

Ao bom jeito brasileiro, tudo se vendia naquela praia. Pastéis, água de côco, as óbvias cervejas estupidamente geladas, flores, um sem número de adereços e enfeites para o corpo e cabelo, máquinas fotográficas descartáveis e preservativos para os que queriam celebrar a passagem do ano de forma mais carnal. Tudo se preparava para o grande momento da noite, os famosos fogos de artifício que em alguns momentos pintariam o céu do Rio de um mar de estrelas cadentes e efeitos luminosos nunca antes vistos. Naquela noite, as balsas colocadas ao largo da praia iriam soltar mais de 20 toneladas de fogos num verdadeiro banquete para os olhos dos milhões de espectadores do Rio e dos mais de um bilião de pessoas que por esse mundo fora iriam ver as imagens das televisões. Era um dos mais impressionantes espectáculos do planeta, uma simbiose entre a maravilha da Natureza e a criatividade, sentido estético e engenho do Homem. Toda a minha vida, ou pelo menos desde que me lembro de ter vida, esperei por esse momento. Hoje chegara o dia de realizar um dos meus sonhos mais antigos.

Serpenteando pela multidão, cheguei à areia molhada, deliciosamente refrescante naquela noite de todos os calores. Os meus pés, já despidos das havaianas brancas que comprara umas horas antes num camelô de rua por mais reais do que o preço justo, enterraram-se naquele bálsamo e relaxaram por uns momentos. Estava ainda pouca gente, relativamente, junto à água, e por isso aquele era o melhor local da praia por enquanto. Seguramente que dentro de menos de duas dezenas de minutos, altura em que o ano ia deixar de ser para ser de novo, tudo mudaria, e a multidão iria assomar-se ao mar, como se fosse um tsunami humano vindo de terra. Tinha chegado em boa hora para conseguir um lugar na linha da frente da apoteose anunciada. Foi então que uma luz na noite me parou, e para mim o fogo de artifício começou antes de para todos os demais.

Vi-a primeiro de relance, um cabelo volumoso que se virou e me ventou, apesar de estarmos a mais passos de distância do que a lógica permitiria que fios finos de cabelo criassem uma brisa tal que chegasse ao rosto de outra pessoa. Mas o facto é que a senti, a brisa e ela. Nem lhe percebi o rosto naquele primeiro olhar, e por isso fui à sua procura, rodando-me, e rodando-a, para apanhar o ângulo que o permitisse. Ela estava com duas outras pessoas, pareciam amigos porque se riam, divertidos, cúmplices mesmo. Finalmente consegui ver-lhe a cara, um tesouro que busquei por uns segundos apenas, mas com o mesmo ímpeto com que outros procuraram o Santo Graal por vidas. O prazer da descoberta fora o mesmo, apesar de eu ter atingido o que esses aventureiros de outrora não conseguiram. Sorri ao verificar a verdade do que tinha desejado naqueles poucos instantes de imaginação, antes de ver como ela seria. Tinha-a pensado linda, o que se desconfirmou positivamente, porque na verdade a realidade mostrou-me que ela era muito mais encantadora do que a tinha desenhado na minha mente delirantemente criativa. Toda a beleza do Rio se eclipsou perante a dela. Se esta era a cidade maravilhosa para o mundo inteiro, naquela noite, para mim, era-o ainda mais.

Desde pequeno que gostara de brincar ao jogo de adivinhar a vida de desconhecidos que via à minha volta. Imaginava de onde eram, o que faziam, porque estavam ali. Procurava pistas na forma como se vestiam e falavam, nos olhares que trocavam com a pessoa ou as pessoas com quem estavam, em pequenos detalhes que me permitiam tirar ilações e fazer conjeturas. Tinha ficado viciado nisso com a leitura ávida dos romances de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, que tinham criado em mim uma veia de detective, na altura de palmo e meio. Por vezes abordava os alvos desse jogo para validar o que tinha imaginado. As pessoas reagiam normalmente bem, porque achavam piada à minha falta de vergonha na cara. Nunca tinha feito o jogo com alguém que me dissesse algo, como era o caso naquela noite em Copacabana, mas porque não?

