Imaginary Love Letter

Meu amor,

Passaram-se dias desde que te escrevi a última vez, e nesses dias muito se passou em mim, dentro e fora. Vais perceber nas próximas linhas a razão do hiato momentâneo na cadência fiel das minhas cartas. Estava cansado da cidade, dos seus ruídos fundos e persistentes, da falta de paz que me impedia de pensar, quanto mais de escrever. Disse-te como preciso de terminar o livro, a editora questiona-me a cada instante, têm medo de perder o próximo Natal. Eu entendo que é crítico para as vendas conseguir terminá-lo no timing que o mundo precisa para o consumir, sei isso. Não sou um escritor inconsequente e marginal, desses que vêm na venda dos seus livros uma forma de prostitução intelectual, um mal necessário que os tortura e ao qual apenas cedem a contra gosto. A sua rebeldia leva-os a procurar todas as formas de purificar a sua consciência perante as intituições mundanas que os rodeiam, nomeadamente através de uma auto imposta procrastinação que acaba por fazê-los sentir que são eles que comandam o seu destino, e que a sua arte não está assim ao serviço da “plata”. Sou mais racional e mainstream que isso, como sabes. Não, o meu problema era concentração, precisei de sair daqui, destas rotinas castradoras que me prendem os dedos e me dão uma aparentemente incurável artrose literária, um “writer’s block” real que me amputa o pouco rasgo criativo que ainda me resta nas veias. Tive de ir embora para poder voltar a produzir e a destilar em palavras o que tenho dentro. Por isso fui, fugi se quiseres, para San Luis de Castilleros. Nunca te falei desta pequena aldeia para lá do mundo conhecido, literalmente perdida no meio dos montados da Sierra de Huelva. É para lá que vou quando não quero ir para lado nenhum. Foi lá também que estive contigo, mais do que comigo, como precisava, por isso te escrevo agora, para te falar de ti, e de nós, e para te contar como tudo de nós começou em mim, porque nunca o fiz a ninguém, nem mesmo a ti.
Na solidão da serra, e nos seus vazios, senti-me mais próximo de ti que nunca, ainda que a distância entre nós fosse grande em qualquer das escalas físicas conhecidas, como o é desde o nosso início. Mas eu tenho-te para além do espaço e do tempo, em dimensões intangíveis e inexplicáveis mas vividamente concretas. És feita de infinitos em mim meu amor, de imensidão de saudade, de desejo, de esperança. Provocas em mim todos os excessos, quebras-me limites, defines-me improváveis fronteiras do sentir, rasgas-me mundos novos, fazes nascer em mim descobertas de paixão que não acreditava serem possíveis. E o mais incrível, e talvez assustador, é que te sei ainda pouco, estamos a dar os primeiros passos do nosso amor, mesmo que sinta ter-te desde sempre. Nessa consciência pueril vejo-te como o Universo, que sei existir algures mas que não conheço ainda. Tu és todo o meu horizonte, a perder de vista, a totalidade do que os meus sentidos alcançam, o limite da minha realidade, tudo isso é certo e palpável até, mas sei seres, sei que seremos, muito mais do que o nosso hoje. É esse profundo desconhecido de galáxias e constelações, de super novas e big bangs, que quero desvendar ao teu lado, numa viagem a dois feita com os ingredientes de afeto, paz, loucura, compreensão, paixão, luz e incerto de que é feita a nossa vida, a nossa história.
Os dias na serra, que tiveram o sabor a anos em alguns aspetos, foram também de aprendizagem de mim. Sabes como estava quando nos vimos daquela primeira e última vez, sem todo o chão que preciso para me calçar a estrada. Parecia que todas as encruzilhadas da vida convergiram para me assaltar em simultâneo, numa curva inesperada da estrada, testando-me até à mais ínfima das minhas capacidades, ou incapacidades. Nem todos estes desafios, estas decisões, carregavam peso, longe disso. Mas estava perante mais caminhos que pernas tinha, e tantos eram incompatíveis entre eles que te confesso me sentia perdido, mais do que te quis deixar transparecer no momento e nas minhas últimas cartas. Mas sei que sem me conheceres bem, me lês com a lupa da tua intuição, e por isso talvez tenhas percebido pelo menos a superfície dos meus dilemas. Estar longe do ruído da vida permitiu-me olhar-me à transparência, sem as brumas e a poluição que me obscurecem a vista e o raciocínio. Li-me, e li o meu percurso passado e futuro, sem o atrito da pressa ou do quotidiano. Como se fosse um asceta indiano, consegui evadir-me do mundo, e de mim mesmo, bastar-me física e mentalmente, e assim, cristalino em todo o meu ser, pude navegar por muitos dos meus desconhecidos e encontrar meios e fins. Vi-me efectivamente de fora de mim, e assim alcancei algum nível superior de espiritualidade, creio, porque sem me aperceber fui limpando a razão e o sentir, vendo claridade onde antes existia dúvida. De um dia para o outro a floresta impenetrável do meu amanhã começou a abrir-se, as copas cerradas das árvores foram-se espaçando e a luz fluíu em mim dando-me vida e direção por entre o escuro. Não te vou enumerar tudo o que visitei nesse meu renovado caminho, apenas te vou falar do tanto onde te encontrei, seja o que revisitei na recente memória passada, o que sinto na boca do sabor do meu presente contigo e aquilo que despontou na visão do que ainda não vivemos.
