Diários de Delhi e Mumbai

Delhi é uma cidade diferente das demais na Índia. É uma espécie de Índia para principiantes, um local onde quem vem pela primeira vez a este inebriante sub-continente pode aculturar-se um pouco, antes de se embrenhar na Índia profunda. Aqui os contrastes são mais ténues, a pobreza mais discreta, o caos e a decadência, que são para mim um dos charmes irresistíveis deste país, menos agressivos para os sentidos e a sensibilidade dos ocidentais. Faz sentido de certa maneira começar uma viagem pela Índia por aqui, pois em Delhi coabitam a velha Índia e a nova Índia, a Índia antiga e a Índia moderna, a Índia milenar e a Índia inglesa. E na cidade sente-se essa diferença mas também essa fusão, evidente em Nova Delhi mas ainda mais entre Nova Delhi, os bairros que nasceram desde a chegada dos ingleses, e Velha Delhi, a cidade antiga, com séculos de história e soberbamente Indiana. Foi a esta cidade que cheguei na primeira vez que vim à Índia, e também nesta terceira viagem.

Apesar de não ser a mais caótica das cidades Indianas, em Delhi dá para sentir a confusão do trânsito que é a imagem de marca deste país, o ruído permanente das buzinas, infernais em qualquer outro local mas que aqui são uma espécie de banda sonora que não só perdoo como ainda acho essencial na experiência de cá estar. A Índia sem este som contínuo não seria a mesma. Se eu quisesse um ambiente hospitalar e asséptico teria ido para a Suiça, mas a Suiça não me enche as medidas. Por isso aceito tudo o que este país é, a sua loucura, a miríade de carros, camiões, riquexós e motas que bailam descoordenadamente coordenados pelas ruas, a sujidade, todos os tipos de poluição que me atacam, aceito tudo. Esta é a Índia, está entranhada em mim assim, não há nada a fazer contra. Há coisas que são mais fortes que nós.

O dia na Índia começa cedo, uma boa parte da população local vive ao ritmo da luz, raiando com o astro rei e deitando-se ao mesmo tempo que ele. Parti para Velha Delhi, uma parte da cidade que tinha conhecido brevemente aquando da minha primeira visita, uns 16 anos atrás. Sabia de antemão que iria encontrar o mesmo fascínio que tinha visto nessa altura, afinal as coisas na Índia mudaram muito mas também quase nada.

A zona antiga de Delhi é para mim a Índia no seu melhor, ainda que possa ser no seu pior para outros olhos mais formatados e certinhos. Aqui reina o caos, o mais profundo e deslumbrante caos. Esta parte da cidade é na verdade um gigantesco bairro onde não temos qualquer possibilidade de orientação tal é o emaranhado de pequenas ruelas e vielas. Não há mapa possível de tal forma é complexo e labiríntico. A solução é deixarmo-nos ir, arrastados pela multidão, que a espaços se move em massa, compacta, como lava a descer imparável de um vulcão. Pessoas, de todas as idades, mas também motas, riquexós, carretas que carregam as mercadorias mais diversas, animais. Tudo se aperta, congestionando as artérias microscópicas, em paralelo do acontece, noutra escala e com outros protagonistas, nas ruas e avenidas da mais nova das Delhis.

Como peixe dentro de água, lá fui, perdido, virando à esquerda e à direita, tentando afunilar os meus passos em ruas cada vez mais pequenas, num trajecto que é no espaço mas também no tempo, porque quanto mais estreitas as ruas mais primitiva é a envolvente. Aventurei-me em locais onde artesãos esculpiam prata, noutros onde se gravavam metais, se vendia lã ou apenas se rezava em honra de uma das milhares de divindades hindus ou dos deuses de outras religiões que aqui convivem em paz desde tempos imemoriais. Às vezes entrava num beco ou num pátio onde o ruído quase não chegava. Por estas alturas as casas de cada lado estavam tão próximas que mesmo no pino do dia fazia escuro, com apenas alguns raios de luz a conseguir vencer as barreiras de pedra e do emaranhado de fios eléctricos que serve de tecto às ruas. Senti-me quase numa floresta tropical, onde a luz mal chega ao solo, tal é a opacidade provocada pela copa das árvores. Aqui não há vida dessa, verde, natural. A vida em Velha Delhi é humana apenas, os insectos são pessoas, que se movem desordenadamente num neste imenso formigueiro.