Ela não estava com nenhum daqueles dois homens, era essa a minha premissa de arranque. Wishful thinking talvez, mas não ia estragar a minha fantasia com uma possibilidade para a qual não tinha naquele momento poder de encaixe. Eram amigos, os três. Como percebi num deles um olhar na minha direção que espelhava de certa maneira a mensagem que eu próprio estava a enviar para ela, fiquei com a clara sensação de que um deles era gay, provavelmente os dois seriam “veados”, como popularmente se diz no Brasil devido ao facto de esses animais por vezes viverem em casais de machos. Talvez fossem BFFs dela, aquele tipo de amigos-mulher que tantas mulheres de cabeça aberta têm e sem os quais não vivem. Conhecia inúmeros desses casos no meu grupo de amigos pelo que me foi fácil escrever internamente essa parte da fantasia. Não percebi a voz deles, o ruído constante da praia não o permitia, portanto mais uma vez recorri a pistas para decidir de onde eram. Pela forma como gesticulavam e falavam, ainda que em surdina para mim, achei que fossem brasileiros mas talvez não do Rio. Deixei-a para o fim, porque me queria concentrar no seu perfil para o desenhar da forma mais fiel possível. Primeiro eles.

Lucas, tinha cara de Lucas ou de Lucca, o mais alto dos dois, moreno de tez e cabelo, era arquitecto em São Paulo. Diria que tinha 33 anos, mais ano menos ano, e era um esteta em tudo o que fazia. Mesmo num estilo “desencanado” percebia-se o seu bom gosto pelas bermudas brancas de bom corte, a camisa de linho com gola à Mao e as pulseiras de couro e corda azul turquesa no pulso esquerdo. Parecia ser o mais feminino do casal, sim porque me parecia que a sua cumplicidade com Rodrigo, o outro homem do trio, era mais que apenas fruto de uma amizade.

O seu “companheiro” era mais difícil de definir, até em termos da sua sexualidade. Mais distante e sério, apesar de sorrir com os seus amigos, Rodrigo era um ponto de interrogação até para mim, que tinha algum traquejo neste jogo de imaginar as vidas das pessoas. Só percebi que devia estar com Lucas porque a certa altura este lhe passou a mão delicadamente pelas costas abaixo, recebendo por isso um olhar de uma certa reprovação de Rodrigo. Dir-se-ia que o mais velho do casal, estava seguramente próximo dos 50 anos, ou não assumia a relação com Lucas ou não se assumia ponto final. Seria uma figura pública? Ou alguém que levava uma vida dupla e por isso não queria ter demonstrações de afecto numa praia cheia de gente, mesmo num anonimato que a populaça lhe garantia? Não percebi. Mas era mais formal e masculino, não parecia gay nem no olhar, que a certa altura se cruzou com o meu e me chegou com uma frieza glaciar própria de alguém que era muito mais do que mostrava. Decididamente aquele não era o seu ambiente. A roupa que usava dizia-o sem palavras. Era das poucas pessoas da praia, e estava lá um número incalculável de gente, que estavam com sapatos e calças, algo muito pouco prático em função do clima e do piso. Parecia ter ali aterrado sem querer, vindo de uma das festas mais chiques dos hotéis e restaurantes de luxo da marginal. Sem conseguir penetrar mais naquele ser esquivo, passei para o verdadeiro objecto do meu interesse, ela, Carolina.

Baptizei-a com o nome que mais gostava, talvez porque não me lembrava de uma mulher me quebrar assim tanto à primeira vista como ela. Por isso mereceu desde logo o melhor dos nomes, aquele que queria chamar à minha filha, se um dia a tivesse. Seria então a minha Carolina, ou melhor, Carol, porque no Brasil sempre abreviam os nomes próprios, Lu para Luciana, Jan para Janine, Gaby para Gabriela. Carol era Carioca, não tinha dúvida disso agora, depois de a observar mais demoradamente e de ver o seu jeito de praia, a alegria nos olhos e o “ginga” que esta cidade imprime, feito tatuagem, a todos que nela nascem e crescem. Carol era para mim o espelho da Garota de Ipanema, ainda que estivessemos na “rival” Copacabana.

Aquela coisa mais linda, mais cheia de graça, estava a tomar conta de toda a minha atenção, de toda a minha vontade. Era realmente enebriante, mais do que o álcool que já tomara conta da cabeça de muitos dos nossos vizinhos naquela praia. Era uma mulher de uma enorme beleza, mas não era isso que me prendia, pelo menos não era só isso. Não digo que fosse a sua personalidade, não a conhecia (ainda) a ponto de me poder encantar por qualquer traço da sua essência feminina. Ainda estava profundamente preso no campo do físico. Mas o que mais me fascinava era a expressividade de que era feita, e que nela se tornava evidente em cada gesto, na forma como a sua cabeça acompanhava cada sentimento, como o seu rosto se metamorfava ao falar e escutar o que lhe diziam. As mãos falavam também, como se ela fosse Milanesa ou Romana, acentuando e enfatizando todas as palavras. E a voz, da qual percebia apenas o tom e não o significado, era perfeitamente coerente com tudo o resto, enérgica, vibrante, confiante e alegre. Se alguma mulher era o meu número à primeira vista, antes de a conhecer, era ela.

