Udaipur, a cidade do amanhecer

Árido, escaldante, abrasador, seco, desértico. Todos estes adjectivos poderiam descrever o Rajasthan, um território imenso que ocupa uma grande parte do Noroeste da Índia. É uma terra mítica, lugar de tigres e Maharajas, de deslumbrantes palácios e de coloridas festas religiosas. É neste cenário encantador, não de serpentes mas de ocidentais, que se esconde a desconcertante cidade de Udaipur, a cidade do amanhecer.

Udaipur, a princesa das águas, é tudo o que não esperaríamos encontrar neste inóspito território. É uma cidade que se diferencia de todas as suas vizinhas pelo facto de estar rodeada de água, algo raro neste canto do sub-continente indiano. Mas não pensemos que esta superfície de água que rodeia a cidade, na verdade um lago chamado de Pichola, foi obra e graça de Brahma, Vishnu ou Shiva, não; de facto, a génese deste elemento aquático deve-se à mão do homem, ou melhor, à ideia de um homem e à execução de largos milhares de seus súbditos. Foi o Maharaja Udai Singh que decidiu, em meados do século XVI, criar o lago para albergar uma série de palácios flutuantes, nos quais instalou as suas mulheres. Os palácios, que sobreviveram aos séculos, são obras-primas da arquitectura, comparáveis em beleza ao Taj Mahal. Como se não bastasse a sua localização, Udai Singh pretendeu ir ainda mais longe, forrando-os de mármore branco, cujo brilho dos reflexos da luz solar apaixona quem de longe os espreita.

As cidades-estado e os seus príncipes

O Rajhastan é uma criação recente. De facto, foi com a independência da Índia da Coroa Britânica, em 1947, e com os movimentos reformadores que a seguiram, que o enorme país revolucionou a sua organização geo-política. Até meados do século, a Índia estava organizada em reinos, principados e cidades-estado, assentes numa estrutura de poder eminentemente feudal. Os Maharajas eram os senhores destes países dentro do país, exercendo muitas vezes um poder tirano, distante das populações que os idolatravam de uma forma só comparável à atribuída às centenas de divindades hindus. Mas nem todos os Maharajas eram déspotas não esclarecidos. Muitos eram homens santos, poetas, apaixonados pelas artes e ciências, sábios estrategas militares.

Antes da independência, este Estado era denominado de Rajputana, ou a Terra de Rajputs, a casta de guerreiros que ocupou este território há 1000 anos atrás. A Rajputana era formada por 22 reinos, cada qual com o seu soberano. Havia níveis diferentes de Maharajas, que mediam o seu poder pelo número de aldeias e súbditos que possuiam. Assim, havia Maharajas de primeira e de segunda, uns com 50 aldeias, outros com 400. Obviamente não eram tempos pacíficos. Os confrontos sucediam-se, pondo à prova o sangue guerreiro dos Rajputs. A paz podre inteligentemente imposta pelos britânicos ditou o princípio do fim deste estilo de vida e de poder. De chefes militares os Maharajas passaram a príncipes vaidosos, que cavavam o fosso entre si e os seus seguidores. Foi com os ingleses que as residências reais desceram das fortalezas quase inexpugnáveis, para aterrar em palácios opulentos mas vulneráveis. Difíceis de manter nos dias de hoje, nos quais os Maharajas não podem cobrar os impostos do passado, os palácios foram reconvertidos em museus e hotéis de luxo. Udaipur é o supremo exemplo desta realidade.

Os palácios de Udaipur

Udaipur é conhecida pela “Veneza do Oriente”, graças aos seus palácios e à água que rodeia a cidade, fazendo dela um enorme oásis na aridez do Rajasthan. A cidade está recheada de templos dedicados a deuses hindus. O mais deslumbrante é sem dúvida o Templo Jagdish. Construído em 1651 pelo Maharaja Jagat Singh, este santuário dedicado a Vishnu oferece um local de recolhimento e oração que contrasta com o bulício de uma típica cidade indiana. Mas Udaipur não é uma cidade santa. Outras batem-na aos pontos em termos de monumentos religiosos. O que Udaipur tem de único são realmente os seus palácios, construídos por amor ou por vaidade, mas que são seguramente os mais fascinantes de toda a Índia.

