Ilha de Moçambique

Ilha de Moçambique, a bela adormecida

 

A Ilha de Moçambique é um exemplo ímpar de monumentalidade e decadência, de exotismo e pureza, por cujas ruas de terra ecoa o charme do passado, fantasma vivo da centenária presença Portuguesa em África. É uma populosa cidade abandonada, uma bela adormecida, ao mesmo tempo cheia de gente e repleta de vazios, de almas penadas, de silêncios, presa num limbo arquitectónico e social entre o apogeu de outrora e a dura realidade dos nossos dias.

 

A estrada desde Nampula é longa, uma recta com duzentos monótonos quilómetros que parecem ser um teste à perseverança de quem demanda a ilha. No meu caso não haveria distância que me desmotivasse, porque desde que me conheço que lá queria ir. Nas deliciosas viagens imaginárias de criança costumava sonhar com essa fortaleza perdida na costa de África, um dos mais fascinantes redutos de portugalidade no Mundo, adormecida depois de séculos de protagonismo. Por, dessa maneira, lá ter ido muitas vezes, e apesar de nunca lá ter estado, sentia-me a regressar a casa, talvez também por tantos dos “meus” que viveram antes de mim lá terem passado.

A Ilha de Moçambique foi o primeiro entreposto comercial português na costa oriental de África. Vasco da Gama acostou aqui em 1498, sendo a ilha na altura ocupada por swahilis e negros, dependentes do Sultão de Zanzibar, a sua vizinha Tanzaniana situada mais a norte. Entendida a sua importância geo-estratégica, nunca mais o Império português largou mão desta ilha-fortaleza, tendo sido aqui a capital da então colónia de Moçambique até 1898. Durante 400 anos a cidade viveu afluente, aristocrática, poderosa, dominando o comércio no Índico, raison d’être de tantas riquezas da metrópole. Foram séculos de apogeu, durante os quais a ilha foi sede de poder político, militar, religioso, albergou grandes figuras da nossa história, como Camões, e serviu de base à voracidade colonialista dos nossos antepassados, insaciáveis por terra, mão-de-obra e acesso a riquezas. Nas palavras de Dickens, “It was the best of times, it was the worst of times”. Muitas destas riquezas foram exportadas para Portugal, mas outras, feitas de pedra e suor, ficaram na ilha, adormecidas pela letargia do tempo.

O património edificado da Ilha de Moçambique inclui a Fortaleza de São Sebastião, a capela de Nossa Senhora do Baluarte, o mais antigo edifício europeu do hemisfério sul, e um sem número de igrejas e casas apalaçadas. Esta riqueza deu-lhe a honra de entrar em 1991 na exclusiva lista de sítios Património da Humanidade da UNESCO, o que desencadeou um tímido processo de reabilitação que avança devagar-devagarinho, minado primeiro pela guerra civil e depois pela falta de fundos locais e pela crise da cooperação internacional, incapaz de mobilizar recursos para que a ilha possa voltar ao esplendor do passado.

A ilha vive sobrelotada, com mais de 50.000 habitantes a competir pelos escassos metros quadrados desse rectângulo de 3km de comprimento por 400m de largura. O cenário dantesco é agravado pelas miseráveis infra-estruturas, ruas de terra batida, um hospital a céu aberto, praias poluídas pela população que as usa para tudo menos fins balneares, e ruínas atrás de ruínas. Com esta descrição poderia parecer que a Ilha de Moçambique é um local a evitar… muito pelo contrário. Esta decadência é afinal o que a torna irresistível, ainda que não seja para toda a gente. Não é de todo um destino de “turistas”, pessoas exigentes de conforto e sensíveis a estilos de vida que saiam fora do seu formato de vida “posto por ordem” de país desenvolvido. Aqui só devem vir viajantes com “estômago” para aguentar a precaridade local, com jogo de cintura para poderem lidar com os seus contrastes, com abertura de espírito para entenderem a sua beleza improvável e para se deixarem seduzir pelo enebriante ambiente da ilha. Os corajosos que aqui cheguem, estóicos viajantes que trazem orgulho aos egrégios avós lusitanos que ao longo dos séculos demandaram estas costas com o peito cheio de coragem, serão brindados pelas memórias do passado glorioso da ilha e pelas suas gentes, puras e cativantes por ainda pouco terem sido tocadas pelo mundo exterior.

O despertar toca perto das 5 da manhã, vindo do minarete da mesquita verde esmeralda vizinha do hotel-casa onde fiquei. O muezzin chama os fiéis, que constituem 95% da população da ilha, para a primeira oração do dia. “Allahu Akbar, Allahu Akbar”… Alá é Grande. Gabriele Melazzi, o dono desse singular micro-hotel chamado “Pátio dos Quintalinhos”, aprendeu a conviver com esse clamor de mais de mil anos que lhe entra casa adentro cinco vezes por dia, ao ritmo das orações do Salah, “Pilar” essencial do Islamismo. Gabriele vive na ilha há vários anos, num cenário que não poderia ser mais diferente da sua Milão natal. Globetrotter por natureza, este italiano virado ilhéu formou-se em arquitectura e viveu por um período da década de 90 em Lisboa, trabalhando num dos famosos gabinetes da cidade que projectavam a nova Lisboa a Oriente, no Parque das Nações. Nesse altura a sua casa ficava em Alfama, no Pátio dos Quintalinhos, nome que que levou para este Oriente longínquo, refazendo uma ligação ancestral entre a Alfama de onde tantos marinheiros partiram e a costa de África, onde alguns deles chegaram.

Nos últimos anos outros viajantes perdidos encalharam por vontade própria neste pequeno pedaço de terra no Índico. Portugueses, suecos, franceses, sul-africanos, não mais que umas dezenas de almas mas o suficiente para trazer algum Primeiro Mundo para este Terceiro. Paredes meias com a deliciosa decadência da ilha convivem agora pequenos oásis de charme tropical, dos quais o “Escondidinho” é a pièce de résistance. Ali, na tranquilidade de uma casa colonial do início do século XIX, um casal parisiense recebe hóspedes com a sofisticação de um hôtel particulier do Marais ao mesmo tempo que serve a melhor cozinha da ilha, fusão de ingredientes locais e “mão” Francesa. Seja aqui, neste inusitado ambiente franco-moçambicano, ou num dos pequenos restaurantes locais onde nos recebem com um “Salaam Aleikum” hospitaleiro, sentimo-nos sempre em casa nesta ilha, pedaço de terra que já não sendo nossa, nos sabe como se ainda o fosse.

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