Lembro-me de ver um filme em que uma família comprara um zoo falido. O protagonista a certa altura dizia ao seu filho, em jeito de lição de vida, “You know, sometimes all you need is twenty seconds of insane courage. Just literally twenty seconds of just embarrassing bravery. And I promise you, something great will come of it.” Cheio do bravado que impelia os cavaleiros andantes a salvar belas donzelas de dragões cuspidores de fogo, avancei para ela, que naquele momento era um horizonte mais infinito que a linha de mar que decorava o cenário. Em poucos passos venci a distância que nos afastava e podia agora escutar as palavras que diziam. Eram ininteligíveis apesar de serem faladas na minha língua. Estava de tal maneira vidrado nela que todas as palavras se metamorfoseavam em ecos e sons metálicos, sem que as compreendesse apesar de entrarem de alguma forma em mim. Devo ter balbuciado algo ao chegar perto dela, porque sem o antecipar vi o seu corpo virar-se em câmera lenta na minha direção, ao ritmo da bossa nova que um artista improvisado tocava no violão poucos passos ao nosso lado. Foi mais um início de tudo.

O sorriso que me ofereceu naquele primeiro instante foi puro, inocente, de uma menina-mulher que parecia estar a ser abordada pela primeira vez por um homem que a desejava com o olhar. Como podia ser que aquela mulher, avassaladoramente bonita, me olhasse dessa forma, como seu eu fosse a última coca-cola do deserto, ou neste caso do areal? Será que era este o tratamento que dava aos seus pretendentes, seguramente tantos quantos dias tem o ano? Uma beleza rara como ela numa cidade tão sexualmente desempoeirada como o Rio de Janeiro teria de saber lidar com avanços de todo o tipo de homens. Seriam brindados com a mesma recepção de luz e encantamento que eu? Controlando um ciúminho infantil, disse-lhe, cuidando para integrar os seus dois amigos, “Estava a olhar para vocês os três e pensei em tornar-nos pares, juntando a minha imparidade à vossa. Posso?”. Ela sorriu mais do que eu esperava e contagiou os amigos, até o mais sério dos dois, que se abriram também em par para mim. Acto contínuo ofereci-lhe as flores que tinha trazido para Iemanjá. A deusa da praia era ela, pareceu-me justa a troca. Mais um sorriso, desta vez seguido de um tímido olhar para baixo, na direção das flores brancas que agarrava como se fosse um bouquet e ela a mais feliz noiva de sempre. Rendido, mais ainda, senti-me a entrar num espaço de conforto do qual não queria mais sair.

As minhas conjeturas estavam erradas, como seria de esperar, ainda que tivesse acertado em alguns pontos do meu jogo de personagens. Os dois homens, Roberto e Carlos, estavam realmente juntos, eram namorados há 3 anos e tinham-se conhecido num dia de praia em Ipanema, no posto 9, o mais badalado da cidade. Contaram como foi rápida a conquista depois de saberem que se chamavam e terem feito as óbvias piadas sobre o cantor que unia os seus dois nomes. Carlos, o mais novo dos dois, era jornalista no universo Globo, e o seu namorado geria um negócio de família na área do mobiliário. Viviam numa rua próxima, na divisa com Ipanema, e tinham-se encontrado a meio caminho com ela, Fernanda ou Fe, que morava do outro lado de Copacabana, no Leme, com a avó, uma quatrocentona que a criara depois da morte dos pais num acidente de viação quando iam para a fazenda da família nas serras vizinhas de Teresópolis. Tudo isso fiquei a saber ao longo da noite dentro, nas horas infinitas que se seguiram ao nosso primeiro beijo, decorado pelos fogos apocalípticos que trouxeram uma vez mais o início do ano, e dos tempos, à cidade do Rio de Janeiro, a mais maravilhosa da colonização Portuguesa nas sete partidas do Mundo, e também a mais poética de toda a sua toponímia.

A chegada ao seio dos meus três novos amigos ocorreu cronologicamente apenas uns minutos antes do ano novo, depois de atravessar o extenso deserto de 20 metros que me separava deles, e dela especialmente. A conversa de quebra-gelo que tivemos foi descontraída e solta, regada por cerveja bebida da garrafa e as perguntas da praxe sobre de onde era, o que fazia ali, o que achava do Rio. A tudo respondi com aquela sensação de não estar a ser eu, de achar que a minha voz e a minha expressão denunciavam, até para um surdo e cego, o calafrio que ela me dava cada vez que me olhava com o seu sorriso juvenil. Tentei controlar o artificialismo das minhas reações mas sentia que já não era dono delas, que algo mais forte que a minha vontade se tinha apoderado de mim, por dentro, até à raíz. Há muito tempo, há mais tempo que tempo havia em mim, que não sentia tal sensação de perder o sentido sem perder os sentidos. A ela o devia.

