Porto na primeira pessoa

O Porto é uma cidade profundamente humana, dir-se-ia uma pessoa, com humores e amores, personalidade e atitude, com um coração vibrante e uma alma cheia. É uma cidade com feitio, que não se rende, até lhe chamam Invicta, profunda em tanto de si e do que é, mas também deliciosamente simples e óbvia. Sim, o Porto não se estranha ao primeiro sentir, é imediata no seu encantar, na sedução com que nos traga, no seu olhar, envolvente, cativante, irresistível. O Porto seduz com a discrição de uma senhora que nos pisca os olhos sem ninguém perceber, mas também com a chama de uma mulher fresca, sensual, apaixonante que toma conta de tudo de nós e nos tolda a razão, deixando-nos bobos de felicidade e sem defesas perante o seu charme inteligente e subtil. É, por isso, não uma pessoa mas muitas, porque de poli polaridade é feita, de tantos sentidos e seres, de matizes e camadas. É essa pluralidade que a torna viciante, enebriando quem a visita, quem nela vive. Mas também a vejo humana a outro nível, na sua escala, evidente numa malha urbana contida, que permite descobri-la em menos de uma vida, ainda que nos pareça que uma vida nossa não lhe baste, tanto que ela tem para ser e mostrar.

A capital do Norte é em muitos aspectos uma cidade-aldeia, ou melhor, uma profusão de aldeias heterogéneas de identidade entre si, mas que de uma forma inesperadamente coerente formam uma unidade. Realmente não há paralelo possível entre o Aleixo e as Antas, a Sé e a Boavista, ou entre Nevogilde e a Senhora da Hora, ainda que distem nadas e que em meio pulo saltemos de uma para a outra. A distância entre si não se mede em nada que seja físico, mas antes em diferenças de tecido social, de matriz económica, até de ofícios, que ao longo dos séculos foram sendo funcionalmente alocados a ruas e bairros, assim os definindo ainda nos dias de hoje, apesar das pressões urbanísticas modernas e as inexoráveis mudanças a elas associadas. Mas esta disparidade não significa que haja clivagens incociliáveis dentro da cidade, muito pelo contrário. O xadrez do Porto é radicular e interligado, a sua geometria tem um sentido orgânico, natural, que nem os visitantes de fim de semana estranham. É nesse aspecto uma metrópole consistente, que fala com a mesma pronúncia do Norte, ainda que as peixeiras do Bolhão sejam mais brejeiras nos seus pregões que as meninas de famílias aristocráticas da Foz com a sua voz melodiosa de sereias desse mar infinito que se estende para além do Castelo do Queijo.

O Porto é uma cidade pela qual nos apaixonamos à primeira vista, como aqueles amores de adolescência que nos arrebatam de um sopro. É avassaladora desde o momento em que a ela chegamos, especialmente pela Arrábida, ao fim da tarde, quando o sol banha com um manto dourado o lençol de água da foz, que brilha tanto que chega a encandear de beleza os olhos dos condutores. Ainda na ponte, uma passagem para a outra margem, como cantavam os Jafumega, a nossa direita exibe um dos postais de Portugal, as duas margens gémeas das ribeiras do Porto e Gaia, separadas artificialmente a dada altura das suas vidas. Não devia o homem separar o que Deus uniu, apetece dizer a quem as dividiu em duas cidades. Acho que o Porto é maior que o Porto, não o consigo ver dissociado de Gaia, separar as duas cidades é para mim completamente contra natura. Estou certo que o Criador não o quereria, nem o próprio Douro, que abraça as duas e que aqui se atravessa em meia dúzia de braçadas, menos do que justifica uma separação toponímica. Cada margem tem a sua identidade, é certo, mas são partes de um todo harmonioso, convivem num flirt diário que tem tanto de sensual como de inocente, são espelho uma da outra, completam-se e preenchem-se, são verdadeiramente siamesas não o sendo.