A minha vida, até então marcada pela letargia de grandes nadas, mudou muito desde que nela entraste, no embalo suave do furacão de vida que geras a cada passo que dás, como a água vital que preenche todas as fendas e chega até onde o ar não penetra. Estava fechado em mim, impermeável a outros líquidos, frio, se quiseres, pelas dores passadas, chagas que carrego, como todos, como tu também. É distante esse tempo, quase não o consigo vislumbrar já apesar de tão recente, mas sei que estava irredutível na minha forte fragilidade, senhor solitário do castelo rude e frio onde me encerrei em dores feiro e desfeito. Era dual o meu sentir querida, porque a razão da minha insensibilidade e distanciamento eram os cacos em que me tinha ido desmembrando por culpa própria ou por máculas de terceiros. Mas estava bem, tanto quanto um moribundo que lentamente se esvai de vida pode estar. Ou melhor, achava que estava bem, talvez seja mais verdadeiro dizer assim. É que a nossa consciência, como a História, que é escrita pelos vencedores, toca muitas vezes a música que queremos escutar, e não a que o vento da realidade, dura, crua, nua, nos vai trazendo. Mas enfim, estava a viver os meus dias. Foi então que chegaste, vinda nem sei bem de onde, num comboio prateado que descansou ao meio dia em Atocha.
Sabia que a jornalista que esperava era bonita, a tua fama precedeu-te, e o Javier fez questão de o reforçar na mensagem que me enviou a relembrar o compromisso que tinha assumido com ele de te ir receber. Confesso que me tinha passado. A minha cabeça estava mais enlameada nessa altura e tenho este (mau, admito) hábito de eterno diletante de não me mundanizar com notas numa agenda ou entradas num calendário, apesar dos castigos que já sofri por isso. Nem quero pensar do que seria de mim se te tivesse faltado; incrível como uma decisão, ou a falta dela, pode mudar o rumo de uma vida, e ser o fiel da balança do juízo final de felicidade de toda a nossa existência. Mas fui, com algum amargo de boca por ter de fazer 6 horas de baby-sitting a uma americana de passagem por Madrid num massacrante dia de inferno quente de Agosto. Estava prestes a terminar o “A utopia de Gonzalo Velasquéz”, e via qualquer desvio de concentração como indesejado e como uma potencial desculpa para esta minha mente indisciplinada, e autónoma dela própria, justificar a menor qualidade da escrita. Conhecendo-me, tinha de lutar contra mim próprio nesse aspeto, e não querer ir à estação buscar-te fazia parte dessa batalha interna. Infelizmente, na hora, e felizmente visto à luz do depois, que os favores que devia a Javier me deixavam impotente para recusar um pedido do meu amigo e mecenas. Em boa hora o fiz.
A partir daí já sabes tudo, passámos a contracenar mano-a-mano no palco das nossas vidas, espero que num cartaz que se eternize, como aqueles populares musicais da Broadway que estão em cena há décadas e assim continuarão, alimentando os públicos diariamente renovados da Big Apple. Senti-me ser tão infantilmente óbvio quando te olhei a primeira vez, ainda tinhas tu o pé no degrau de saída da carruagem, que devo ter-te denunciado o impacto que me causaste. Sabia que eras tu aquela mulher de cabelos claros, vestida de linho azul marinho até aos pés, a olhar a plataforma de embarque no vazio à procura do amigo do teu amigo, que para ti era apenas um escritor de meia idade chamado Ignacio. Não fazia ideia em qual carruagem vinhas mas instintivamente tinha-me posicionado em frente da terceira de sete, talvez por ser o terceiro de sete irmãos, sempre gostei de me ocupar com jogos desses, ou talvez apenas porque sim. Da mesma forma, imaginei que serias a sétima pessoa a sair das entranhas daquele gigante de ferro. Foste a quarta, depois de três personagens dos quais todos as memórias se apagaram ao chegares a mim, nem sei mesmo se eram homens ou mulheres.