Ao aproximar-se a meia noite uma onda de comoção começou a crescer na multidão de forma contagiante e capilar, varrendo de uma assentada tudo o que não pertencia ali, àquele momento. A atenção dos foliões estava agora nos relógios e nos telemóveis, que se começaram a erguer para gravar a apoteose que todos sabiam ir chegar a qualquer instante. Os meus olhos não estavam no mar, nem no céu que se preparava para me oferecer um espetáculo que eu aguardava há tantos anos. Toda a minha presença e os meus sentidos estavam centrados nela, na sua força magnética que me atraía centrífugamente, desde as entranhas até tudo o que me permitia beber o seu ser, olhar, perfume, voz. Senti o toque da sua pele como uma supernova. Não o forcei, foi a avalanche de pessoas que me empurrou alguns centímetros para o lado, anulando o vazio que ainda existia entre nós. Ela também me sentiu, porque se virou para mim, quase colando ao meu o seu rosto imaculado. Foi então que o bruar do novo ano rebentou nos 2 milhões de corpos que não sentia estarem à minha volta, tal era o transe para onde Fe me transportara. Também ela não tirou os olhos dos meus, talvez em jeito de agradecimento por eu ter preterido o mais deslumbrante espetáculo do Mundo por ela. Não foi uma escolha difícil a do objecto da minha atenção, para mim ela era mais estonteante que qualquer fogo de artifício. Esperava que não, que esse olhar recíproco não tivesse sido por simpatia mas sim movido a vontade, a vontade de mim. Mal sabia que no segundo seguinte iria ter a confirmação disso.

Não o esperava quando me assaltou, o beijo dela. Umas horas depois, na varanda do Copacabana Palace, onde nos tínhamos conseguido infiltrar fingindo ser uns clientes americanos embriagados de regresso ao quarto, Fe confessou-me que sentiu um incontrolável e inexplicável ímpeto para me beijar e que não era algo que lhe acontecesse assim, do nada. A verdade é que a esse impulso se seguiram outros, de nós os dois, e os primeiros minutos, largos minutos, do ano novo foram passados numa “pegação” pegada, como se o primeiro dia do ano fosse também o último do Mundo e não houvesse amanhã.

Já sem o Roberto e o Carlos, que foram seguir a noite no Le Boy, saímos da praia onde acabaramos de nascer e fomos andando ao longo da Avenida Atlântica em direção ao Leme ou a lado nenhum. A noite seguia interminável, com aquela sensação deliciosa de os minutos parecerem horas, as horas dias. O tempo esticava-se para nós, presenteando-nos com mais de si, como se sentisse que precisávamos ou merecíamos. Nem por um segundo pensei no amanhã, se Fe seria uma Cinderela de havaianas nos pés cobertos de areia que nunca mais veria, ou se pelo contrário seria minha para todo o sempre. Limitei-me a viver o momento, como ela, e a beijá-la muito. Passeámos, rimos, fizemos disparates, cantámos a viva voz em pé no murete do calçadão, metemos conversa com pessoas de todos os tipos e origens, metemos conversa connosco mesmos, bebemos, comemos pão de queijo e picolés, fomos intensamente felizes.

A viagem até ao Leme durou duas vidas compactadas numa noite. O sol nascia quando a deixei à porta da casa onde a esperava uma avó prestes a acordar para a sua caminhada matinal de velhota fresca como uma alface. Não subi. Não o sugeri nem ela me convidou. A nossa noite, a primeira, talvez a última, terminava ali, nos degraus de mais um edifício afrancesado, desta vez o “Richelieu”, debaixo dos olhares controladores do “moço” Wilson, porteiro de serviço. Era assim que estava escrito, “maktub”, como diria o escritor Paulo Coelho, carioca exilado entre milhões na Suiça. O depois do que foi logo se veria como iria ser. Despedi-me com um beijo diferente de todos os anteriores antes, mas não menos sublime. Segui-a com o olhar enquanto se embrenhava no Richelieu, o seu “rico lugar”, lançando-me de volta a cada passo as suas lágrimas duais de alegria e tristeza. Enfim desapareceu, sem me ter deixado. Ao sair do portão de grades para a rua olho em frente para o outro lado da rua, atraído por algo que não tinha visto antes. Na parede, em graffiti, uma frase de Tom Jobim cantava o epílogo da nossa noite… “A gente só leva da vida a vida que a gente leva.”

 

 

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