Apesar de a água do Douro estar entre as margens do Porto e Gaia, o vinho desse mesmo rio une-as desde há séculos. É em Gaia que ficam as caves de vinho do Porto, um dos grande ex-libris da cidade, que fazem dela uma das capitais vinícolas do mundo, algo com o qual, por muito que tentem, Lisboa e o Tejo nunca conseguirão competir. Apesar de as vinhas que produzem os vinhos do Douro estarem a mais de 100km da sua foz, o Porto é o que é muito em função do vinho, do seu vinho, seu e de todos nós, que ao longo dos tempos trouxe prosperidade, cosmopolitanismo e nos nossos dias também turismo, a estas bandas. Por coincidência, ou talvez não, o Porto é o espelho do carácter dos seus vinhos, eu diria mesmo que são coincidentemente coincidentes, por incrível que pareça existirem paralelos entre uma bebida e uma metrópole. O Porto tem tanto de poderoso como de doce, é profundo, complexo e quase indecifrável por vezes, acolhedor e arrebatador ao primeiro trago por outras, envelheceu bem mas consegue ter a fruta e o vibrar de uma juventude pujante e floral, tem estrutura, antiguidade, descobre-se aos poucos, sendo preciso saber saboreá-lo para descobrir os segredos que esconde dos olhares que não o, e os, merecem. Mas não só. Também é viciante, companheiro, sedutor na sua beleza, profundamente orgulhoso na sua fidalguia, mas igualmente burguês e meritocrata, e tão popular, bairrista mesmo, nos vários Portos que dentro dele coexistem. Como cidade é invulgar, pitoresca, boémia, apaixonante, tem corpo de mulher feito das curvas e contra-curvas dos becos e vielas do seu centro histórico, tem uma dose saudável de loucura e os pés bem assentes na terra. Tem tudo de uma grande cidade e tão pouco também, é vila e aldeia, mas também nação que não é dos portuenses nem dos Portugueses, mas sim da Humanidade.

Para mim é na Baixa que o Porto melhor se soletra. É ali o “meu Porto”, ao qual aporto tantas vezes para momentos de calor e de sentido regresso a casa. Esta zona foi durante séculos o centro da cidade, mas a certa altura, por vicissitudes várias, perdeu o protagonismo para outros bairros mais novos, alguns dos quais eram antigamente vistos quase como outra cidade. Lembro-me de ouvir uma vez um nativo de Nevogilde que hoje é o Presidente da Câmara do Porto, dizer que quando era novo as pessoas diziam que iam ao Porto quando iam à Baixa. Hoje já não será assim, a malha urbana é ininterrupta e as fronteiras da cidade são menos rígidas, até a muralha Fernandina, que em séculos passados ia até à margem do rio, se abateu à ordem do progresso. Mas voltemos ao emaranhado de ruas da Baixa, que nos últimos anos reconquistou o seu protagonismo central na vida da cidade e das suas gentes. Findo o seu processo de renovação, a Baixa acordou vibrante de vida, com o gás todo, desejosa de aproveitar o tempo perdido. É um admirável mundo novo este que agora o Bairro oferece a quem o visita.

De dia é o comércio que impera, feito de uma miríade de místeres transversais que definem a maior parte dos nucleotídeos que formam o DNA da cidade. Lojas de vestuário, de ferragens, livrarias (até lhe chamam Bairro dos Livros), de plásticos e drogarias, mercearias de bairro e confeitarias, e um sem número de outros estabelecimentos de comércio tradicional. À noite, antes um semi deserto de gente, o cenário muda, e a Baixa muda de mood, relaxa e troca de roupa, coloca uma música cool para dar ambiente e sai para comer e beber, para se divertir como se não houvesse amanhã. A Baixa é o bairro em Alta na noite do Porto. É assim há meia dúzia de anos, quando alguns aventureiros se lançaram a redescobri-la, como o território semi virgem que voltara a ser quando a luz do sol se apagava. Aterraram primeiro que tudo na Rua da Galeria de Paris (que nome delicioso), depois na Cândido dos Reis, passaram à Praça D. Filipa de Lencastre, à Rua de Ceuta, e agora espalharam-se organicamente, qual virus benigno, pelas ruas da Picaria, de Ceuta, do Almada, do Conde de Vizela, e mais recentemente para lá do largo de Monpiler e nos Clérigos, numa estrutura anteriormente moribunda e abandonada mas que hoje possui bares e restaurantes de grande “pintarola”.