A visita aos palácios de Udaipur tem obrigatoriamente de começar pelo “Palácio do Lago”. Este palácio de mármore branco parece flutuar à deriva nas águas, sem amarras que o prendam a este mundo. Actualmente um hotel de luxo, o palácio é realmente um sonho para os habitantes de Udaipur, que nunca poderão pensar em pisar o seu chão de pedra branca, onde o preço de uma noite pode representar um ano de ordenado. O panorama que oferece da cidade é de cortar a respiração. A mais de 30 km mas à distância de um olhar, consegue-se avistar uma construção irreal, erguida nas montanhas. Um Maharaja poeta pôs-lhe o nome de Palácio das Monções, em honra das chuvas que trazem a vida e a morte à Índia a cada ano que passa. A sua beleza é de fazer inveja aos seus vizinhos da cidade. Aqui, em volta do Lago Pichola, os Maharajas de Udaipur quiseram mostrar o fausto da sua vida. Ainda hoje a família real vive num dos palácios da cidade, mais propriamente na metade de um palácio que alberga também um museu e dois dos mais belos hotéis da Índia, tornados famosos em todo o mundo por ter sido neles que James Bond se hospedou em busca de Octopussy.

Mas Udaipur é muito mais que os seus palácios; estes são apenas a face mais “sexy” da cidade. Paredes meias com a magia criada pelos Maharajas existe um mundo real, habitado por muitos milhares de anónimos cidadãos indianos. É uma cidade vibrante, misteriosa, cujos segredos se escondem dos olhos menos atentos. A cada passo que damos, a cada esquina que dobramos, abre-se uma vista para o lago ou aterramos na sua margem. Aqui, na borda d’água, o espectáculo é contínuo. A cada hora do dia, mas principalmente de madrugada e ao anoitecer, os milhares de habitantes da cidade vêm aos ghats, as escadarias que morrem no lago, para se purificarem. É um ritual sagrado e que dificilmente entra na nossa mente ocidental, que se enoja com esta “banheira” de água castanha e de odor agressivo. É esta a Índia real, o sub-continente de mil milhões de almas, de 2000 idiomas e de outras tantas divindades, tribos e castas. Udaipur é uma imagem fiel deste país fascinante e que deixa mais feliz quem o visita.

Índia, um país, mil castas

A Índia rege-se por um sistema de castas há milhares de anos. Estas castas, ou Varnas, são estratificações ou classes sociais nas quais todos os indianos são agrupados de acordo com o seu nascimento. São absolutamente estanques, ou seja, se uma pessoa nasce na casta X, é nela que vai viver, casar e morrer, não podendo, em vida, mudar de casta. Por muita confusão que faça à nossa mentalidade ocidental, este sistema é aceite por quase todos como uma forma de impedir o caos da sociedade. As novas gerações, mais abertas e informadas, lutam contra esta rigidez social, sendo mais ou menos apoiados pela classe política, que lentamente vai criando leis que promovem a igualdade entre as populações.

O sistema de castas tem cinco níveis ou grandes famílias: Brahman (sacerdotes, sábios), Kshatriya (proprietários, guerreiros, aristocratas), Vaishya (comerciantes), Shudra (artesãos, agricultores), and Harijans (intocáveis). Estes últimos estão fora do sistema de castas, apelidados de intocáveis por serem indignos de ser tocados por membros de castas superiores. O nome de intocáveis mudou há alguns anos, por influência de Ghandi, para Harijans, ou crianças de Deus, sendo actualmente também chamados de Dalit, ou oprimidos. A eles estão reservados os trabalhos mais sujos, como a limpeza das cidades ou a produção de bolas de esterco para usar como combustível.

As velhas tradições custam a acabar, mas é um dado quase adquirido que este sistema tem os seus dias contados, senão totalmente, pelo menos para a maioria da população. A questão é saber quanto tempo, ou melhor, quantas gerações demorará.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s