Este é um bairro de comércio, o que mais uma vez reforça a sua imagem de espelho deste país de mercadores que é a Índia. As lojas sucedem-se porta com porta. Se em algumas zonas se nota alguma especialização, como por exemplo numa parte onde há muitos pequenos negócios de roupas e acessórios para casamentos, noutras acontece o oposto, com uma total heterogeneidade de estabelecimentos. Existe contudo um elemento comum, a comida. As ruas estão infestadas de bancas a vender comida, microscópicas cozinhas abertas que servem uma clientela que ao ocupar as vias de circulação a tornam ainda mais engarrafada, ou melhor, empratada neste caso. A Índia é a meca da street food, um país onde milhões se alimentam diariamente desta forma, comendo com a mão (sempre a direita) com a ajuda de paparis, papadams, naaans e outros pães típicos. Não é seguramente um local que eu recomende para as bocas mais impressionáveis.

Deste passeio sem destino recordo alguns momentos que me marcaram, cenas de um país que me desvaira e apaixona cada vez mais. Um noivo que provava um ornado chapéu de casamento e se olhava num espelho de mão, um velhote que exibiu o seu farfalhudo bigode para a minha câmera, uma conversa com um mestre-escola orgulhoso do que ensinava a crianças de tenra idade, um gravador de metal e o seu filho andrógeno com quem tomei um chá enquanto admirava a sua arte, uns miúdos saídos da escola, com uma farda very british que contrastava com os familiares andrajosos que os acompanhavam, um riquexó que me atropelou com uma pancada na perna e uma roda em cima do pé, enfim, momentos simples que sei que não vou esquecer.

 

Mumbai é maior cidade Indiana e aquela que mais espelha o que a Índia pretende ser no futuro. A antiga Bombaim, rebaptizada há meia dúzia de anos, é uma brutal megapólis, uma cidade com incontáveis milhões de habitantes, talvez 15, talvez mais, ninguém sabe ao certo. Cenário de “Slumdog millionaire”, Mumbai é realmente como esse filme a pintou: agressiva, colossal, imunda em muitos aspectos, contrastante, louca, extravagante, rica, magnética, devoradora e caótica. Não é uma cidade para “meninos”. Ela até pode ser condescendente com quem a visita por alguns dias ou para os afortunados que vivem no topo das suas pirâmides sociais, culturais e económicas, mas para a massa humana que a define, Mumbai é absolutamente voraz e predadora. É uma cidade muito violenta ainda que isso não se evidencie numa criminalidade acima do que seria de esperar num ambiente como o seu, pelo menos em termos relativos. A violência não é tanto a esse nível, mas mais, e essencialmente, em termos da pressão física e psicológica que ela imprime aos seus habitantes. A poluição é elevada, o ruído ensurdecedor, a miséria perturbadora, o trânsito tremendo e desafiante para condutores, ciclistas, motociclistas, peões e animais, que circulam pelas ruas como se estivessemos a percorrer uma qualquer aldeia rural.

Aqui chegam diariamente milhares de indianos vindos do mundo rural e de pequenas cidades espalhadas pela Índia. Vêm em busca de um mundo melhor, como acontece em cidades magnéticas por esse mundo fora, como São Paulo, Cidade do México, Manila, apenas para dar alguns exemplos. Muitos vêm iludidos pela imagem que Bollywood pinta, e que ainda que sendo possivelmente real, não será nunca acessível à esmagadora maioria deles. Também eu, como viajante que a desvenda, sinto esse poder de atração. A minha vontade de a conhecer tinha décadas de idade e chegou o momento de a descobrir em profundidade.

Mumbai é uma loucura, literalmente. Não deve haver no planeta muitas cidades assim, tão puramente “cidades”, onde tudo é confusão, cimento, asfalto, ruído, sujidade. Mumbai é tudo isso e muito mais. É uma cidade que tem um ritmo alucinante, que mói e cansa, tal é a quantidade de informação que nos assalta, e que vem acompanhada com poluição, odores quase sempre desagradáveis, e muita miséria. Mumbai é para conhecer a andar de um lado para o outro, descobrindo recantos da cidade, olhando os seus quotidianos, absorvendo-os, numa tremenda e deliciosa overdose da Índia real, aquela que só se conhece aqui vindo.