Foi “awkward” o nosso primeiro contacto, como me disseste depois e bem. Lembra-me aquela canção da Ana Torroja sobre dois ex amantes que se encontram todos os anos no dia do seu aniversário, “El siete de septiembre es nuestro aniversario, y no sabremos si besarnos en la cara o el los labios”. Claro que não foi entre a cara e os lábios a minha dúvida, o meu código genético de latino não é de tal maneira auto-confiante que me fizesse ter esse excesso de liberdade com uma desconhecida, ainda que uma amiga de um amigo. O dilema, quase instantâneo, foi entre abraçar-te, como vocês americanos fazem, de corpo cheio, ou tocar o teu rosto com o meu, num beijo como damos aqui em Espanha. Talvez por falta de coragem, talvez para não te assustar, acabei por te estender a mão, de forma formal e fria, meio envergonhada até. Respondeste com um “Hi there” acompanhado do sorriso desconcertante que repetiste vezes sem conta ao longo dos 360 e qualquer coisa minutos que durou o nosso encontro. Soube nesse momento que me apaixonara irremediavelmente por ti, senti-o na pele, dentro, enquanto me possuías de rompante e, sem pedires licença e de uma penada, me limpavas todo o passado onde não tinhas estado.
Dizer que nunca senti nada assim é parco de força perante a avalanche do que me provocaste. Nada do que te escrevi, que é o espelho fiel do que sinto, é construído em exagero ou fantasia. Não sou um adolescente imberbe e inexperiente que se entusiasma ao primeiro fogacho de uma chama romântica, muito pelo contrário. Tive a minha dose de paixões, de amores de uma paleta extensa de tipos, platónicos, carnais, longos, curtos, experimentei todos os tempos que as relações podem ter, minutos, uma noite, anos, com mulheres de mais géneros que me quero lembrar, de idades iguais ou diferentes das que fui tendo, conheci através delas outras culturas, países, religiões, raças. Sei pois do que falo, tenho termo de comparação nos sentimentos que uma mulher me pode provocar, e na total ausência deles também. Posso pois ler-nos de um fôlego, sem me engasgar, à letra de todos esses livros que nunca terminei, ainda que os tenha começado a escrever. Foste muito mais nesse segundo que todas me haviam sido, mais que as minhas tantas vidas somadas, por isso te digo com peso e certeza que a novidade que me mostraste, sem sequer tentares, foi absoluta, e me quebrou tudo o que tinha como certo e possível de existir num diálogo entre um homem e uma mulher. Foste, e continuas a ser, um mundo novo a cada instante, fora de qualquer cânone estabelecido até então em mim, surpreendente na tua essência, frutada e viciante no que me dás, consequente no sentir pintado de cor que a partir dessa hora e pelo tempo fora me geraste.
Passaram-se ainda poucas semanas desde que nos conhecemos, é certo. Vimo-nos fisicamente apenas nessa tarde estontenante que teve o seu ocaso com um beijo roubado a dois no T4 de Barajas, segundos antes de partires para além mar de mim. Temos por junto uma meia dúzia de horas de olharmos nos olhos um do outro, menos de metade delas de contacto de pele, minutos apenas de bocas coladas no clímax desse primeiro encontro. Tudo isso me está presente, mas nada me importa, com franqueza. Sou de me bastar com o que me entranha, mais do que dar ouvidos a outras vozes, até minhas, que falam do que é suposto ou não acontecer. Isso é verdade para tanta coisa na minha vida, mas veste-se ainda de mais verdade contigo. Quem se atreve a dizer-me que a escala do sentimento é necessariamente proporcional ao tempo de contacto, de cumplicidade e partilha? Está cientificamente provado por algum prémio Nobel que isso é assim? Não aceito facilmente dogmas sobre sentimentos, acho que permitir incursões demasiadamente racionais num reino tão individual e desconhecido é redutor, pobre de espírito e até perigoso. Posso sim provar-te o contrário, com base factual de mim, do que me tatuaste poro por poro, deste amor consciente e inconsciente também, desvairado de saudade e sonho, vivido em toda a minha plenitude de ser humano, de homem, este rasgar do peito, do coração, o abrir da alma de par em par, sem sequer véus de tão despida que é, a incompreensível constância da tua presença física quando estás tão longe, a magia com que me deitas e me acordas, o sabor do meu ar filtrado por ti, pela tua voz e sopro, o poder ampliado de cada coisa que nos passa nos dias que desde que nos conhecemos passamos juntos, esse sentir tão maior que o que era o meu máximo, mais verdadeiro e real, mais sensível e envolvente, tão mais puro e entregue. És superior a tudo o que tive até hoje e sei sem temer o erro que o serás por enquanto houver bater de vida em mim. Sou teu, sem reservas nem limites, sou teu desde que me sei ser, serei até me durar, mais longe se souber como, até ao fim do Mundo, como um certo príncipe disse um dia da mulher que amou depois da morte. É assim que te serei, maior que a vida, maior que eu, para além do nosso sempre.

Do teu, Ignacio

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