Com essa onda “da noite”, uma vaga suave e agradável, sem a agressividade que outras noites têm, vieram outros tipos de comércio. Chegou a Vida Portuguesa de Catarina Portas, renasceu a Arcádia, abriram gelatarias e lojas vintage, começaram a desabrochar floristas contemporâneas e designers de moda, criaram-se novas galerias de arte, revitalizaram-se as tradicionais. Este é o novo tecido da Baixa, que se fossemos chineses poderíamos etiquetar de “Um Bairro, dois Sistemas”, com uma realidade diurna e outra noturna que estão em perfeita harmonia, completando-se e fazendo deste bairro o mais sedutor da cidade.

A Baixa está hoje cada vez mais ligada ao rio, graças ao renascimento que se tem feito nas artérias que ligam as duas zonas, especialmente na Rua das Flores, que se desflorou recentemente para gáudio de todos quantos a atravessam. Assim, em dois passos se desce para o Douro. O Porto é uma cidade em estado líquido, talvez mais que qualquer outra no planeta. Já falei do vinho, mas o Porto também é definido pela água que o banha, atravessa e limita, feito de oceano e rio, sendo que o segundo é, na minha opinião, ainda mais determinante no DNA da cidade. Afinal, foi na sua foz que a cidade nasceu, não foi mais a norte, nem mais a sul. Até a UNESCO o reconheceu, fazendo da Ribeira uma zona classificada como Património da Humanidade, à semelhança do Alto Douro Vinhateiro, o que faz deste rio duplamente especial. O Douro é um dos pequenos grandes rios do mundo. É um curso de água com carácter, que atravessa dois países e em cada um deles é um tesouro incontornável. Ao chegar ao Porto, o Douro é suave e delicado, elegante, voluptuoso graças às curvas zig-zagueantes que o torneiam entre as suas sete pontes e os pontões que o projetam no Atlântico. Estes últimos quilómetros que o rio faz antes de se fundir no mar salgado são um espectáculo em si mesmos, decorados por barcos rabelos atracados nas ribeiras, palácios e vetustos armazéns de pedra, casas populares onde a roupa seca para o festim das objetivas dos turistas, fortes militares, marinas e promenades. Se há em Portugal experiências que devem ser vividas uma vez na vida, a descoberta fluvial do terminus do Douro é uma delas.

Não cabe numa enciclopédia tudo o que o Porto oferece a quem o demanda, até porque a cada dia a cidade desvenda mais um património escondido pelo tempo ou inaugura um novo espaço que também merece o seu lugar ao sol e uma visita. E isto para além do que não se visita mas antes se vive, os sons da cidade, as vistas que ela permite em tantos dos seus pontos, o que se come nas tascas, tabernas, casas de pasto, adegas, restaurantes contemporâneos e até na rua, e tanto, tanto mais. Para quem passa pelo Porto de forma mais superficial pode ser difícil tocar no seu coração mais escondido e viver experiências que a cidade oferece não a quem quer, mas a quem sabe ou pode. E não falo sequer de certos rituais únicos e centenários, em espaços fechados aos olhos do público como a Feitoria Inglesa, não, a maior riqueza do Porto são as suas gentes, especialmente aqueles que pela sua profundidade e valor fazem a cidade. São pessoas com identidade própria, Portugueses com uma alma mais centrada no essencial, homens e mulheres com elevado grau de pureza, que falam nos olhos e não “comem sono”, que dizem palavrões que neles soam a poesia, pessoas de trabalho e fé, inteligentes mas também com esperteza de rua, tradicionais nos seus valores mas com coragem para ousar, criadores e criativos, cativantes e descontraídos, sedutores, apaixonados pela vida e pela sua cidade, da qual são defensores orgulhosos, como o foram os seus egrégios avós. Os portuenses que conheço são das melhores pessoas que me atravessaram a vida, que nela estão, fossem e sejam amigos, paixões, líderes, rivais, colegas, clientes. Por eles, em sua homenagem, e pela sua cidade, Bibó Porto, esta cidade humana que tanto me cativa e da qual também me sinto modestamente um filho.

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