Mumbai não deixa ninguém indiferente, não é cidade para isso. Eu diria que a esmagadora maioria das pessoas não gostaria de a conhecer. É uma cidade forte demais, não é um daqueles locais mornos e sensaborões, com sabor a baunilha, que não é carne nem é peixe. Não. Mumbai tem uma enorme personalidade e carácter. Mas é para quem gosta de cidades frenéticas e decadentes.

Comecei numa mesquita importante que goza de uma situação ímpar, ocupando um pequeno ilhéu que se liga ao continente por um istmo com pouco mais de 500 metros, ao longo do qual polulam a habitual maralha de vendedores de artefactos religiosos, pedintes e bancas de comida. Dos dois lados do caminho, crianças recolhiam lixo deixado pela maré baixa nas rochas. Este trabalho infantil degradante é talvez o lado mais agressivo desta cidade, e está infelizmente presente a cada esquina, como que para nos recordar que temos de dar valor ao que temos. É engraçado ver como aqui, apesar de tudo, se respeitam as crenças minoritárias, como é o caso dos muçulmanos, ainda mais quando há conflitos latentes com países vizinhos que são em grande medida motivados pelas diferenças religiosas, que aliás estiveram na origem da cisão da Índia “Inglesa” em três estados, União Indiana (predominantemente hindu), Paquistão e Bangladesh (maioritariamente muçulmanos).

Saí da mesquita e fui em busca de uma loja de fotografias antigas que ficava perdida num bairro do centro de Mumbai. Mais uma vez foi uma loucura chegar até lá no meio das ruas atulhadas de tudo o que se possa imaginar. E de novo a sensação de montanha russa de passear por essas mesmas ruas e por outras mais pequenas, e por becos, e ao entrar em pátios e pracetas à procura de capturar imagens diferentes, e ao sentir o remoinho de vida à minha volta, uma vida na qual eu era um mero espectador atento com os sentidos alerta e abertos para beber, para sorver, cada gota de sabor que conseguia retirar do que os meus olhos testemunhavam. É difícil explicar sem estar aqui a sentir tudo isto. Mas é preciso também gostar verdadeiramente destes ambientes infernais, dantescos, que nos esmagam a uma pequenez tão infíma, que nos tiram totalmente da nossa zona de conforto. Mas que ao fazê-lo nos dão vida, porque para mim não há melhor para me sentir vivo que estar na Índia.

O resto do dia foi passado a passear de bairro em bairro, vendo as suas diferenças. A certa altura dei por mim numa zona que era marcadamente mais inglesa que as anteriores, que tinham menos edifícios de época. Quando digo mais inglesa falo da arquitectura, porque foi essa a única memoria visível dos ingleses aqui (ok, talvez as fardas das escolas e os carros que circulam pela esquerda). Mas mesmo estes vestígios arquitectónicos são ténues, até porque a Índia se tem encarregado de os ir degradando ao ritmo das monções. Assim, aqueles vetustos edifícios vão sendo consumidos pela Natureza, seja pelas chuvas que os mancham e destroem, ou pelas árvores que os vão penetrando a pouco e pouco, como que lembrando que em tempos houve selva onde agora só existe pedra e cimento.

Depois de ter ido à “Gateway to India”, o mais importante monumento da cidade, e de ter entrado no famoso Taj (um dos atacados pelos terroristas), decidi voltar de comboio para o hotel, para matar saudades das muitas viagens que fiz quando da minha primeira visita a este viciante país. Voltei ao meu passado mas também ao passado em geral, porque os comboios aqui são realmente uma máquina do tempo. Voltei a ver a confusão das pessoas que se atropelam para entrar nos comboios ainda em movimento, dos que se esticam para fora durante o trajecto, graças às portas sem portas dos comboios, da sensação de estar numa lata de sardinhas tal é a quantidade de gente que viaja neste meio de transporte. Mas as coisas lá vão funcionando (com muitos mortos à mistura) sem precisar de controlo nem de fiscais, de portas ou torniquetes. A Índia é assim mesmo, uma permanente surpresa de ordem no caos, ou de desordem no caos que no final do dia acaba por funcionar. Ao seu estilo e com muitas dificuldades, é certo, mas as pessoas lá vão sobrevivendo e tentando ser felizes.

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