Imaginary Love Letter #2

Meu amor,

Escrevo-te ao lado da cama, a poucos passos do teu corpo, que ainda dorme na nossa noite juntos, a primeira. Tenho tanta palavras em insónia dentro de mim para te dizer que tive de nos deixar por momentos para me encontrar contigo aqui, em linhas mais racionais mas não menos sentidas do que todas as que temos desalinhado desde que estamos juntos. É um lugar comum dizer que me surpreendi contigo, que me surpreendeste, apesar de há anos te amar em estado presente em mim, e de o saber a cada bater do meu coração. Nunca o disse, nem a ti nem a ninguém sem ser a mim próprio, nem mesmo depois de nos termos envolvido na festa do Jaime, nem agora que somos carne e espírito um do outro. És uma paixão antiga, sem tempo, vinda do fundo do meu passado. Não te posso precisar quando te comecei a amar, sei que não foi num momento concreto, em estilo de queda de água inesperada, mas antes no sereno caminhar das águas de um rio que atravessa uma planície de aluvião em direção à sua foz.

Quis sentar-me aqui a falar contigo em sonhos sobre o amor que te tenho, para tentar defini-lo, torná-lo palpável num testemunho muito interior que é também uma declaração do compromisso inabalável que já sinto ter contigo. Este esforço que empreendo (esforço talvez seja a palavra errada porque não me acarreta qualquer custo fazê-lo) ficará inevitavelmente muito aquém do que na verdade sinto. Mas sei à partida que não tenho palavras, que provavelmente não há palavras, suficientes para definir o que sinto, para transpôr para letras a imensidão do amor que te tenho. Tens de perceber que eu já nos vivo há muitos anos, por isso não estou a falar a quente de uma paixão avivada pelo fogo fátuo dos inícios. O que inspira o meu sentir é tão mais real e radicular que isso, é uma longa história de amor que vivo em uníssono contigo desde que me conheço como homem, e que agora podemos partilhar ao ritmo do consumar deste “nós” físico e real.

Somos amigos há muito tempo, ainda estavas tu no colégio do Bairro da Liberdade, devias ter pouco mais de 10 anos. Lembro-me mal da nossa convivência nesse período, da inicial, dos primeiros momentos, mas ainda assim recordo com nitidez a miúda rapazola que ia para casa a pé a chutar uma bola de couro cossado contra as paredes dos muros e prédios do caminho, esburacadas pela decadência que se abatera sobre o subúrbio industrial onde vivíamos. Via-te passar do outro lado da rua quando estava a ajudar o meu pai no café nos dias em que a minha escola acabava mais cedo. Mesmo de longe se percebiam as sardas no teu rosto. Uma mulher sem sardas é como um céu sem estrelas, dizia a minha avó. Ainda hoje, e especialmente no dia de hoje, me fascinas por esse pintalgado que tanto embeleza o teu rosto aos meus olhos. Lentamente foste entrando nos meus dias, primeiro assim, eu como espectador, depois como amiga, quando começaste a frequentar o café para comer os deliciosos gelados de fruta que a minha mãe fazia para conquistar a alegria das crianças e, indiretamente, a fidelidade comercial dos seus pais. Ainda hoje lhe agradeço a arte, pois sei que sem ela talvez nada tivesse acontecido entre nós.

Passaram-se anos e anos de convivência mais ou menos presente, durante os quais fui testemunhando a tua vida, alegrando-me com os teus sucessos, sendo um ombro para as mágoas que, não conseguindo apagar como tanto desejava, tentei sempre adoçar com o meu carinho e presença. Gradualmente fui-me apaixonando por ti, como aquele caminho suave das águas que te descrevi atrás. Sempre soube que me vias como um amigo, naquele registo de irmão que os homens tantas vezes preferiam não ser para as mulheres pelas quais se sentem atraídos. Mas fui essa figura, cheia de afeto teu, e fui-o bem, com prazer, sem qualquer peso de frustração. Cultivei dentro de mim um amor platónico, com ingredientes verdadeiros e puros, sem a superficialidade da carne, vertido numa poesia escrita por mim e inspirada em ti. Nunca me atrevi a poluir essa casa que construíramos com algo que nela pudesse fender brechas. Não me perdoaria se tal acontecesse. Acho que estava preparado para te ter assim, ao longo das nossas vidas, como apenas e grande amiga, disposto a aceitar, a conviver e até a amar como parte de mim os homens que foram entrando na tua vida, uns mais que outros claro. E fi-lo sem ciúme, por estranho que pareça. Estava em paz com o meu amor, tentava porventura o ir mascarando de amizade fraternal para não deixar entrar uma réstia que fosse da luz negra do que seria para mim o pecado original de desrespeitar o elo inquebrável que tínhamos a unir-nos. Mas depois aconteceu Formentera.

Eu não era para ter ido de férias contigo e com o Valentim, especialmente porque com esse teu namorado nunca tive grande empatia. Mas tinha-me separado há pouco, tinha uns dias para matar, e aquela proposta de uma escapada “barefoot luxury” era realmente irrecusável. Apesar de não adorar o teu rapazinho até simpatizava com a irmã dele, desconfio que nos querias juntar, e com o casal do norte que lá iria estar também, por isso aceitei o desafio de me juntar ao grupo. As coisas entre vocês já não estavam bem antes e a convivência diária naquela semana só agudizou as feridas abertas de trás e acelerou o inevitável. Ele acabou por regressar a Portugal dois dias antes do fim da estadia e eu fiquei para te consolar. Não que estivesses chorosa, acho que foi um alívio o vosso fim, mas voltaste a cair naquele discurso, acompanhado de um mood descrente, de que nada resulta contigo, que nenhum homem te conseguia preencher e por aí fora. Já tinha ouvido quase década e meia dessa ladaínha portanto sabia de cor as linhas do meu papel secundário no filme menos-trágico-do-que-tu-o-pintavas da tua vida amorosa. E mais uma vez fui o ombro onde pousaste todas as tuas angústias.

Os dias seguintes, pintados de folia e pés na areia, foram o exorcismo que faltava para, em inocente inconsciência, nos libertarmos das amarras da nossa relação pueril, fundada numa amizade descolorida de tudo o que não fosse uma saudável e cúmplice fraternidade. Foi um olhar teu durante o luau na playa de ses illetes que mudou tudo em mim, um olhar de mulher para um homem que deseja, sem os pudores que vestem a amizade. Lembro-me nitidamente do momento em que os teus olhos se voltaram para mim e me atingiram como um raio numa noite de trovoada estival. Senti que era a primeira vez que me olhavas, que eramos desconhecidos até então, apesar de por milhões de vezes nos termos visto. Mas tudo era novo e primitivo, nunca nos tínhamos tocado por dentro como então, fomos nesse instante uma supernova avassaladora, que destruíu um mundo morno para em contínuo criar um outro, pleno de luz e cor, dissipado de todas as fronteiras entre nós. Não foi sequer o tinto de verano que escorria a rodos pelos copos a inspirar-nos, a reação química das nossas íris veio do mais profundo de nós, foi visceralmente real, nascida da inesperada frustração de anos de contenção, de sentimentos reprimidos ou mascarados de afetos inóquos e seguros. Não se explica o que aconteceu, mas foi claro que a semente de muito mais do que tínhamos sido até então estava lá a partir dessa hora, ambos a sentimos a cravar-se com unhas e dentes a agarrar a vida que inesperadamente lhe demos debaixo da noite estrelada do Mediterrâneo.

E aqui estamos, depois de uma noite que esperámos dormir há mais tempo do que sabíamos, a primeira do resto das nossas vidas e de tantas que iremos ter em nós. Vou voltar ao nosso sonho, onde me esperas. Até já meu amor.

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